segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Um trabalho se faz necessário




Por que é que não funciona como nós queremos que funcione? Por que a busca é algo que precisa terminar? É muito fácil ter um vislumbre da Verdade! Não há nenhuma dificuldade em você ter um vislumbre desta Liberdade, desta Verdade - um vislumbre desta Liberação. É algo simples e fácil, isto porque a sua Natureza Verdadeira é a Verdade, a sua natureza livre é a Liberdade. Ter um vislumbre de Deus é simples e fácil, porque a sua natureza divina é Deus. Mas, um vislumbre da Liberdade não é a Liberdade, um vislumbre da Verdade não é a Verdade, um vislumbre de Deus não é Deus. Deus, a Verdade e a Liberdade não são o resultado de um vislumbre, e sim o resultado de um trabalho, que não é fácil, embora não seja uma conquista difícil, aliás, não se trata de uma conquista. Quando eu digo que não é fácil, não estou dizendo que é difícil, estou dizendo que é fruto de um trabalho.

Portanto, esse vislumbre da Verdade você pode ter a qualquer momento, ouvindo uma fala como esta, assistindo a um vídeo ou lendo um livro, ou diante do impacto de um momento de encontro com um belo por do sol ou o nascer do sol. Diante deste momento, o impacto da Presença, presente neste instante na Consciência, que não está separada desse evento, momento, instante, dentro e fora, torna possível um vislumbre por não haver separação. Mas, esse vislumbre não é a Verdade, a Liberação, a Libertação ou Deus.

Isso requer o fim de todo condicionamento, de todos os conceitos e crenças, de toda a programação da mente egoica, em seu "movimento de ser", de tentar ser. Por isso, um trabalho se faz necessário. A mente se engana quando quer Isso do modo como ela projeta, e quando acredita que pode realizar Isso sem um trabalho. Este é um trabalho da própria Graça, da própria Presença, da própria Consciência. Como não é a mente que planeja e realiza, este trabalho não toma o formato que ela idealiza. Isto está além da mente, além da sua programação, da sua forma de realizar. Tudo o que a mente pode realizar está dentro do campo dela mesma, é algo dentro do seu próprio condicionamento.

Vocês podem se reunir em grupo e se dedicarem a estudar um determinado livro sagrado, ou alguns livros sagrados, ou podem ouvir falas ou assistir a vídeos e filmes, tudo isso é muito inspirador, mas essa inspiração não passa da egoidade, pois tudo isso ainda está acontecendo no ego. O conhecimento, a experiência, a motivação, a emoção e o desejo estão acontecendo no ego. Toda e qualquer prática, e disciplina idealizada pelo pensamento, está acontecendo no ego. Nada disso constitui real trabalho, porque tudo isso ainda mantém esse fundo de condicionamento, esse padrão do “eu” que, na verdade, é só a mente se ajustando, copiando, criando a sua própria programação.

A mente, em sua imaginação, busca realizar uma liberação, uma verdade, que ela imagina, idealiza, além de um Deus idealizado e imaginado, algo ainda criado por ela mesma. Portanto, nada disso é real: participar de grupos de estudo, de debates ou de fóruns, fazer constantes leituras de livros espirituais, sagrados, místicos ou esotéricos, a prática da meditação, respirar de uma certa forma, cantar algumas músicas, recitar algumas palavras sagradas - os chamados decretos -, ou seja, estas coisas todas que vocês conhecem. Nada disso é Real, funciona, ou tudo isso "funciona" na mente, com a mente, para a mente, a favor da mente.

Depois de um certo tempo você conhece uma habilidade, que é a habilidade de silenciar a mente. A mente silenciando a mente, aquietando a mente, espiritualizando a mente, e, depois de um certo tempo, você se torna alguém bastante espiritual, por sinal, bastante orgulhoso de sua espiritualidade, uma "pessoa", de fato, especial. Mas nada disso é a Verdade, é a Liberação, é Deus... Nada disso é o Despertar. Você passa por muitas experiências, muito aprendizado, alcança muitas virtudes, abandona muitos vícios, passa a falar de uma forma mais suave, comporta-se de uma forma mais espiritual, deseja o bem de todos os seres do planeta, já perdoa com facilidade, não carrega preconceitos, não carrega mais a vaidade, é "alguém" muito humilde, muito espiritual. Porém, eu continuo dizendo: nada disso é Real, aliás, é real na mente, com a mente, pela mente e para a mente, mas isso não é Liberação, não é a Verdade, não é Deus, não é o Despertar.

