terça-feira, 8 de setembro de 2015

Mestre, por que a gente precisa sofrer na vida?



Pergunta: Mestre, por que a gente precisa sofrer na vida?


Mestre: Qual a natureza de uma onda? Água. Mas, e se a onda não sabe que ela é o mar, que a natureza dela é a mesma do mar? E se a onda acredita ser uma outra coisa, ser de uma outra qualidade, só porque está de uma forma diferente? Essa crença produz sofrimento!

A sua pergunta é: “por que temos que sofrer?” Vocês não têm que sofrer! Assim como a onda não tem que se confundir com outra coisa, a não ser com a água. Se a onda sabe que é água, ela não se preocupa se perde a forma, porque se mantém no mesmo lugar. Vocês não têm que sofrer, assim como a onda não tem que se assustar quando se dissolve no oceano, porque ela não deixa de ser o que é, seja na forma de onda ou de mar. Assim, você continua sendo o que Você É, quer acredite nisso ou não! Mas, quando você acredita nisso, confunde-se com outra coisa que você não é.  Você se confunde com a crença de ser uma identidade separada, de ser alguém separado, de ser “alguém” no mundo, então o sofrimento aparece. O sofrimento é somente um equívoco, uma ilusão, uma ideia sobre quem você é. Esta é a causa do sofrimento. Contudo, você não precisa sofrer - que é quando não se tem essa crença, essa ideia. Porém, se há essa ideia, essa crença, o sofrimento é inevitável, até que você a abandone e se reconheça em sua Natureza Verdadeira!

No dia em que a onda descobre que é água, ela não se importa mais, e, quando ela não se importa mais, ela não sofre. E sabe quando é o dia em que a “onda” chamada “pessoa” se descobre? Quando ela descobre que não é uma pessoa, assim como a onda, quando descobre que é água. Você não precisa sofrer, mas sofre porque ignora sua Natureza Real. Enquanto a ignorância, que é somente uma ilusão sobre si mesmo, permanecer, o sofrimento permanecerá.

Quando o rio encontra o oceano, o que é que muda? Se a água encontra a água, o que é que muda? Nada. No entanto, se o rio acredita que o oceano é uma coisa e ele outra, e tenta manter essa identidade de ser algo separado do oceano, o rio sofre, a onda sofre. Se a água que cai do céu, em forma de chuva, acha que é algo separado do rio, que vai perder sua identidade ao cair no rio, e puder manter esta crença, ela vai continuar sustentando o sofrimento. Mas se a água que cai do céu em forma de chuva sabe que tem a mesma natureza do rio, e o rio sabe que tem a mesma natureza do mar, ninguém sofre.

Você pergunta “por que temos que sofrer?” Vocês não têm que sofrer! Vocês precisam despertar para Aquilo que vocês são! Antes deste Despertar, há a ilusão da separatividade, e, com ela, a ilusão da ignorância, que traz a ilusão de “ser alguém” sofrendo. O corpo tem dor, mas isso não implica sofrimento. O sofrimento acontece quando a ideia “eu sou o corpo” está presente na experiência da dor, e é aí que o sofrimento acontece. Assim, a dor não é somente a dor, é o sentido de “alguém” se separando, na experiência da dor; é a ilusão “eu sou o corpo que dói”; é a “minha” experiência. 


Pergunta: E por que uns sofrem mais do que outros?

Mestre: Porque acreditam mais do que outros. Porque estão mais identificados com a crença de ser “alguém”, e não podem passar pela experiência da dor; comparam-se com “outros”, e esta comparação gera a ilusão de serem sofredores maiores. Não há sofredor maior ou sofredor menor. A ilusão de ser “alguém” na experiência da dor é sofrimento. Não existe um sofredor maior e um menor, pois o sofredor é só o sofredor, é a ilusão de ser “alguém”. A diferença está somente na comparação, não na experiência, não no experimentador na experiência.

Ouviram isso? Perceberam? Acompanharam que é exatamente como estou colocando?

Estou falando que a qualidade da experiência da dor não pode ser avaliada em metros, em intensidade. Quando você quer mensurar isso, pela comparação, passa a confiar, também, em mais uma crença: que há um sofredor maior e um sofredor menor.

A mente torna tudo relativo. A experiência da dor é a mesma para quem perde um dedo ou para quem perde um braço. A intensidade da dor para o organismo pode variar, mas se não há o experimentador na experiência, não tem sofrimento. Se o experimentador não está presente na experiência, não há sofrimento. O sofrimento implica a ilusão da verdade do que é, e esta verdade é a seguinte: não tem “alguém” aí sofrendo pouco, nem sofrendo muito. Definitivamente, não tem “alguém” aí! Quando se identifica com o corpo, você assume a ilusão de ser “alguém”, e nesta ilusão está a dor, sendo transformada em sofrimento.

Pergunta: E se o sofrimento é sem causa, por que você está bem em um minuto, e, de repente, no outro está mal?

