domingo, 31 de maio de 2015

O caminho é permanecer em sua Natureza Real


A vida é algo sempre presente como uma oportunidade para esse reconhecimento da realidade da “não-mente”. É possível na vida enxergarmos claramente isso, termos isso muito claro e nítido. O seu trabalho é constatar isso, tanto nas experiências e nos estados internos, quanto nos pensamentos e na percepção direta de lugares, coisas e pessoas. É algo como uma bela oportunidade. Não temos que procurar isso, porque isso já está presente, e a vida já nos apresenta esta oportunidade e estamos sempre lidando com isso. Estará, sempre, surgindo essa oportunidade do reconhecimento direto, claro e nítido de algo acontecendo nesse momento. No entanto, isso que está acontecendo, e que aqui chamamos de “movimento da vida”, não afeta de forma alguma essa Consciência, Presença. É ela que torna possível isso, não podemos negar; é algo inegável. Ela torna possível aquilo que aqui chamamos de “vida acontecendo”.

Tudo o que surge, que aparece, que acontece, assim como tudo o que também não acontece, é para todos nós essa oportunidade. Nada pode aparecer, surgir ou acontecer sem essa energia, sem essa Presença. Assim, na mente, você se confunde com essas experiências, esses pensamentos e essas percepções, ou permanece não identificado com isso. Se você permanece não identificado, você começa a perceber que toda essa aflição, todo esse conflito, medo, e toda essa resistência à vida, cai, desaparece. É quando você, como Consciência, não identificado com a mente egoica, está nesse fluxo da vida, sem resistência. É disso que tratamos em Satsang: falamos do Estado Natural, estado livre do ego, livre de resistência. 
 
Isso não é algo que possa ser cultivado; não podemos cultivar isso, porque é algo que requer Consciência, Presença. Você não pode levar isso de um momento para o outro; é algo que tem que estar presente nesse instante, nesse momento, e no momento seguinte…. e no outro. Você não pode cultivar a Consciência, a Presença, esse estado de alerteza. Você pergunta para mim quando isso se tornará natural? Isso é natural agora, aqui, nesse instante, nesse momento de atenção, de Presença, de Consciência. Então, o futuro não importa. Essa ideia de conseguir isso, conquistar isso, levar isso para amanhã, não importa. 
 
Evidente que chega um momento em que essa Consciência, essa Presença, essa alerteza, é tão natural que você, no agora, se encontra em seu Estado Natural. Você não pode mais ser capturado pela ilusão do pensamento e de um experimentador presente, nem no pensamento, nem na sensação, nem na percepção, nem na experiência. É uma questão de trabalho, de Meditação.

Repare que meditação não é uma prática, como algo em que você se aprimora. Meditação é algo presente nesta Consciência, nesta alerteza; vem e aparece completa. Meditação não é algo que cresce, evolui, progride, e sim algo presente neste instante, nessa totalidade. Chega um ponto, um momento em que não há mais sofrimento, porque não há mais ilusão, não há mais a identificação com o sentido de um “eu”, uma identidade presente tentando resolver, escolher, preferir. É como uma dança na qual o que importa é o ritmo da música, ritmo este que determina o movimento. Aqui o ritmo da vida – a vida como ela é – determina absolutamente tudo.

Estamos falando do real, no sentido absoluto, que tem que ser verdadeiro em qualquer momento e situação, sem nenhuma possibilidade de escolha e de qualquer decisão pessoal. Os Sábios, os Mestres, os Acordados de todos os tempos sempre nos falaram sobre esta Verdade, bem como onde encontrá-la. Eles nos dizem, e sempre nos disseram, que Isto não está no tempo, pois é algo presente nesse instante, nessa Presença que somos; é algo dentro de nós, e não algo no mundo, lá fora; não é algo nas ideias, que podemos aprender, estudar, mas é algo já presente em nossa experiência direta. Essa experiência direta é a presença daquilo, livre do experimentador, que somos; é a pura experiência de Ser nesta Consciência, algo que já está aqui. Isso significa que nós não podemos compreender ou entender esta coisa, pois não é um objeto, algo a ser aprendido, que podemos estudar ou sobre a qual podemos discutir. 
 
A Consciência não é um objeto, é a própria Presença daquilo que somos, e está além da ideia de sujeito e de objeto; é algo livre daquilo que é observado e do próprio observador. É aquilo que contém a aparição do observado e contém, também, essa ilusão de um observador. Isso é algo que sempre esteve aqui. A palavra “sempre”, como já coloquei algumas vezes, não é uma boa palavra. Isso que está aqui, só está aqui. É a única Realidade atemporal, muito além de toda definição e da ideia de tempo. (risos)

Participante: Mestre está dando um nó na mente. Estou querendo entender quem é o observador.

