quarta-feira, 1 de julho de 2015

Só Assista ao Filme - Satsang


Não há nada fora dessa Realidade. Tudo mais é só sofrimento, só ilusão. Você precisa ouvir isso. De alguma forma, precisa ouvir, e dar o seu coração inteiramente a isso. Você não pode confiar em mim agora porque você quer entender, quer que isso faça sentido para esse quadro de vida que você conhece, mas não tem nada a ver com isso. Estou falando de outra coisa, de algo fora daquilo que o mundo criou, concebeu, deu à luz. 

Cristo é a única coisa, Deus é a única coisa. Um dia, Cristo disse: “no mundo só tereis aflições, mas eu venci o mundo”. Não tem absolutamente nada lá fora. Vocês ficarão enfadados, cansados de ouvir isso, mas eu vou continuar fazendo da mesma forma. A única coisa que você está aqui para fazer é realizar Aquilo que Você é. Não adianta entrar ano após ano, após ano... Você precisa entregar todos os seus dias a esse trabalho. Todos os dias! Quando o sol aparece, você tem mais um dia para abandonar o seu ego, mais um dia para abandonar essa loucura que é viver no ego. Você já precisa se levantar da cama para não brigar com ninguém, não exigir nada de ninguém, não reclamar de nada, não sofrer por nada, não buscar nada. Você tem que se levantar da cama sem nada: sem ego, sem posses, sem pessoas, sem esperança, sem desilusão, sem ser dono, proprietário, controlador... Levantar-se pela manhã sem futuro e sem passado. Uma vida beatífica. Uma vida de silêncio e “presença de ausência”. Assim, seus olhos pela manhã estarão claros, luminosos, cheios de amor!

Você nasceu para ser Deus! Você é Deus, essa Presença, essa Santidade, essa Graça, essa Verdade. Você está dando muita importância para a sua história. É só uma historinha, um faz de conta, como a história da Branca de Neve, do Papai Noel, do Pato Donald, ou do Mickey Mouse. É só uma história! Não dê importância a isso! Você está dando muita importância a essa história, e sendo muito cruel consigo mesmo, pois está mentindo, está se autoiludindo, se autoenganando. Eu quero lhe mostrar uma outra coisa, que não é mais uma coisa, mas é o final de todas as coisas, de todas essas histórias, com as quais está se identificando e nas quais está se perdendo. Consegue acompanhar o que estou dizendo? Não é isso? Qual é o problema, então? Qual é o problema que você tem? O único problema que você tem é que não está entregando o seu coração à Verdade; está dividido. Quando o meu Mestre apareceu, quando ele me chamou, olhou em meus olhos e eu ouvi esse silêncio – reparem bem esse silêncio… é algo que nem o som do avião interrompe, nada interrompe – ficou claro para mim isso: que eu não tinha mais nada para fazer nesse mundo, nada para ganhar, nada para perder. Eu só queria isso.

Tem algo dentro de você “queimando”, mas também tem algo aí tentando apagar esse fogo. Você tem algo mais importante do que estar em Satsang: uma festa, um casamento... Nunca vai parar de acontecer isso, o mundo sempre vai convidá-lo para alguma coisa: um novo namorado, um novo casamento, um novo jogo de futebol, um novo final de campeonato, qualquer coisa. Fantasia, pura fantasia! Não se trata de ficar sem nada disso, mas de não estar mais identificado com isso, de conhecer o lugar que isso tem, o lugar que Você-Consciência tem, o lugar que Você-Presença tem, o lugar que Você como Liberdade, Paz, Verdade, tem. Compreende isso? É difícil de acompanhar isso?

PARTICIPANTE: Mestre, sempre me identifiquei com essa busca. Eu apenas acho difícil a gente conciliar no dia a dia, deixar o ego de lado, tendo que lidar com pessoas, familiares, etc. Mas é uma coisa que eu já venho buscando. 

Mestre Gualberto: Todos encontram essa dificuldade e falam a mesma coisa. A princípio, é isso mesmo. A sensação que você tem é a de que pode fazer isso, mas não sabe como realizar; pode fazer, mas não sabe como. Você se encontra num impasse, e acha difícil. Você não pode fazer isso, por isso não tem nenhum impasse, nenhuma dificuldade. A dificuldade não esta lá fora, mas em desistir aí dentro da história da pessoa. É aí dentro que está a chave! Não tem nada a ver com o mundo, com as pessoas do lado de fora, mas sim com a maneira que é configurada, aí dentro da sua cabeça, essa sua relação com o mundo. Não é do lado de fora a coisa, a coisa toda é aí dentro, nesse modo de se aproximar daquilo que se apresenta a você neste momento. Com esse modo de se aproximar, com essa sua abordagem baseada na história de alguém aí, haverá conflito, problema, dificuldade, porque tem que acontecer uma mudança aí dentro. É preciso olhar o mundo à sua volta, a relação que você tem com coisas, pessoas, lugares, situações, eventos, acontecimentos, a partir de uma visão desidentificada desse personagem que você acredita ser. Então, não se trata dos eventos, dos acontecimentos, das pessoas, das coisas, de nada do lado de fora, mas sim da desidentificação desse personagem que você acredita ser nessa relação. Esse é o ponto. 