Escutam isso? Estamos juntos? Alguém irritado na sala depois desta fala? O mundo precisa de boas pessoas, a sociedade conta com boas pessoas. Mas boas pessoas são somente boas pessoas, e uma "pessoa" não está Liberada. Ela pode estar espiritualizada, mas não Liberada. Esse vislumbre da Verdade é algo importante, para que a pessoa perceba que há algo além da "pessoa", além do ego e de todo o sofrimento. Quando o sentido de separação temporariamente desaparece você tem um vislumbre da Verdade. Então, você sabe que não é o "eu", o "mim", a "pessoa" - isso não é você. Você não é esse ''eu" que a mente diz que você é; você não é quem acredita ser. Mas, por mais espiritual, virtuoso e humilde que você seja, por mais mansa que seja a sua fala, você ainda continua preso, cativo, aprisionado, iludido, na ilusão da mente egoica, separatista, dualista; na ilusão da mente vivendo suas crenças, seus condicionamentos, conceitos e desejos; a mente vivendo seus medos, suas experiências e seus conhecimentos, inclusive os conhecimentos da "não mente"; a mente conhecendo a importância do não conhecimento, e da sua experiência na "não experiência"; a mente que sabe, conhece, domina e controla, que sabe muito bem tudo isso. 

*Transcrito de uma fala de um encontro online via Paltalk no dia 7 de Setembro de 2015


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

O ilusório demônio da separatividade



Esse momento de Satsang é uma oportunidade de estarmos juntos nesse encontro com o Silêncio, com essa Verdade, que é a Verdade de nós mesmos. Aqueles de vocês que quiserem fazer alguma pergunta podem colocá-la aí por escrito. Essas perguntas não são perguntas que nós possamos responder. Vocês podem ter perguntas com a intenção de uma resposta, mas essas perguntas, na verdade, não possuem nenhuma resposta. 

Eu falo das perguntas fundamentais. As respostas  a essas perguntas fundamentais são vivenciais, e não verbais. A mente egoica ama respostas verbais, teóricas, conceituais, e este é o interesse da mente. Aqui, o nosso interesse está na investigação da natureza do perguntador. Não temos qualquer interesse em dar respostas conceituais, teóricas, verbais para este, assim chamado, perguntador. Não saímos da egoidade identificados com a mente, tendo e recebendo respostas para perguntas não fundamentais. Essas perguntas não fundamentais são as perguntas dentro desse circuito, desse círculo dos pensamentos, das ideias, das conclusões.

A Verdade está além da mente! Essa mente egoica aparece como um fenômeno aparente e ilusório, semelhante a uma imagem tridimensional de uma miragem no deserto. À distância, aquela imagem pode parecer real, mas é apenas uma miragem. Quando tratamos dessa questão do Despertar, estamos tratando da clara constatação dessa aparição como algo ilusório. Portanto, estamos aqui profundamente interessados na natureza da ilusão. 

Toda e qualquer pergunta que você faça neste encontro, sendo uma pergunta fundamental, irá tratar disso. Gostaria que você ficasse à vontade para fazer suas perguntas. Não se preocupe em acertar; faça aquela pergunta que surgir aí em você. A clareza, a compreensão, é o fim do medo, o que alguns chamam de Despertar, e outros de Iluminação. É o fim do sentido de separação, do medo, dessa necessidade ilusória de vivermos dentro de um mundo puramente imaginário, que é o mundo construído pelo pensamento.

Participante: Por que essa necessidade, quase que vital, de construir uma imagem para os outros?

