quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A única possibilidade de a vida florescer



Mestre: Como falávamos agora, qual é o seu medo? É o medo comum, é o medo de algo ser tirado de você, não é? Mas o que pode ser tirado de você? Só o que não é você! E se pode ser tirado de você, um dia você vai perder mesmo. Então, não é melhor ficar sem isso logo, agora? Isto porque no dia em que você perder porque foi tirado, e não porque você entregou, a dor estará lá! É uma dor que vai se repetir porque você não tomou consciência daquilo que não era seu, e continuará acreditando que é seu. Mas, você quem? Então, o jogo continua - esse joguinho no tempo... Não é melhor cair fora do tempo, para não ter mais o que perder? Sim ou não? Enquanto houver o que pode ser perdido, "alguém" aí para perder. 

Participante: Mestre ouvi uma frase do Huberto Rohden, que fala isso: "Você tem que buscar a morte voluntária, antes da morte compulsória". 

Mestre: Bonito isso, não é? Aceitar a morte voluntária antes da morte compulsória, porque todos vão morrer, não é assim? A morte é parte do nascer! Se você não entregar voluntariamente, compulsoriamente, a morte tira. O que você prefere? Morrer antes de ser morto ou ser morto e ter que voltar a morrer de novo? E por quantas vezes? O que você prefere, assumir a Consciência de que você não nasceu ou continuar acreditando que precisa nascer vez, após vez, após vez, para resgatar o que perdeu? E quem é que faz isso? É você? Não, claro que não! É o sonho, é o sonhador no sonho, somente o sonhador no sonho... Agora há pouco, eu falei algo assim: que não tem o depois; você não sai daqui para dormir e daqui a pouco sonhar; então, você não sai daqui em um estado de vigília, depois vem o sono profundo, seguido do sonho... Não é assim - não há essa sequência de tempo. Essa sequência de tempo, toda ela, é somente o pensamento que produz. O pensamento adora produzir isso, porque esse é o trabalho dele. Então, não é melhor sair do sonho, ou melhor, não é melhor acordar e um sonho aparente continuar? Mas, em um sonho aparente, se você está acordado, não está mais como um sonhador dentro do sonho; se você está acordado, a morte compulsória não pode lhe tirar o que essa morte voluntária lhe abriu. Acompanham isso?

Então, é necessário morrer voluntariamente, antes de ser morto compulsoriamente; é melhor entregar a suposta vida, antes da fatalidade da morte alcançá-los. O que é que vocês estão fazendo aqui? Aceitando voluntariamente a morte! A morte vai matar esse “alguém” que estiver vivo, mas ela não pode alcançar a Vida! Então, é melhor a Vida do que ser “alguém vivo”, não? O que você prefere? A Vida é a própria Imortalidade! Imortalidade não porque se tornou eterna, e sim porque nunca conheceu a morte ou a vida; mas os vivos sempre vão conhecer a morte e serão mortos! Isso é inevitável.

Somente a Vida não conhece a morte! O Sábio é a Vida! Ele não pode morrer! Eu não vou morrer, Eu estou além da morte, Eu nunca nasci! Como vocês podem ter medo de Mim? A única coisa que não pode perturbá-los, o único que não pode perturbá-los, afligi-los é Esse que Sou, Esse “Eu Sou, O que Sou"! Eu falo do que está dentro e falo do que você, agora, olha e vê aqui do lado de fora: essa figurinha do Mestre. Eu não sou aquilo que possibilita a sua morte compulsória; Eu Sou Aquilo que possibilita a sua morte voluntária, que é a única possibilidade da Vida florescer, para Você nunca mais morrer! Por que quem morreria? Como pode Aquilo ou Aquele que não está vivo morrer? Só pode morrer o que é mortal, e só é mortal o que está vivo! A Vida não! Eu Sou a porta da Vida, nessa morte voluntária, do vivo que você acredita ser. E agora?