Mestre Gualberto: A tentativa de alcançar Isso por meio do pensamento é a ilusão da presença de “alguém” capaz de apreender e entender isso. Relaxe e escute: você diz “estou querendo entender quem é o observador”, e lhe digo que o observador é aquela ilusão daquele que observa, daquilo que é observado. O observador sempre aparece com aquilo que é observado, e desaparece, também, junto com ele. Aquilo que é observado somente é real para o observador. Se não é observado, onde está o observador? Onde está a realidade daquilo que não pode ser observado? Então, repare que aquilo que é observado aparece com o observador, e ambos aparecem e desaparecem simultaneamente, não sendo real, portanto. A Realidade é aquilo no qual tanto o observador como o observado aparecem e desaparecem. Dê um salto para além do pensamento, da imagem, da ideia, e assim fica Aquilo que é intocável, incognoscível. 
 
Estamos apontando em Satsang para aquilo que É. E isso está além dessa aparição e desaparição, do sujeito e do objeto, do observador e da coisa observada. Quando você diz “estou querendo entender quem é o observador”, isso significa algo sendo capturado por aquele que entende, e aquilo que é capturado por aquele que entende aparece em conjunto; essas duas coisas aparecem juntas: aquele que entende e aquilo que é capturado. Ainda estamos tratando de uma limitação, de uma ilusão, de uma aparição. A pergunta é: onde isto aparece? Onde aparece isso que é observado, quando este observador não está? Onde aparece este observador, se não há essa coisa observada?

Estamos tratando desta indescritível, inominável e incognoscível Presença, da Consciência, de sua Natureza Real. Repare que isso não está limitado ao corpo e nem à mente. O corpo é uma experiência, a mente é uma experiência, esta podendo ser descrita por um observador, mas a pergunta é: onde aparece e desaparece esta experiência?

Participante: Então, o caminho é desviar o olhar quando a observação aparece?

Mestre Gualberto: O caminho é permanecer em sua Natureza Real, que não se preocupa com o que é observado. Isso significa que não se ocupa com o observador, por estar além de ambos, observado e observador. O único caminho é: permaneça em seu Estado Natural, que é pura Consciência não identificada com a experiência, com o observador e com a coisa observada. Permaneça além dessa identificação, da experiência mente e corpo, e o que quer que apareça como mente, como o corpo ou como o mundo, que não é de sua alçada, não é de seu interesse, não é um assunto seu. Isso é só o que é, e você, em sua Natureza Real, está livre dessa aparição. Colocamos de uma forma bem direta: qualquer aparição não tem importância nenhuma. Se seus sentimentos, pensamentos, emoções, sensações e percepções aparecem para o sentido de “alguém”, aí se encontra a ilusão. Mas, se são apenas aparições sem importância para o sentido de “alguém”, não causam nenhum problema, não há nenhum conflito, medo ou sofrimento; é somente a vida, como ela é. 

Essa é a proposta em Satsang: permaneça em seu Estado Natural, que é o estado livre de todos os estados, livre do estado “eu sou a mente e eu sou o corpo”. Você não é a experiência do pensador no pensamento, daquilo que sente na sensação, daquele que está emocionado na emoção, ou que está percebendo na percepção. Você é Consciência, é esta Presença livre desse conteúdo.

Participante: Neste estado de ser posso interagir com o externo?

Mestre Gualberto: Não! Não tem você interagindo com o externo. Não tem você e não tem o externo. Só há essa única Consciência. Essa única Consciência é pura Consciência. Essa pura Consciência é ação, não é a ação de “alguém”; nessa ação não há interno e nem externo. Estou dizendo que não há experimentador e experiência, não há pensador e pensamento, não há observador e coisa observada. A ideia de ser “alguém” presente é a crença de interagir, ou seja, “alguém” presente dentro, interagindo com um mundo do lado de fora. Não existe alguém dentro, não existe um mundo do lado de fora, pois nada disso é real.

Participante: Entendi, grato.

Mestre Gualberto: Esse é o equívoco, porque Isso não pode ser entendido, não pode ter alguém capaz de entender isso. A constatação dessa Verdade é uma experiência direta, sem o experimentador. Não é possível haver entendimento sobre Isso, mas sim a vivência direta do que está sendo colocado, porém, não a vivência, o entendimento ou a compreensão de “alguém”.

Participante: Mestre, então a todo momento eu estou identificada com aparições. Como esse trabalho acontece, então? O que tenho que fazer?

Mestre Gualberto: A única coisa possível aqui é a não identificação com o sentido de “alguém” na experiência. Esse é um fazer “não-fazer”. Eu chamo isso de estar quieto, permanecer quieto, descobrir o que é estar quieto, sem esforço de estar quieto. É possível descobrirmos isso no silêncio desta Presença, que é Consciência, que eu chamo de Satsang presencial. Não é um trabalho seu, e que “alguém” possa fazer. Então, a pergunta não é “o que tenho que fazer?”, mas sim “o que significa desistir de tentar fazer?”; “o que significa a pura experiência, sem o experimentador?”; “o que sou eu ou quem sou eu?” 
 
Por hoje vamos ficar por aqui, grato a todos pela presença. Namastê.


*Extraído de uma fala ocorrida via Paltalk Senses no dia 20 de Maio de 2015


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