sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Minhas falas não são para a mente


 
Quando o ceramista trabalha o barro, fazendo uma peça, o barro não se preocupa com a peça que vai sair, pois não vai sentir-se diferente por ter uma forma nova, nem vai ficar ressentido por assumir novas formas nas mãos do ceramista. Na mão do oleiro, o barro não se preocupa em saber que forma ele vai assumir.

Da mesma maneira, a coisa mais importante na vida é a própria vida, não é a forma que ela esteja assumindo. A valorização da forma que a vida assume é uma valorização artificial, uma imaginação de valor, criada pelo pensamento. Eu lhe recomendo a não se importar com o significado que a vida esteja assumindo neste momento! Não dê significado a isso, não valorize isso, porque isso está passando, vai passar; é somente uma transição, um momento. Permaneça não identificado, sem se confundir, com essa experiência. Se você está alegre agora, isto é só uma experiência.

Esses dias alguém escreveu para mim: “Mestre, acordei tão feliz! Sonhei com você e eu estou tão feliz, tão feliz, que meu peito parece que vai explodir de tanta alegria”. Eu escrevi assim: “vai passar, menina, isso também passa!”

Se eu tiver algum de vocês se libertando disto, soltando isto, deixando isto rápido, eu vou ficar muito feliz. No dia em que você puder se assentar aqui, apenas para ouvir, e eu perceber que você consegue ouvir com a mesma alegria uma fala sábia e uma fala estúpida, que escuta, com a mesma liberdade de entrega, o que aqui eu chamei de alegria, algumas palavras que diz, como “uau! Quanta sabedoria!”, ou “mas que idiotice”, e quando você conseguir estar neste mesmo ponto, aí, então eu vou perceber, claramente, que você está comigo, dando tanto valor quanto “eu dou” às minhas falas...

A vida não carrega um significado e esta é a Natureza da Vida: é a sua simples e natural grandiosidade! É só a mente humana que dá significado às coisas que acontecem, e é por isso que, somente entre seres humanos, encontramos o fenômeno chamado “estupidez”! (risos)

Estupidez é um fenômeno, coisa rara de acontecer no universo. São bilhões de galáxias no Universo, mas somente no planeta Terra há idiotices, estupidez... Pelo menos é o que se tem registro. E por que isso? Porque o homem pensa... (risos). Sabe lá o que é isso? Os macacos não se importam, mas o homem se importa. Os macacos não se preocupam com a extinção da espécie, o homem se preocupa porque é muito inteligente. Tudo isso em razão do significado, em razão dessa coisa tão importante que é dar significado.

Na verdade, o corpo é esta forte e indicativa presença da mente e suas aparições: não há sentimentos sem corpo; não há pensamentos sem corpo. Mesmo no sonho, à noite, o corpo está presente; ele aparece com os pensamentos. O pensamento plasma o seu mundo imaginário, e o corpo é uma aparição do pensamento. Não é o corpo antes do pensamento, e sim o pensamento antes do corpo. O sentimento está atrelado ao corpo, contudo o pensamento ainda é o substrato, a base desse corpo-sentimento, de todas essas aparições. Anterior ao pensamento, só existe a Consciência!

O universo é uma brincadeira, uma brincadeira do pensamento. Você acha que está dentro do corpo, mas é o pensamento que está dizendo isto. O pensamento está dizendo que você está dentro do corpo, que este corpo está no planeta terra, que está sentado aí, mas isto é só pensamento. Sem o pensamento de estar sentado, tem alguém sentado? Sem o pensamento de estar no corpo, tem alguém no corpo? No sono profundo você tem algum pensamento de estar vivo, de ser alguém? Você tem problemas de relacionamento? Você tem desejos dentro dos sonhos? Conflitos? Você é casado, solteiro, é namorado, é filho, ou avó? O que você é no sono profundo? Sem pensamento, onde você está?

Participante: Mas não é o pensamento em si, não é, Mestre? É a ilusão da identificação com o pensamento, certo? Parece que o pensamento aparece no mesmo lugar que aparece todo resto. Nisso aqui, onde está aparecendo a visão, a audição, o corpo, aparece o pensamento também. Parece que tem algo que visualiza isso...

Mestre: Não, eu estou dizendo literalmente o que estou dizendo... Estou dizendo que o mundo é mental! E isso aí que você falou é algo que aparece logo depois: essa crença, essa subjetividade e essa identificação com o pensamento, particularizando algo, aparecem logo depois. Eu estou dizendo que todo fenômeno no mundo é pensamento, e que tem a mesma qualidade do seu mundo enquanto você sonha. Quando você bebe água no sonho, mata a sede ou não? Quando você leva uma pedrada no sonho, sai sangue ou não? O seu sonho é colorido? Lembre-se de um sonho colorido que você teve...

Participante: Parece que não...

Mestre: Em compensação, olhe a liberdade que, no sonho, o pensamento tem! Ele não se preocupa com cores, mas se preocupa com a liberdade. No sonho, você faz qualquer coisa, como “vir andando pela rua, transformar-se em uma borboleta e sair voando”..., “você cansou de voar, transforma-se em um pato e vai para um lago”... Depois do pato, “você já entrou em uma casa”...

Aqui, no estado de vigília, nós temos a ilusão de que o pensamento é colorido e que ele tem uma sequência mais lógica, mais razoável. Mas só tem pensamento, também; nada menos do que você percebe, à noite, quando está sonhando. Mas você não sabe e não percebe que agora mesmo você está sonhando, este sonho chamado “minha vida”... “Estou vivendo”.

Você pega o celular, liga para alguém e acha que ele está do outro lado; tem a certeza de que ele está do outro lado, como você acha que está aí, também, e que está havendo uma comunicação, uma troca de idéias... Eu aqui e ele lá. Mas isto é só o fenômeno do pensamento, pois não tem nada acontecendo, de fato: não tem tempo, não tem espaço, não tem localidade, nada disso. Parece ser assim, isto explica desta forma, mas é o pensamento fazendo isto. O que o pensamento cria, ele mesmo explica; na linguagem dele, claro, pois ele só “tem a linguagem dele”.

Mas Eu ainda estou falando sobre esta questão de se preocupar com o significado: parem de dar significado ao que acontece ou parece acontecer, que, então, você ficará livre do sofrimento, da ilusão; livre de exigir do mundo, da vida, alguma coisa, e livre de ser alguém aí está a Liberdade.

Participante: Mestre, a conversa aqui é Consciência com Consciência. A mente egoica não existe, é um efeito, é um nome que se dá para o efeito desta Consciência “desconcentrada”?

Mestre: Isso! Particularizada, na experiência de dizer “eu sou”! Quando ela se particulariza em uma experiência e “diz” “eu sou”, o conflito surge. Quando ela não se particulariza em uma experiência, ela É este “Eu Sou”, anterior ao pensamento.

Participante: E não é a mente que está ouvindo isto.

Mestre: Exatamente! Minhas falas não são para a mente. Quando está diante de um professor, você está ouvindo uma fala no nível de mente para mente, e ele está comunicando conhecimento. Eu estou comunicando algo fora da mente. É a Consciência sendo comunicada, e não tem ensino, conhecimento, nem teoria. Eu não estou falando de algo que li, que estudei, que aprendi. Eu estou falando de algo que está aqui, nesta visão da Consciência deste “Eu Sou” que sou, e que você também É. Chega de dormir, chega de ilusão, chega de acreditar que existe “alguém” aí e que você tem problemas!


*Fala extraída de um encontro presencial na cidade de Fortaleza em Julho de 2015


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