quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Os opostos não são antagônicos


A mente vê antagonismo no contraste dos opostos. Então, ela vê a morte como uma coisa antagônica à vida; vê a riqueza como uma coisa antagônica à pobreza; a doença à saúde; a fealdade à beleza, e vice-versa. Então, vocês estão sempre nesse contraste, o que, na verdade, é um jogo da Existência. 

Tem que haver o contraste, ele é o movimento da Vida. Mas a mente vê, no contraste, antagonismo. Enquanto que, na verdade, não há nenhum antagonismo no contraste, há somente uma complementariedade. As coisas se completam.

O que é luz? A luz é o oposto das trevas, o contraste das trevas? A diminuição da escuridão é luz. Só isso! Quando a escuridão diminui, parece que a luz cresce. Então, há algum antagonismo nisso? Há algum antagonismo nesse contraste? Não! É um movimento só, um único movimento! Que antagonismo existe entre pobreza e riqueza? O aumento da abundância é só uma impressão, porque ela é a diminuição da escassez, assim como o aumento da escassez é a diminuição da abundância. Isso está em contraste? Só aparentemente. Isso é antagônico? Só aparentemente. Na verdade, uma coisa é a outra, pois só existe uma coisa! (risos)

Não é assim?

Existe aumento da saúde? Existe aumento de luz? Existe aumento de riqueza? Não é um movimento só? A Vida não é esse movimento? Então, por que vocês separam? Porque vocês têm a visão da mente, que é a visão da crença. É na crença que você está em apuros, porque na crença você vê antagonismo, vê contradição, vê contraste, vê conflito!

Então, eu retorno a falar a mesma coisa: no dia em que você parar de olhar para a vida a partir da mente, você não vai ver nada fora do lugar! Você não vai ver excesso de um lado e falta do outro. Você vai ver, simplesmente, o que é, e pode dar o nome que quiser: chame de prosperidade, chame de escassez, de saúde ou doença, riqueza ou pobreza... o que quiser. Mas aí você já sabe que está lidando apenas com uma crença... apenas como uma crença.

Então, onde há o contraste entre o santo e o pecador? O que é ser santo? O que é ser pecador? O que é divino e o que é maligno? O que é certo e o que é errado? O que é vaidade ou não-vaidade? Explique para mim! Você pode dizer para mim o que é? 

Onde tem um limite? Onde tem uma fronteira entre o que é sagrado e profano, entre o que é luz e trevas, entre o que é saúde e doença, entre o que é paz e guerra, entre o que é pobreza e riqueza, abundância e falta? Onde está essa linha que separa e que lhe permite dizer: aqui começa isso e termina aquilo? Diz para mim! O que é excêntrico e o que é não excêntrico? O que é normal e o que é anormal? Onde começa o normal e termina o anormal? O que é justo e o que é injusto? Onde termina a justiça e começa a injustiça? Onde? Diga para mim!

Comentem sobre isso! Falem comigo sobre isso! Ninguém fala comigo sobre isso! Ah, já sei: vocês não estão vendo o mundo assim!

Participante: Mestre, para mim, isso já era bem claro, e dá para ver através de um estudo sociológico, ou antropológico, que o que é bonito em uma cultura, pode ser feio para outra, ou o que é abundância em uma cultura, pode não ser em outra. Então, isso não existe, é invenção da mente mesmo!

Mestre: Então, como vocês podem julgar a ação do Sábio? Quem seria capaz disso? Quem seria capaz de julgar a ação do tolo?

Participante: Então, tudo isso é porque, na mente, aprendemos a julgar, a separar, separar... desde criança.

Mestre: Sim, separar, separar, separar, desde criança! Uma separação infinita! Uma necessidade egoica de saber das coisas, de saber o que é e o que não é.

Participante: Por isso que existe a falta também, certo, Mestre? Por isso que a mente nunca está satisfeita, porque quando ela separa, sempre acha que está faltando alguma coisa.

Mestre: Sim, porque ela acha que está tudo fora do lugar. Se está tudo fora do lugar, o mundo está errado. Tudo é ilusão, tudo é irreal porque a mente assim faz parecer ser. Sem a mente, nada é ilusão, nada é irreal, nada está fora do lugar, tudo simplesmente é o que é! Não há nada separado. Na dualidade, só a não-dualidade é a Verdade. A dualidade, só a mente egoica valoriza. Sem a mente egoica, não há dualidade. Não é que não há dualidade porque os opostos não aparecem, porque os contrastes não aparecem. Eles aparecem, porém, somente como uma aparição não antagônica. Eles não estão brigando, eles são assim. Na verdade, Aquilo é assim! Não tem “eles”, só há não-dualidade!

Participante: Mestre, mas eu não sei se é algum instinto de sobrevivência que a gente tem, porque isso é muito rápido! Muito rapidamente, a gente olha para alguma situação e julga: isso é bom ou isso não é bom, isso está certo ou não está, isso é perigoso ou não é perigoso para esse corpo, para esse mecanismo...

Mestre: Isso é a mente em seu condicionamento. Não é rápido nem devagar, é só a natureza da mente egoica. É a natureza desse condicionamento estar sempre julgando, comparando, avaliando, determinando o que é e o que não é, até onde é e até onde não é. A mente egoica só encontra vida nessa identificação “eu sou o corpo”. Enquanto houver esta identificação, estará presente a mente egoica fazendo toda essa confusão. Então, na verdade, é só mesmo a ideia de ser alguém por trás disso.

Participante: Porque essa comparação sempre parte do ponto de referência pessoal, certo?

Mestre: Sim, sempre do ponto de referência “eu sou o corpo”, “eu sou alguém”, “eu estou aqui e o mundo lá”, “eu aqui e o que acontece lá”.

Participante: Essa identificação é que também traz o apego e a rejeição?

Mestre: Sim, total! Porque se “eu sou o corpo”, tudo o que acontece a “mim” vai ser apreciado nesse valor pessoal: se é interessante ou não para “mim”, se é prazeroso ou não para “mim”, se é feliz ou não para “mim”, se “me” dá ou não prazer, se “me” produz ou não dor.

Participante: Mestre, quando você pergunta onde está o limite entre os opostos, eu vejo que esse limite é um limite que muda conforme essa corporificação de quem você é. Ou seja, quanto mais você fica denso nesse “querer para si”, “se separar do resto” e “se sentir fazedor e responsável”, mais esse certo e errado vai ficando pesado. E, na medida em que isso vai ficando mais leve com Você, em Satsang, essa separação começa a perder a importância. Porque, independente de querer ou não, vai acontecer mesmo; independente de achar certo ou errado, vai acontecer, porque não depende da sua vontade.

Mestre: Porque o sentido de “eu sou o corpo” é essa coisa densa, é essa coisa pesada.

Participante: Os opostos vão continuar aparecendo, só que você não tem mais rejeição a um determinado oposto em favorecimento de outro. Mas os opostos continuam aparecendo. Então, por exemplo: o corpo agora está doente, daqui a pouco estará saudável. Continua tendo a saúde e a doença, mas você não dá mais tanta importância à necessidade de estar saudável e à rejeição de estar doente.

Mestre: Porque a ideia “eu estou no corpo” ou “eu sou o corpo” está desaparecendo, está caindo.


*Transcrito a partir de uma fala ocorrida na cidade de Fortaleza em Julho de 2015

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