Mestre Gualberto: Essa é a necessidade da mente egoica. Essa suposta entidade se apoia nessa aparição, no pensamento, nessa imaginação, e, assim, cria essa imagem da pessoa que acredita ser: a esposa, o marido, o filho, a mãe, o pai, o sobrinho, o amigo, o vizinho. Essa imagem, esse marido que ele acredita ser, sustenta a imagem do outro, da esposa. Ele é o marido para a imagem da esposa, o pai para a imagem que ele mesmo faz do que chama de filho. Este mesmo homem, esta assim chamada "pessoa", no consultório, é o dentista; para aquele que mora ao lado da sua casa, é o vizinho; para aquele senhor mais velho que ele, é o filho. Então, ele tem também o que chama de pai, e o que chama de mãe. Assim, este moço, este marido, que é esposo, que é pai, que é dentista, que é vizinho, também é filho, tem também um pai e uma mãe. Estamos falando dessa mesma “pessoa”. Assim tem sido essa sua vida: uma vida de imagens. Tudo isso baseado, a princípio, na imagem que você tem de si mesmo, de ser "alguém". 

Quando eu pergunto “quem é você?”, você me responde com uma imagem. É só o que você tem para me dizer, pois não pode me dizer outra coisa acerca de si mesmo. Não é possível você saber quem você é. Tudo o que você pode saber, acerca de quem você é, ainda é uma imagem.

Se alguém diz: “Eu sou um Deus”, isso é uma imagem; “Eu sou um avatar”, isso é uma imagem; “Eu sou um pecador”, “Eu sou um santo, “Eu sou um sábio”, “Eu sou um tolo”, “Eu sou inteligente” – tudo isso são imagens. Portanto, essa necessidade, como você diz, “quase que vital”, de construir uma imagem para os outros, isso é, de fato, vital para essa ilusão de ser "alguém". O ego aprecia muito isso! É essa autoimagem que se sente ferida, magoada, ofendida, abandonada, traída, frustrada. Essa autoimagem que sofre é uma imaginação do pensamento, uma ilusão com um sofrimento semelhante à verdade de uma miragem no deserto.

A pergunta é: É possível viver sem imagens? Sem essa autopreocupação, que é algo puramente imaginário? Sem essa autoimportância, a importância dessa autoimagem, que é a base de toda miséria, de todo o seu sofrimento? Sem essa autoimagem você não sofre. Quando é um dia de sol, é um dia de sol; quando é um dia de chuva, é um dia de chuva; quando é um dia frio, é um dia frio; e quando é um dia de calor, é um dia de calor. Você fica apenas com a vida como ela se apresenta, como ela se mostra, sem o ego, sem o “mim”, sem a “pessoa”, sem essa ilusão de alguém.

Participante: Só na sua presença, Mestre, porque aqui está difícil.

Mestre Gualberto: Então permaneça na minha “presença”, não saia dela! Minha presença é a Presença presente, é este “Eu Sou”, que Você é. Não se afaste disto! Você se afasta quando dá asas à imaginação; quando se confunde com os pensamentos e viaja com eles; quando quer proteger alguma coisa ou lutar contra; quando teme perder algo ou quer ganhar alguma coisa. A vida não está em suas mãos! Você não controla absolutamente nada! Você não tem qualquer responsabilidade por um dia de sol ou um dia de chuva. Você não tem a responsabilidade de manter o seu coração batendo, ou de fazer com que as células do seu corpo continuem recebendo nutrientes. Você não controla a vida do lado de fora do corpo, e nem de dentro. Você não controla o que acontece no trânsito. Você sai pela manhã de casa, mas não tem nenhum controle, nem sabe se vai conseguir voltar para casa. Há um poder movendo tudo, e, certamente, não é seu! Não é você fazendo isso! Esse “você”, essa autoimagem, essa ideia acerca de si mesmo, é uma fraude! Você é uma ilusão – esse “você”, que você acredita ser. Enquanto você alimentar pensamentos acerca disso, o sofrimento continuará; a culpa e o medo continuarão presentes.

