domingo, 10 de maio de 2015

Há apenas um Milagre


Aqui estamos diante dessa Graça, dessa Presença, daquilo que nunca se oculta. A Verdade nunca está oculta. Nós temos sempre, nesses encontros, essa possibilidade de ficar com aquilo que é simples e óbvio, além de perceber esse milagre que sempre estivemos buscando, e eu posso garantir a vocês que há apenas um milagre: a própria Vida. Quando essa busca lá fora por algo extraordinário, especial, termina – quando isso quebra, cai e entra em colapso – você fica diretamente com o milagre da Vida, com o milagre dessa Graça, dessa Presença. Isso é absolutamente natural. É o fim da dualidade, é o fim da noção de alguém dentro e de um mundo fora, que possa tornar este “alguém” notável, especial, extraordinário.

No Zen, eles chamam isso de "cortar lenha e carregar água". Quando o discípulo vai ao Mestre e pergunta o que é o Zen, o Mestre diz: O Zen é cortar lenha e carregar água. Reparem que não há nada extraordinário e especial nisso, embora todos estejam em busca de algo especial, excepcional e extraordinário. Aqui, em Satsang, você se depara com isso, com o desafio de ser natural, na simplicidade e naturalidade absoluta, sem nenhuma procura, nenhum caminho, nenhuma busca. É a vida do dia a dia, a vida cotidiana, o grande milagre! Entretanto, nós temos uma mente que está tentando ver e desvendar o mistério que ela mesma imagina existir, que é parte da imaginação dela, algo que ela nunca consegue ver, apesar de estar dentro de sua própria projeção. Mesmo que a mente pudesse encontrar isso, ainda estaria dentro do que ela programa, daquilo que ela idealiza como sendo a vida acontecendo nesse instante. Nesse sentido, nada é um real problema ou uma real dificuldade, nada é realmente confuso, a não ser para a mente que tem uma ideia, uma imaginação, uma crença.

Satsang é a visão não dual, não separatista; a visão natural onde não há dois, nem este “eu” e o mistério do lado de fora, pois há somente a Vida, que é significativa, que é o milagre, o Silêncio, a Graça! Nada há a temer, pois até a morte é, também, uma ideia na mente. A morte é o fim da possibilidade da mente encontrar esse "mistério" que ela imagina existir; é apenas mais um conceito, mais uma ideia. Há uma Paz presente quando não há mais essa ilusão da separação, a ilusão desse "mistério" que a mente imaginou e tem criado. A vida é a Paz que o pensamento não pode nomear, essa Paz que a mente não pode capturar.

Aí, nós voltamos ao simples, ao natural: "cortar lenha e carregar água". Isso significa viver sem qualquer referência, posicionamento, crença e imaginação. Assim, o "eu" não tem mais qualquer significado, porque este personagem aparente não pode mais desempenhar nenhum papel, e não pode ocupar mais nenhum lugar. Não há mais nenhum movimento para ele, não há mais nenhum interesse em algo a ser alcançado ou conhecido, desvendado ou descoberto. Apenas nos abismamos nesse Silêncio, nessa quietude, nessa ausência de separatividade, numa profunda confiança na Vida, que é o Grande Milagre. Só há a Vida movendo esse mecanismo, esse organismo, fazendo tudo, absolutamente tudo, e, assim, estamos livres desse maravilhoso jogo mental de encontrar respostas para perguntas, porque aqui termina a necessidade de explicações, de conhecer e aprender alguma coisa.

Nesse direto e indescritível “não saber” reside o milagre da vida. Um professor nessa sala é só mais uma crença, como também a existência de alunos, pois há somente esse vazio. Tudo mais aparece nesse vazio (amigos, parentes, professor, aluno, trabalho, atividades), mas não tem "alguém" aí, e esse é o Milagre da Vida – a Vida sendo o que ela é, sem "alguém" dentro dela determinando, controlando, manipulando, fazendo ou não fazendo. Aí está a sua Natureza Real, que é esse vazio Ilimitado, Indescritível, algo sem palavras, onde nunca houve um "você", um "mim", um "eu", nessa história.

O Milagre da Vida é esse Amor que está presente quando esse sentido de separação, que é a mente em busca de alguma coisa, desaparece. Quando a ilusão é vista como ilusão, ela cai, e temos presente Aquilo que nunca esteve ausente: o Amor, que é esse Mistério. Agora eu falo desse Mistério Real, não do mistério imaginado pela mente, mas do Amor que é a Vida. Esse é o Real Milagre, não algo criado pelo pensamento, por essa suposta entidade, ou identidade. O fim da ilusão é o real mistério, é o real milagre, é a real vida, e tudo mais que o pensamento tem criado é parte da sua ilusão, dessa imaginação da mente. Por mais maravilhoso e extraordinário que seja o pensamento, ele é sempre limitado e está sempre dentro dessa fantasia, dessa imaginação. Estamos dizendo que não somos um grupo aqui dentro, com várias pessoas nessa sala, pois há somente esse Silêncio, essa não entidade, essa não identidade.

Nesse ilimitado espaço, que é Silêncio, que é Graça, que é Vida, está o Real Mistério, algo que a mente jamais pode capturar, alcançar: o Amor, a Paz, a Liberdade e a Felicidade do Estado Natural. Isso não é pessoal, porque não há qualquer pessoa envolvida nisso. Toda limitação que vocês sentem ocorre apenas no sentido dessa suposta entidade que acreditam ser. Isso é puramente mental, não havendo qualquer verdade e realidade nisso, pois é a suposta entidade que imagina um mistério a ser alcançado. Assim, essa suposta entidade também imagina ficar livre, imagina uma liberdade, uma paz, uma felicidade e um amor; imagina um despertar, uma iluminação, como algo que possa ser compreendido e aprendido dentro daquilo que ela conhece, dentro desse pensamento espetacular, fantástico, que é pura imaginação.

Estamos dizendo para você, nesse encontro, algo que é tão simples quanto cortar lenha e carregar água, comer o mingau de arroz e depois lavar as tigelas; tão simples como viver o seu dia a dia, sem o conceito, a crença e a imaginação de uma entidade na ação, determinando, gerenciando, controlando ou procurando um resultado. Este é o convite para apreciar a Vida como ela se apresenta, sem a mente, sem ideologias e sem crenças. Abandonem completamente toda religiosidade, toda espiritualidade, porque tudo isso, também, ainda é parte dessa fantasia criada pela mente em busca de algum resultado, de alguma coisa no tempo, fora daquilo que está presente nesse instante. A verdade é que a mente está em busca de ser especial, de se tornar especial. *


 Mestre Gualberto

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