Ver-se como alguém vivo é temer o fim desse “ser vivo” que você acredita ser. Eu, aqui, nem um pouco me preocupo com aquilo que você acredita! Eu trato Daquilo que é “O que É”, e não com a crença de nenhum tipo! É assim e ponto final. Tudo isso é limitação, que é criada pela imaginação do pensamento; pensamentos que distinguem entre vivos e mortos, entre animados e inanimados, entre humanos, animais, vegetais e rochas... Mas é o pensamento que faz isso. "Solte o pensamento", eu digo; solte-o, deixe-o ser só o que ele é: uma imaginação sem o imaginador. Aí, acabam todas as crenças. (Silêncio)

Me fale sobre isso! Como é que você vê isso? Que espaço ficou agora, aí, para você? Você está com medo do que? Ficou espaço para que agora? Do que você pode ter medo? Quem é você? Alguém comente isso... Vamos lá...


Participante: Mestre, você disse que o estado de sono profundo é o Estado do Ser... 

Mestre: De vigília também, e o de sonho também, mas continue... 


Participante: Para mim, que não sou esse Ser no corpo, em vigília e em sonho, no sono profundo eu não lembro... 

Mestre: Quem diz “eu não lembro”? Quem está dizendo “eu não lembro”? 


Participante: A mente. 

Mestre: Ela estava lá? 


Participante: Acho que não. 

Mestre: Então, quem é que está respondendo agora? Quem está respondendo que não lembra, senão a mente? Pois eu concordo com você: a mente não estava lá, mas algo aí pode lembrá-lo de que a mente não estava lá. E o que é esse algo? É Aquilo que não muda! Percebe que ele está aqui no estado de vigília, também, assim como estava lá no sono profundo? Você não pode ser uma outra pessoa diferente da que dormiu, a noite passada, nem pode ser uma aqui e uma ontem, pela manhã, e uma nessa madrugada entrando em sono profundo; você tem que ser a mesma, percebe? O Ser permanece nos três estados. O Ser, através da mente, se lembra do estado de vigília e de sonho, e sem a mente se lembra de que não havia mente no estado de sono profundo. Não é genial? A mente é algo que aparece e desaparece, mas o Ser – não a mente – aparece no estado de vigília e no estado de sonho. Entretanto no estado de sono profundo a mente não tem o direito de aparecer, e Aquilo onde ela aparece permanece Imutável – o que é Ser Consciência! Você nunca deixa de Ser Consciência, e apenas sobrepõe uma crença à realidade desse, assim chamado, estado de vigília; sobrepõe-se à crença de uma entidade separada, que você chama de “eu”, mas esse “eu” não é real. 


Participante: Eu tenho a sensação de que "no sonho em vigília" a gente tem a experiência e isso parece que é o “eu”, mas, como no sono profundo, não tem experiência; parece que não tem nada.
Mestre: No sono profundo você tem a experiência da “não-experiência”, do fim de todas as experiências.


Participante: Isso dá medo.
Mestre: O que dá medo? Não ser "alguém"? Mas você nunca é "alguém". No sono profundo você tem algum medo?


Participante: Quando eu lembro que não teve nada, dá uma sensação estranha de vazio.
Mestre: Mas é medo, ou, pelo contrário, você ama dormir? Quem aqui não ama dormir? Você tanto ama desaparecer em um sono profundo, que coloca um travesseiro macio, cria todo um conforto para poder desaparecer! Você pode estar deitada ao lado do homem mais lindo do mundo, que é seu marido, ou a sua mulher, mas não quer mais saber dele, ou dela, porque você prefere desaparecer! A mãe ama a criança; quando está no colo dela, amamentando-a, ela adora sua criança – como vocês todos que adoram os seus filhos – mas, quando ela deita para dormir, manda todo mundo embora, livra-se de todos eles, não sente falta nenhuma deles, e dorme tranquila! Então, todos nós amamos o sono profundo, porque nele não há o experimentador de nenhuma experiência; só há a experiência do sono profundo, assim como, agora, só está acontecendo a experiência. Você é quem está criando a ilusão de que tem alguém nessa experiência do falar, do ver, do ouvir, mas nada alterou, nada mudou e tudo continua na mesma. Onde é que está o medo? O medo é uma ilusão do pensamento, que imagina o fim de uma entidade que ele mesmo inventou! É como se você tivesse medo do Pato Donald não existir ou do Mickey Mouse não ser real, do Zé carioca não ser o Zé Carioca... Então, você fica em uma confusão criada só pelo pensamento, mas você está sempre nessa clareza de Consciência, de “não-entidade”, de “não-pessoa”, no estado de vigília, no sonho e no sono profundo. Deu para acompanhar isso que estou dizendo?