Não se confunda com nenhum pensamento, com nenhum sentimento, com nenhuma emoção, com nenhuma sensação. Isso não é você! Não se confunda com isso e pronto! Trabalhe isso, essa desidentificação. Você pode fazer isso. A Presença da Graça está aí, sempre disponível. Essa é a sua única liberdade: a liberdade de não se identificar com o que acontece; e não de mudar o que acontece! Sua liberdade é a liberdade de estar desidentificado do corpo, da mente e do mundo. Os resultados podem ser bons ou maus, positivos ou negativos... Coisas boas e coisas ruins sempre acontecerão. Relaxe. Desidentifique-se de todas as histórias criadas pelo pensamento, desse imaginário mundo criado por ele, e pronto! É só o que você pode fazer. Verdadeiramente, você pode fazer isso. É um trabalho que pode levar algum tempo, embora isso não requeira tempo algum. Faça isso imediatamente! Se novamente a ilusão surgir, faça isso de novo, imediatamente! E surgindo de novo, faça isso imediatamente! Momento a momento... A ilusão será vencida pelo cansaço. Ela tem que se cansar e se afastar. É assim que este “demônio” é exorcizado – o ilusório demônio da separatividade. Esse sentido de separatividade é, de fato, tratado nas escrituras religiosas de todo o mundo como o satã, o diabo, o opositor, o adversário.

Vamos terminar e ir dormir? Deixem o corpo ir dormir, e mantenham seus corações acordados na Consciência.


Namastê.

*Extraído de uma fala em um encontro online na noite de 16 de Setembro de 2015

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Ananda, a Alegria do Ser!




Nós estamos falando nesses encontros de algo que significa, para você, sua Real Liberdade, sua Verdadeira Liberdade, que é não sustentar nada, não segurar nada. Se você segura um sentimento, um pensamento, e se encontra uma base na qual você se sustenta, isso mais uma vez lhe escapa.

Isso é como tentar segurar um móvel dentro de um espaço, esquecendo a realidade do próprio espaço, no qual esse móvel aparece. Você se perde quando sustenta um sentimento, um pensamento, uma crença, um ideal, uma certeza, um conjunto de ideias. Você se perde desse espaço, e se situa segurando uma aparição. Quando o espaço está ocupado e você olha para ele, seus olhos se prendem nos objetos presentes neste espaço, e o espaço, em si, é esquecido. Enquanto sua atenção está no objeto que observa nesse espaço, você esquece o próprio espaço; você se perde do espaço, e deixa de reconhecê-lo.

Da mesma forma, acontece quando você se perde de si mesmo,  e quando segura um pensamento, uma emoção, uma sensação, uma história, uma lembrança, uma memória, uma provocação. Quando alguém se aproxima de você e o chama de estúpido, se você segura essa ideia, então, de fato, é um estúpido; você se identifica com uma ideia, perde-se de si mesmo, situa-se numa crença e num pensamento. Você é o espaço, mas se perde desse espaço quando se prende a qualquer forma de pensamento, a qualquer crença, conceito, ideologia e imaginação.

Quando nós falamos sobre o sentido do eu, de ser "alguém", estamos falando exatamente disso: de se perder numa emoção, sensação; se perder num pensamento, numa ideia de ser "alguém". Por exemplo, alguém que se perde na ideia de "ser inteligente", que não é a real inteligência, e a crença de "ser inteligente" não é inteligente. Você jamais se ofende com alguém por ele considerá-lo uma pessoa inteligente, mas se ofende quando o considera um estúpido. Você se perde no pensamento, na crença de que é um ser estúpido, uma pessoa estúpida, e fica ofendido, com raiva, aborrecido, mas não quando alguém diz que você é inteligente. Na verdade, você é de fato uma crença e, quando você é uma crença, está dentro de uma limitação. Essa é a limitação do ego, e assim ser inteligente ou ser estúpido é estar em uma crença. Agora mesmo, você é este espaço, este espaço vazio. Neste espaço vazio, os móveis aparecem; os pensamentos, as emoções e os sentimentos aparecem; a ideia “sou inteligente” ou a ideia “sou estúpido” também aparecem.

Quando a Graça o coloca diante desta Presença, este espaço vazio chama-se Consciência! Essa Graça, essa Consciência é exatamente o que estamos colocando: um espaço vazio. A mente  e o corpo aparecem neste espaço, bem como as crenças e as descrenças, as opiniões, os julgamentos e tudo mais. A Liberdade de ser é essa Consciência, a Consciência consciente das aparições. Você fica inteiramente consciente.

