sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A ilusão do destino




Participante: Mestre, em um trecho de uma fala de Ramana, ele fala que o único meio de você sair do destino é pela Realização. Ontem nós falamos um pouco do destino, que não faz sentido ter destino, uma vez que só existe o presente. Poderia falar um pouco mais sobre isso.

Mestre: O que, aí, vê presente, passado e futuro?

Participante: A mente!

Mestre: Presente, passado e futuro são coisas que a mente vê. Onde a mente aparece? Onde ela aparece como um fenômeno? Na Consciência. Só pode haver mente quando há Consciência de sua presença. Essa presença de tempo – de presente, passado e futuro – que chamamos de movimento mental, só pode ser percebida porque há uma Consciência que percebe. Então, onde está o determinismo, o livre-arbítrio ou o destino? Onde estão as aparições ligadas, atreladas, à noção de tempo e espaço? Onde isso está surgindo? Na mente, mas a mente só está presente nessa Consciência que percebe, nessa Consciência que está atrelada a destino, a não destino, a determinismo, a livre-arbítrio, a presente, passado, futuro... Então, quem aqui nasce? Quem aqui morre? Quem é que renasce? Quem vai para o céu, purgatório, inferno? Então, quem é que vive o destino ou o livre-arbítrio? Quem está reinando nisso? A mente.

Participante: Então, enquanto estivermos na mente, sim, existirá destino?

Mestre: A identificação com a mente, a Consciência perdida na ilusão de ser a mente, mantém a ilusão do destino. Então, o destino é tão real quanto a mente é real, enquanto ela for real. O renascimento, o céu, o purgatório, a morte, a reencarnação, isso tudo é tão real quanto a mente o é, enquanto ela assim for. Nós achamos que saímos do estado de sono para o estado de vigília, e depois voltamos a dormir e entramos no estado de sonho. Não é assim? Isso é real? Na mente é real, na Consciência não, porque o estado de vigília, o estado de sonho e o estado de sono profundo são a mesma Consciência, que é imutável, que presencia esses três estados, como presencia nascimento e morte, como presencia a reencarnação, o céu, o inferno e o purgatório. Então, não existe um estado depois do outro.  Isso implicaria a realidade do tempo, e a Consciência não conhece essa coisa chamada tempo. Assim, você não sai de um estado para o outro. Identificado com a mente, você está perdido na ilusão de estar existindo nesses três estados, quando, na verdade, você não existe. Você é aquilo no qual a existência aparece, o tempo aparece, o passado, o presente, o futuro, a vida pós-morte, a reencarnação, o céu, o inferno, o purgatório, o que quer que tenha que aparecer nessa mente maravilhosa em imaginar o seu mundo, a sua experiência particular.

Participante: A fala, então, é que a coisa toda está aqui e agora; mas não é aqui, é em toda a parte; não é agora, é fora do tempo. Então, são símbolos usados que a mente pega.

Mestre: São símbolos do tempo para definir algo nele. Esse algo nele, com os símbolos dele, faz parte da mente no tempo, na ilusão do tempo, na ilusão da imaginação do tempo e do espaço. É a mente que imagina o tempo e o espaço. A beleza deste encontro que vocês têm com o Guru, com o Mestre, em Satsang, é que vocês estão saindo da matrix, saindo do tempo. Vocês estão saindo dessa definição de pessoa que vocês acreditam ser. Isso tem significativas implicações. Uma delas é que você sempre resiste em aceitar que você não é uma pessoa. Você não é uma menina, não é um menino, não é mãe, não é pai, não é filho... Você não tem, e nem lhe faltam, coisas. Isso tudo está nessa implicação da ideia de ser alguém, que é só imaginação da mente. É a mente que produz o corpo, para desfrutar de suas imaginações. Essa pretensão dela é o ego, é o sentido de separação. Isso “escraviza” a Consciência nessa limitação de ser alguém e, então, cria-se essa contração nessa indiscutível Presença, que é Deus, que é Você, que é sua Natureza Real. Essa contração é o sentido de ser alguém capaz de determinar, controlar, realizar, para viver essa noção de tempo e espaço, e de medo – esse sentido de pessoa fazendo, controlando, realizando... Vocês teimam em segurar isso, em se confundir com o corpo dizendo “eu”. Todo o problema está aí: “eu”, “eu”, “eu”... na hora em que o corpo diz: “eu”. É assim.

Participante: Mestre, Annamalai dizia que aprendeu com Ramana essa coisa do destino, que desde a primeira até a última respiração, todo destino desse mecanismo, desse corpo-mente, já está traçado; que tudo que tiver que acontecer, vai acontecer, e tudo que não tiver que acontecer, também não vai acontecer. Aí um discípulo dele perguntou: “então, não há nada que se possa fazer, nunca?” Ele disse: “tem uma coisa que você pode fazer, e é a única: esse movimento em direção ao Despertar” – o que eles chamavam de autoinquirição. Enfim, esse “olhar para isso” nós procuramos fazer aqui, e ao mesmo tempo ouvimos você dizer que não podemos fazer nada. Será que você pode falar um pouco sobre isso, desse não poder fazer nada, ou dessa única coisa que podemos fazer?

Mestre: É... Você só tem isso para fazer, e você não pode fazer nada. A única coisa que você pode fazer é ficar quieto. Ficar quieto não é fácil para essa ilusão de ser alguém fazendo alguma coisa. Você não sabe, não percebeu ainda, mas todo meu trabalho com você é para aquietá-lo! É um trabalho enorme, e o trabalho é meu, não é seu! É para aquietar você... O único trabalho que você pode fazer é ficar quieto, mas você não faz, então eu tenho que fazer. Toda a noção que vocês têm é a noção do fazer. Seu único trabalho é o de não se confundir com a ideia de alguém na ação, e isto é ficar quieto; mas você não sabe o que é ficar quieto! Tudo que, hoje, você faz, tudo que eu o coloco para fazer, é para aquietá-lo, para você parar de se confundir com alguém que está sempre interpretando, querendo, desejando, buscando, determinando, escolhendo, etc. É assim.

*Fala transcrita a partir de um encontro Presencial na cidade de Itaipava - RJ em Junho de 2015

 

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