A sua experiência do sono profundo é a experiência sem o experimentador, mas ela está lá! Não podemos negar a experiência! A experiência transcrita, revelada, descrita, é a experiência do experimentador, e essa é irreal! Toda experiência é irreal, quando há um eu para descrever aquilo, mas a experiência nela mesma era só experiência. O Ser, a Consciência, permanece como “O que É”, não importa se a ilusão de ser alguém está presente ou se essa ilusão termina. Você continua sendo Amor! Você já é Consciência, Você já é o Cristo, Você já é Deus. Seus medos não são seus medos, são os medos que a mente imagina.

Participante: A memória está atrelada à mente egoica? Se não tiver mente egoica, não existe memória?
Mestre: Se não tiver mente egoica, o experimentador na memória deixa de existir, mas a memória não. A memória tem toda a liberdade se ser o que ela é: só uma imaginação do pensamento... algo inofensivo. O experimentador nisso é que é aquele que quer ter continuidade no tempo, que é um fantasma, que é um personagem criado pelo pensamento. A memória não é o problema; a memória é uma função do cérebro. O cérebro precisa e depende da memória. A memória tem sua funcionalidade no tempo, onde o cérebro no corpo funciona, mas isso não é Você! Você não está na memória! O que você tem, agora e aí, como memória, é só uma imaginação do pensamento! Você não está nisso.

Vocês acreditam que têm filhos, mãe, pai, família... Vocês acreditam que moram em Recife, em São Paulo; vocês acreditam que moram lá... Lá onde? Onde está isso? Tudo imaginação... o poder da mente de criar um mundo separado! Assim, ela cria um mundo separado: cria seres para viver nesse mundo; cria filho, marido, mulher, casas, prédios, aviões para transportarem vocês de um lado para o outro. Vocês vieram em um suposto veículo chamado carro, vieram em um veículo, supostamente chamado, real, supostamente chamado carro e estão aqui como se tivessem mudado, saído de algum lugar!

Vocês não saíram do lugar! Ninguém saiu do lugar, nem está em lugar nenhum!

Não tem carro sem pensamento. Com o pensamento aparecem todos os lugares, seres animados e inanimados; os vivos, para morrerem... os que nascem... os que morrem; surge o medo de perder coisas... A projeção criada pelo pensamento “eu”...

Participante: Então é como a Matrix, mesmo?
Mestre: É Matrix mesmo, entretanto um pouquinho mais elaborado! Aquilo ali está fraco perto dessa Matrix aqui.

Participante: Tudo o que a gente conhece é o que é irreal. Por isso que dá medo, porque a gente não conhece a Verdade.
Mestre: Onde está o espaço para o medo? No sono profundo, você tem medo de que? Um doente terminal, quando acorda pela manhã e vê o corpo sendo consumido por um câncer, fica apavorado, porque ele "tem" muitas coisas. Ele "tem" muitas coisas porque não morreu voluntariamente antes da morte compulsória chegar, e, então, fica apavorado! Mas você, que já está entregando tudo, vai ter medo de que? Você vai ter medo de que? No sono profundo você tem medo de que? Como é que a Vida – que é sinônimo de Realidade, Consciência – pode ter medo? Medo de que? 
 

*fala extraída de um retiro ocorrido na cidade de Itaipava em Junho de 2015


2 comentários:

  1. A ilusão da ilusão. Uma vez o Mestre disse que por trás de todo sentimento e pensamento havia o medo. O medo seria a ilusão primária que nos controla e determina o nosso agir..

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  2. Gratidão Àquele que pode nos levar além da ilusão!

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