Quando alguém se aproxima e o chama de estúpido, você está consciente de que não foi você quem recebeu essa nomeação. Se não se prende a essa ideia, você permanece como esse Espaço Vazio, a Real Consciência, a Consciência consciente dessa crença. Entretanto, quando se perde nessa crença, você se situa no tempo e no espaço, como uma entidade separada, alguém que acredita "ser alguma coisa". Há uma grande limitação, que, agora, eu chamo de mediocridade: situar-se na mente, situar-se sendo "alguém", na crença de "ser alguém". Você é inteligente, eu aprecio sua inteligência, e nesse momento você se sente feliz, porque alguém apreciou sua capacidade, sua habilidade, sua destreza, sua capacidade de compreender, de entender, de raciocinar. Quando faz isso, você se situa no tempo, como alguém que acredita ser aquilo que outros dizem "que você é". O ego adora isso: ver confirmadas as suas crenças! Isso, apenas, fortalece em você o sentido de "ser alguém". É o que eu acabei de chamar, agora há pouco, de segurar um pensamento, segurar uma convicção, uma crença, uma ideia.

Algumas vezes eu provoco isso nesses encontros. Eu digo: você é arrogante – e você acredita nisso. Ao acreditar nisso, você abandona esse Espaço que não tem nome, que não pode ser nomeado, classificado, julgado, avaliado. Você abandona esse Espaço e se situa na crença de "ser alguém", e "alguém" arrogante. Porém, o ego não se considera arrogante, mas sábio, inteligente, e isso fere esta autoimagem que você tem de si mesmo, de si mesma.

Percebem isso?

Tudo isso é somente uma crença, e você acaba de se situar numa ideia, que é a ideia de ser arrogante. Então, no ego, nessa crença, nesse hábito, vício, de sustentar ideias sobre si mesmo, você não é real, e sim um joguete de fácil manipulação. Você acredita facilmente em qualquer coisa, mas quem acredita? Essa pessoa, que você acredita ser, é o ego.

Eu estou desafiando você a permanecer jamais tocado por qualquer opinião, julgamento, avaliação, pensamento – os seus pensamentos ou os pensamentos dos outros sobre você. Eu estou dizendo que isso é possível. Não estou dizendo que isso é algo fácil, mas estou dizendo que é possível.

Seu trabalho em Satsang é reconhecer a Verdade sobre si mesmo, e eu estou apontando isto para você! Quando eu aponto para você, eu digo: Você é real. Mas eu não estou falando desse “você” que você acredita ser; eu estou falando do Vazio, do Espaço, deste imensurável Espaço! Estou falando dessa Coisa sem nome, sem forma, que não é arrogante, não é estúpida e não é inteligente. Estou falando Daquilo que permanece como pura Consciência, Presença, Realidade.

Como é que soa isso para vocês?

Não há nada de misterioso nisso... É somente o reconhecimento Daquilo que Você É! Um reconhecimento que não pode ser capturado pelo intelecto, porque o intelecto não entra nisso! Você pode capturar isso, mas não pode prender isso como uma aquisição, também, do intelecto.

Você é o Buda, o Cristo, é a Consciência, é a Verdade! Quando eu aponto para você, eu digo: Você É! Eu não estou afirmando nada. Eu estou dizendo: Você É esse Vazio. Esqueça o termo Buda, Cristo, Deus. Permaneça sem ideias sobre isso, presente aqui, agora, e somente olhe você capturado, mais uma vez, pelo mesmo velho padrão de "ser alguém", que depende da opinião, do julgamento, da avaliação dos outros; da ideia que os outros têm sobre você.

Você pergunta: "sou o espaço onde toda experiência acontece?" Eu estou dizendo exatamente que você é todo o Espaço, não somente o espaço onde toda experiência acontece. Você é todo o Espaço... É somente    Espaço. O corpo e a mente são aparições, como as ideias, as crenças, “inteligente”, “arrogante” e “estúpido” são aparições, e você permanece aí.

Quando vêm a esses encontros, vocês acham que vão descobrir algo mágico. Porém, se vocês descobrirem algo mágico, será um truque, pois aquilo que chamam de magia é somente mais uma ilusão. Esse Espaço é só o espaço. É interessante falarmos, um pouco, sobre isso. Alguém tem essa coisa chamada despertar, realização de Deus, Iluminação, como algo que vai torná-las pessoas especiais; alguns acreditam nisso. Você não é especial na Realização! Nesta Realização, você "não é"! Quando essa Realização está, você não está! Você não está mais, para ser elogiado ou difamado; não está mais para se ofender, quando lhe chamam de arrogante ou estúpido, nem para se vangloriar ou se sentir especial, quando dizem que você é safo, inteligente, pois isso não faz a menor diferença.