A dificuldade não é a que você acredita ter, a dificuldade é outra. A dificuldade está em aceitar que você não é importante, em acreditar que você não mudará nada, nem ninguém. Não mudará coisa alguma! Você não tem o poder de fazer nada, essa é a dificuldade: aceitar que você é um ninguém. Você não aceita ser ninguém, mas a chave da felicidade é ser um ninguém. Aquele que hoje está em sua Natureza Real, vivendo a Felicidade, não é uma pessoa. A Felicidade não é para a pessoa, e você está tentando realizar a felicidade pessoal. Na verdade, você está procurando um preenchimento egoico, estando no controle. Quando você relaxa o controle, o comando, o sentido de autoria, o desejo de que tem que ser assim ou assado, e sai de cena, aí a Felicidade está presente, porque não há mais ego. A dificuldade é essa. Não é mudar o mundo, não é mudar nada! Você quer mudar as coisas, o marido, os filhos, o namorado, você quer mudar a si mesmo, mudar o mundo, os móveis da sua casa... você quer mudar tudo! Nada o satisfaz, então você não relaxa.

Satsang lhe ensina a desistir de ser uma pessoa, mas você é teimoso, então a gente tem que trabalhar isso bem devagar com você. Você põe uma coisa na cabeça e tem que ser daquele jeito. Orgulha-se de ser uma personagem, ou ter uma personalidade forte, de saber o que quer. Essa é a coisa mais miserável da vida: saber o que quer. É interessante, porque o sábio não sabe o que quer, ele é um fluir com o momento. O momento sabe o que quer, o sábio não; a vida sabe o que quer, ele não. Você sabe, o sábio não sabe; você deseja, o sábio não deseja; você tem certezas, o sábio não tem certezas de nada, ele é um perfeito idiota, nesse sentido de não saber nada. Ele é como uma criança, incerta, segura, protegida, guardada. Essa criança é alimentada, tem suas necessidades fisiológicas supridas pela Existência, mas ela jamais se preocupa. Ela não está criando uma história, a história está acontecendo em volta dela. Nessa idade é assim. Você perdeu esse não saber, essa insegurança, você perdeu tudo isso. Hoje você é tão seguro! Olhe para você, como você é seguro! Tem certezas de tantas coisas! Olhe para você! Que miséria é isso! Hoje você controla seu futuro, você sabe o que quer. Olhe que miséria! Você agora está desaprendendo isso tudo, precisa voltar a ser como essa criancinha (o Mestre aponta para um recém-nascido com sua mãe), mas não querem, não estão dispostos a isso, é muito amedrontador ficar assim inseguro no colo de Deus... ficar assim no colo de Deus sendo cuidado, alimentado e suprido por Ele, sem escolher namorado, sem escolher nada. Quem quer isso? Hoje nós estamos nos protegendo, nos defendendo. Logo essa criança cresce e aprende os mesmos velhos truques que nos fizeram tão felizes, pessoas tão realizadas. Aliás, os pais ensinam as crianças a serem felizes. Vocês não são assim com os filhos de vocês? Vocês não estão ensinando os seus filhos a serem felizes? Vocês não querem o melhor para os seus filhos? Vocês sabem lá o que é melhor? Mas têm essa vaidade de achar que sabem, têm essa presunção de achar que sabem, aí chegam em Satsang e ficam brigando comigo. Eu estou desfazendo essa história, esses valores, essas certezas, e vocês vem para Satsang brigar comigo, porque, no fundo, a mente aí diz que eu sou o louco, o maluco (risos).

Como é que a vida se mostra para você neste momento? Como é que ela se apresenta neste momento? Quando ela se apresenta para você, ela o engole ou é só uma aparição? Colocando diferente: quando você assiste a um filme, você entra dentro do filme ou você só assiste ao filme? 

PARTICIPANTE: Quando eu assisto à novela e tem alguma cena de assalto, ou algo assim, eu sinto a mesma emoção do personagem. 

Mestre Gualberto: Esse é o ponto. Se a sua vida é essa de identificação com a mente, quando ela se apresenta, você está tão identificado mentalmente com a história, que a sua vida é ela. Aí está o problema. Se você pode simplesmente se desidentificar internamente disso, ótimo! Você não vai mudar nada. A proposta em Satsang é: só assista ao filme. Não faça do filme uma realidade para você, porque não é uma realidade. Você é a realidade dessa Consciência, onde o filme aparece. Você é a tela, sempre! Imagine a tela pegando fogo porque tem uma casa pegando fogo no filme; ou a tela inundada de água porque tem uma enchente no filme. Então, esse é o problema com você: identificou-se com a história, e, como fez isso, está vivendo o conflito dela. Assim, quando há fogo no filme, a tela queima. Isso é verdade? Não, mas a ilusão é essa. A sua vida hoje é um drama não porque ela é isso do lado de fora, mas porque você está dando a ela uma verdade que não existe. Você está identificado com isso. Tudo está no lugar, mas você está perdido nessa identificação com isso. Esse “estar perdido” chama-se “sonho”. Quando se diz: “ele está acordado”, ou: “ela está acordada”, isso significa que ele saiu do estado de sonho. O sonho, para quem está sonhando, é muito real. Para aquele que está acordado, o sonho é só um sonho. 



*Extraído de uma fala de um encontro presencial em São Paulo em Maio de 2015

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