Mestre: Você nunca está bem, nem mal. Você não existe na experiência da dor. A dor, por si só, assume o lugar dela nesse organismo, por “n” fatores, e nenhum deles tem a ver com Aquilo que, de fato, Você É em sua Natureza Real.  Você se identifica com o corpo e tem essa fala: “eu estava bem e agora estou mal”. O corpo sempre está mal, pois ele está sempre na iminência da dor. A natureza do corpo é caminhar para a morte e desaparecer. Então, a natureza do corpo é dor.

Participante: Eu tenho percebido aqui, no próprio mecanismo, que aquilo com que, há alguns anos atrás, eu considerava que estava me embolando, me identificando, era, na verdade, somente algo do corpo. Como exemplo, eu sentia uma espécie de angústia que não melhorava e, na verdade, era uma coisa bioquímica no corpo, com que eu me misturava, e achava estar com angústia, e não sei mais o que... E tem muita coisa que é só no corpo, bioquímica, com que a gente se mistura, e aí o sofrimento aparece. Eu comecei a perceber, há pouco tempo, que existem as alterações bioquímicas na “máquina”, que a gente se mistura com elas, e isso serve para o prazer também.

Mestre: Quando você diz “estou muito bem”, você quer dizer que o corpo está num momento agradável, pacífico, de relaxamento, mas ele está carregando em si, por sua própria natureza, o outro lado disso, que é a dor, que pode ser alterada com um medicamento. É tudo químico, neural, com a energia física e os impulsos elétricos se movendo. Não tem nada a ver com Aquilo que você É, e sim com a natureza do corpo.

O sofrimento não é do corpo, é do sentido de “alguém”. Está tudo atrelado à razão proporcional do "tamanho" da pessoa: na pessoa forte, robusta, o sofrimento é forte e robusto; na pessoa moribunda, o sofrimento é moribundo, decrépito; deu muita importância a si mesmo, há muito sofrimento; deu pouca importância a si mesmo, há pouco sofrimento. A mente, no ego, se apega ao prazer, quer o prazer, aliás, desde pequenos estamos viciados no prazer, somos condicionados a não sentir dor, resolvendo qualquer dor no corpo com medicação, e isso é péssimo. Vocês ficam viciados na ideia “eu sou o corpo” quando para tudo tem uma medicação. Ninguém quer sentir dor de nenhum tipo, e uma coisa que não percebemos é que a dor vem e vai.

Pergunta: Então, Mestre, por que sofremos?

Mestre: Sofremos porque isso faz parte daquela ilusória identificação que temos com o corpo. Como Consciência, a Verdade sobre nós mesmos está exigindo seu direito, e ela nos diz, sinalizando: “Olhe. Há algo errado e você tem que olhar para isso”. E é aí que você termina virando um buscador da Verdade.

Participante: Antes de conhecê-lo, Mestre, eu já havia desistido, decidido que não iria mais buscar ser feliz, porque era tanto sofrimento na busca de ser feliz que eu não mais dava conta...

Mestre: O único lugar no qual você é feliz é em si mesmo, em sua Natureza Real. O lugar geográfico não muda isso. Pessoas ou realizações externas não vão mudar isso. Você só se sente feliz porque aqui suas distrações são reduzidas consideravelmente, bem como as distrações de ser alguém ocupado com pensamentos, imaginações e crenças de como ser feliz. Aqui, você desiste de crenças de “como ser feliz”, acaba ficando quieto, e descobre, nesta quietude, que não há nada que você possa fazer para ser feliz. Seu esforço tem sido imenso para produzir infelicidade nesta procura de ser feliz, e aqui você é convidado a ficar sem esforço! E, então, o beijo da Verdade, da Felicidade toca seus lábios, porque você fica quieto. Somente estando quieto você se descobre com a Felicidade, sem desejo, expectativa, busca, procura, e sem estar identificado com a mente querendo coisas e o corpo desejando prazer.

O sofrimento é puro ego. Ele é passado ou futuro. Não há sofrimento agora, o sofrimento nunca é possível agora, ninguém está sofrendo agora. “Alguém” está sofrendo com o passado ou com o futuro, agora. Mas o Agora não se move, pois só a mente e a ilusão de ser “alguém” se movem no tempo e no espaço. Não há nada acontecendo, deixando de acontecer, ou que tenha acontecido neste momento, capaz de gerar sofrimento. “Alguém” sempre aparece no tempo, porque você precisa se lembrar - e lembrar-se é imaginar o passado. O passado só pode ser imaginado, como o futuro, também. Não há nenhuma evidência, agora, da verdade de um passado ou de um futuro. O sofredor é a ilusão de “alguém” vivendo essa coisa, precavendo-se do futuro, com base na imaginação do passado.

Isso é medo, é sofrimento, é ilusão da Verdade do que É, e, para esta Verdade, isso é somente uma imaginação. A Verdade é que esse momento é tão minúsculo, tão diminuto, que não comporta nenhum sofrimento. Não há espaço Agora. A Liberação é a Consciência, e a Consciência é Isto fora desse movimento do tempo, onde o sofredor não entra. O sofredor se move nesse tempo.

Você pergunta: Nós precisamos sofrer? E eu respondo: Nós precisamos sofrer até compreendermos que não somos "gente", que "gente" é uma ideação, uma imaginação, um pensamento! É isso...


*Fala transcrita de um encontro na cidade do Rio de Janeiro em Agosto de 2015


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