Alguns dizem, já disseram para mim: você é uma fraude. Alguns já disseram para mim: você é o Guruji. Alguns já disseram para mim “eu não acredito em você”, e outros já disseram “Você é o meu Mestre”. Ok, eu digo para eles. Isso é com eles, não é comigo. EU SOU O QUE SOU e isto continuará assim. Está claro isso, que são somente ideias, crenças? Jamais se ofenda, magoe-se, ou fique triste, com o que pensam sobre você, ou falam de você. Todo e qualquer pensamento é só pensamento, e tem, somente, a realidade que o pensamento tem, nada além disso. Mas, quando você segura isso, isso assume uma realidade para esse "você" que você acredita ser.

Participante: O fato de ser Iluminado, ou Desperto, tem a ver com a alegria interna que jorra do coração, sem necessidade externa ou meios externos para isso?

Mestre: Deixe-me colocar de uma outra forma, dando resposta a sua pergunta, naturalmente. A natureza dessa Consciência, desse Vazio, dessa Presença, é a natureza do Ser, Aquilo que podemos chamar de alegria. Mas, compreenda, alegria de uma qualidade inteiramente diferente da alegria que a mente conhece. A mente conhece a alegria quando ganha um prêmio, um presente, ou passa em um concurso público, numa prova. Porém, esta alegria da conquista, da realização de algo, é uma alegria circunstancial, momentânea; é uma alegria causada. A alegria do Ser, da Consciência, da Presença, de sua Natureza Verdadeira não tem causa.

Na Índia eles chamam de Ananda, que é uma palavra sânscrita para Felicidade –  uma alegria sem causa, não dependente, não circunstancial. É uma alegria que não pode ser roubada, tirada de você, porque você é esta alegria. Não é algo que você sente, é algo que você É. A natureza desta Alegria é Ananda, Felicidade, Beatitude.

Quando você está diante de um Mestre vivo, fica claro o que estamos falando: há algo que emana de Sua Presença, do Seu Silêncio; há algo presente em Seus olhos, e por trás da Sua voz; algo que silencia e aquieta você; algo que, também, lhe permite desfrutar dessa mesma alegria de sua Natureza Real, de sua Natureza Verdadeira, Algo que É você. Tudo o que você está para fazer, aqui, nessa vida, é desfrutar desta Alegria, que é a Alegria de sua Natureza Real.

Uma outra palavra para esta Alegria é Amor, que não é algo motivado pela forma, ou ligado a ela; não tem nada a ver, absolutamente nada, com a forma masculina ou feminina, ou com a forma animal. Não é amor às pessoas, aos animais ou às plantas... É algo além da forma... É a fragrância presente em todas as direções, que caminha para todas as direções. Assim, como esta Alegria sem causa, é este Amor sem causa: algo que não tem contrário, não tem oposto, não pode mudar. Você não pode transformar esta Alegria em uma outra coisa.

O Sábio é pura Alegria, é puro Amor, e você não pode entristecê-lo; você não pode fazer isso. Ele não vai amá-lo porque você O ama. Ele vai amá-lo porque Ele não pode deixar de amá-lo. O seu amor é condicional, o do Sábio é incondicional! Sua alegria é condicional, a Dele é incondicional!

É isso. Vamos ficar por aqui. Boa noite!

*Transcrito de uma fala em um encontro na cidade do Rio de Janeiro em Agosto de 2015 

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Ser alguém é uma crença


O que o sentimento representa? Não dê importância ao pensamento. Todos são mentirosos, são suspeitos, trazendo um sentimento falso. O sentimento só é real quando ele não tem pensamento. Se ele tiver pensamento, é o pensamento produzindo isso. Quando eu digo “ele é real”, é real só no sentido de que ele está passando. Então, na verdade, ele não é real, apenas uma coisa passando pela máquina, pelo mecanismo. 
É que vocês, durante muito tempo, têm valorizado muito o sentimento, sobretudo como uma história - a história que o pensamento conta sobre ele. Isso é uma mentira, é o ego. Se o sentimento está aí, ok, ele tem que se revelar. Essa é a mecânica do sentimento: a revelação do que ele tem que mostrar, mas não dê história a isso. Se você der história, será capturado de novo no ego. Não capture o sentimento, apenas constate sua presença e permita que ele se revele. Quanto ao pensamento sobre ele, este é dispensável. O sentimento é real, o pensamento é uma fraude... o pensamento sobre o que estou sentindo. Quando digo “eu sentindo”, não tem o “eu”, somente o sentir. Por isso o sentir é real, e é real somente como algo passando. O pensamento não; ele é completamente uma fraude, uma mentira. 
A valorização do pensamento tem sido muito forte por vocês. Valorizam o pensamento e se apoiam no sentimento para ser alguém: “Alguém disse algo que me aborreceu”, ou “disse algo que me preocupou”, ou “disse algo que me entristeceu”. Isso vai trazer um sentimento específico, mas esse “alguém” é só pensamento agora, é só imaginação. Se você não valorizar o pensamento, o sentimento desaparece - esse sentimento que é uma fraude. Ele vai mais rápido do que esse sentimento sem pensamento que se apresenta aí, que também desaparece. 
Participante: Mestre, já aconteceu várias vezes comigo, aqui em Satsang, de começar a chorar sem parar, mas nem tinha história, eu nem sabia o porquê. Só havia o choro.
Mestre: Então, esse choro, esse sentimento, é bem natural. É a máquina se organizando de novo. Ela está desequilibrada, mas está se organizando.
Participante: Como o riso também. Quando a pessoa fica rindo, rindo, rindo sem saber o porquê está rindo.
Mestre: Sim, o riso também. Agora, se o pensamento entra e começa a contar uma história, essa história é a mente egoica se apavorando com o medo, falando o que é o medo, explicando o que ele é, querendo mudar isso. É claro, a história quer mudar o quadro. Quando a história quer mudar o quadro e você está capturado por isso, você é uma pessoa. Quando você não está capturado pelo pensamento, ele não tem como ser alimentado. 
Quero que você permaneça comigo nesse "lugar" que é imutável, que não escuta histórias, que não sustenta sentimentos, nem emoções, nem sensações. Permaneça comigo nesse "lugar". Eu Sou esse Espaço... Esse espaço que você É aí, nesse "lugar". Este é o Espaço, este é o lugar, mas a mente adora contar histórias.
Participante: A gente sente uma angústia, e pensa que ela não pode ter vindo do nada. Aí já começa a querer se livrar dela...
Mestre: A mente diz que não veio do nada, mas tudo está vindo do Nada, inclusive o próprio pensamento. E quando digo “do nada” é do Nada mesmo! Não tem significado nenhum, é só algo passando pela máquina. O sentimento e o pensamento estão vindo do Nada, voltando para o Nada, mas o pensamento quer dar um significado: "estou angustiada", ou "estou triste", ou "estou deprimida porque"... aí conta uma história. E, para essa história, a pessoa precisa do tempo, precisa do pensamento, então ela precisa do passado ou do futuro. É aí que você aparece como um ego, como uma pessoa. Você quem?
Não segure o pensamento, não se apoie no pensamento, não se apoie no tempo, não se apoie nesse sentido de ser alguém. Pare de contar histórias! Viva sem a mente. Viva sem o futuro e sem o passado. Viva sem amigos, sem inimigos, sem pessoas das quais você gosta e não gosta. Viva sem isso! Tudo é pensamento! São histórias que o pensamento conta sobre alguém que você acredita ser, sobre outros que você acredita que existem. É tudo uma questão de trabalho, de ficar somente no ouvir, no escutar, no sentir, mas não ser importante, não se dar essa autoimportância: “alguém está falando mal de mim”; “alguém não me compreendeu”; “alguém está me rejeitando”; “alguém não gosta de mim e eu gosto tanto de alguém..." É tudo a mesma história - a história que o pensamento conta sobre o "alguém" que você acredita ser. O sentimento, em si, é muito belo, quando é só sentimento, mas é muito feio, quando ele tem uma história.
Participante: Essa é a lição de casa, não é? Isso é algo que todos podemos fazer, que é trazer a atenção para esse presente momento, observar esses vícios, esses hábitos, certo? Eu percebo o hábito do pensamento de querer sempre justificar o porquê daquilo, seja o sentimento ou outra coisa, para si mesmo, em primeiro lugar, e depois para os outros.
Mestre: É... faça isso. Não alimente isso. Não alimente a história de "alguém", de ser "alguém". Não alimente a oportunidade que a mente egoica tem de se manter nessa continuidade. Então, o dever de casa, como foi colocado, é este: faça isso lá, faça isso aqui, faça isso em toda parte!
Não adianta você olhar hoje, que é um dia de sol, e ficar reclamando a falta de chuva. Isso não vai trazer a chuva! Não adianta você exigir que o sol vá embora e as nuvens cubram o céu e a chuva desça sobre você. Isso é uma exigência injusta, descabida, inútil. É você tentando mudar o que É. A vida carrega toda essa beleza porque ela é o que é. Nada pode ser acrescentado a ela, nem tirado dela, porque você quer.
Diga sempre isso para si mesmo: “Eu não me importo”; “eu não me importo com o que penso, com o que pensam, com o que sinto, com o que não estou sentindo”. Diga sempre para si mesmo: “Eu não me importo”; “eu permaneço intocável”.
A vida de muitos é uma vida de dependência de sensações, de sentimentos, de emoções e de pensamentos. A vida de muitos, que são a maioria, é assim porque eles se importam. Importam-se com o que pensam sobre si mesmos, com o que outros pensam sobre eles... Se é dia de sol, se é dia de chuva... Querem que o sol se abra porque está chovendo, e eles não estão felizes com a chuva, ou se importam porque querem que o sol se esconda, as nuvens cubram o céu e a chuva venha. Importam-se porque é frio, porque é calor... Porque não deu certo, ou porque deu certo, mas não tão certo como eles esperavam...
Você jamais estará feliz sendo "alguém", porque ser alguém, aqui, é uma crença - uma crença que distorce tudo, anula tudo, falsifica tudo. Você para de ver a beleza do mundo como ele é, da vida como ela é, quando “você” está aí. Fique atento a isso! Aplique seu coração inteiramente nisto que É:  quando é inverno, é inverno; quando é verão, é verão; quando é primavera, também, é primavera... Quando é dia de sol, é dia de sol; e quando é dia de chuva, é dia de chuva. Quando há uma emoção de alegria, é alegria... Quando é de tristeza, é tristeza. Quando há prazer, há prazer, e quando há dor, há dor. Diga: “Eu não me importo”; “isso ainda não é um problema para mim”. Quando houver pensamento, tem pensamento; quando não tiver pensamento, não tem pensamento. Há uma ilusão comum entre os buscadores: eles querem cessar o pensar.
Não crie história, não interprete, não crie conflito com o que É. Não seja tão pessoal. Não seja nada pessoal! A vida não está girando em torno de você. Não é verão para você ser feliz, não é inverno para você se sentir deprimido no frio. Não é um dia de sol para você ficar alegre e ir para a praia. Não é dia de chuva para você ficar em casa vendo “Netflix”. Não tem nada acontecendo para fazer a sua vida ser como ela é. Ela é o que ela É! Não tem nada acontecendo para ela ser assim. Ela é assim, porque é assim! Você não tem importância nenhuma nisso.
Então, não diga: “Eu preciso me defender desse medo”; “Preciso me defender desse sentimento”; “Preciso ser amado por alguém”; “Preciso ter alguém para amar”. O que significa isso?  “Eu preciso ter alguém”; “Ninguém me quer”. Tudo fantasia! Acolha o que É! Fique com o que se apresenta e pare de dar importância a si mesmo. Então, diga: “Eu não me importo”, ou: “Vou acolher, estou acolhendo... ok, não me importo. Estou acolhendo...”
Eu quero contrariar o seu ego. Eu quero que você abandone as suas escolhas. Eu preciso que você confie em mim. Quem está falando? Alguém? Não. Quem está falando? Essa mesma Consciência que brinca o tempo todo com a pessoa que você acredita ser.
Então, diga: “Seja feita a Tua vontade!”

*Extraído de uma fala ocorrida na cidade do Rio de Janeiro em Setembro de 2015


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