quarta-feira, 13 de maio de 2015

Enquanto houver o sentido do "eu" haverá a falta de alguma coisa

Algumas noções surgem dentro de uma ideia principal. A crença principal que todos temos é de que “nós somos o corpo”. Há três coisas envolvidas aí: a primeira delas é que essa é uma conclusão mental, o próprio pensamento; a segunda é que, além de ser o corpo, nós estamos limitados a essa forma física; e a terceira é que esse corpo-mente está no mundo. Tudo o que esse corpo-mente experimenta no mundo, acordado ou dormindo, está do lado de fora, e nós mesmos estamos do lado de dentro do corpo. Ou seja, chegamos à conclusão de que nós somos “alguém”, uma “pessoa”, um “indivíduo”, e que temos uma identidade.

Isso é separação, e é sentido como falta, ou seja, algo está faltando, não está concluído, precisa ser ajustado ou modificado; algo precisa ser aperfeiçoado. A Amma conta a história de uma menina que juntou dinheiro pra ir vê-la na Índia. Quando ela chegou na Índia e estava lá, no meio da multidão, para sua surpresa e alegria, a Amma olhou para ela, chamando-a para perto dela; assim, ela pode sentar-se ao lado da Amma.

Naquele momento o coração daquela moça encheu-se de alegria, por uma ação da pura Graça; a alegria de estar ali ao lado da Amma, assentada do lado dela. Quando acabou a reunião, ela passou o resto da tarde contando para todos a alegria de ter se assentado ali ao lado da Amma. 
 
No dia seguinte, no novo encontro, para sua surpresa algo ali também aconteceu: ela, que já estava jubilosa, super feliz, mais uma vez foi olhada pela Amma, que convidou-a para sentar-se ao seu lado. Havia muita alegria, muita paz em seu coração, mas no decorrer do encontro, no momento do Darshan, a Amma viu outra moça no meio da multidão e também chamou-a, ao que ela veio se aproximando. Naquela hora, a mente daquela primeira que estava assentada já ficou cismada, e "disse": o que ela pode vir fazer aqui? Sua mente começou a dizer coisas para ela e, assim, surgiu o ciúme. A Amma colocou a outra moça do seu lado, também, e a reunião continuou acontecendo.

Toda aquela paz e a alegria desapareceram porque o ciúme estava ali, e o sentido de ser alguém especial estava sendo anulado. Ela, que tinha colocado tanto dinheiro para ir à Índia, juntado dinheiro para ir ver a Amma, por sentir-se especial, estar sentindo aquilo, ali, naquele momento, estava perdendo aquele instante de alegria; algo estava faltando e esse algo era a exclusividade. Eu li isso aqui, hoje pela manhã.

É o que estou falando agora para vocês: o sentido da “pessoa” que você acredita ser nunca está feliz, nunca está completo, nunca está satisfeito. Haverá sempre uma ou outra questão não resolvida, uma ou outra insatisfação. Enquanto houver a ideia de ser “alguém” dentro do corpo, haverá sempre a ideia de alguma coisa fora do lugar. Desta forma, não existe completude, paz e alegria no presente momento, porque alguma coisa está faltando, sempre: um novo filme, um novo livro, um novo reconhecimento, um novo elogio, um tratamento especial, diferenciado, um olhar, uma saudação, um sorriso. A ideia de ser “alguém” é a ideia de necessitar de algo. Percebem isso?

Sempre, alguma coisa está faltando. Quando você acredita que é “alguém”, não importa o que venha a você, o que a existência coloque agora, aqui, disponível para você, vai faltar alguma coisa. Isso porque você existe ou acredita existir como “alguém”. Seu Estado Natural de Ser não é o estado de alguém, não é o estado de uma pessoa. Não há nenhum indivíduo, nenhuma pessoa, alguém, aí, a não ser que o pensamento diga “eu “, a não ser que o intelecto diga “eu”.
 
Você pode raciocinar sobre isso, encontrar razões para justificar isso ou explicar essa existência do “mim”, do “eu”, da “pessoa”, do “individuo”, mas você sabe o que são essas racionalizações, essas razões? São como vitaminas. 
 
Quando toma vitaminas, você fica forte. Quando você racionaliza, intelectualiza, explica, justifica, esclarece, acredita, confia, tudo aquilo que o intelecto faz muito bem, isso é, simplesmente, como tomar vitaminas; "vitaminas" que fortalecem esse sentido de separação, de separatividade, e esse sentido de ser “alguém”. E isso é uma ilusão. Tudo o que o intelecto faz, com todo esse conhecimento que ele adquiriu dos livros, das falas que escuta, é "tomar vitamina"; uma vitamina que fortalece esse sentido de separação, na crença de um “eu”, de um “mim mesmo”. Para esse “eu”, esse “mim mesmo”, tudo está fora do lugar e algo está sempre faltando.
 
Vou repetir para vocês, de novo: enquanto houver o sentido do “eu”, haverá a falta de alguma coisa, como mais espiritualidade, mais realização, mais iluminação, mais conhecimento, mais sabedoria, mais, mais, mais e mais. Acompanham isso? Você nunca relaxa no não-ser-alguém, porque é sempre tensão; há sempre uma tensão nesse ser-alguém: a tensão da nova coisa que precisa chegar, ou que você precisa encontrar e realizar. Não é assim?

A fala nunca é importante, a não ser quando aponta para ISTO, AQUILO, que realmente importa. E estamos apontando para o sentido de completude, de totalidade; para a ausência de medo, conflito, desejo e sofrimento; para a ausência de procura, da necessidade de algo, de alguma coisa; para essa ausência completa, que é Plenitude, Completude, Paz, Silêncio e a Verdade de que tudo está no seu lugar. Este ser natural abarca tudo... tudo.

Nesse Estado Natural de Ser tudo pode aparecer: a alegria, a tristeza, o assim chamado sofrimento, ou qualquer coisa que, aqui, tem outro nome. Neste Estado de completude, o nome disso é "tudo é o que é". Tudo vem e vai, mas você, em seu Estado Natural, não muda e não sente falta, não briga, porque não há separação, divisão e “alguém” dentro do corpo, no mundo. Porque não há mundo, não há corpo e não há “alguém”. 
 
Tudo o que você tem é "isso que é". Tudo o que você faz é olhar "o que é". Então, não há conflito e problema; não há "vida espiritual" e "vida material"; não há o santo e o profano, o iluminado e o não iluminado; e não há o sábio e o tolo. Também, não há práticas espirituais, porque não há espiritualidade, não há nada que seja espiritual, nem nada que seja material. Tudo é o que é, nisso que É Você. E você é tudo isso. Então, não há falta de nada, porque não há alguém que precise de algo ou que rejeite algo. Simples?

Para o intelecto, que separa, divide, ajusta, explica, justifica, amplifica, diminui e corrige, jamais é simples. Mas o intelecto também está apreendido dentro disso, pois é somente algo que tem o seu lugarzinho aí, não um lugar de destaque, especial. Deixamos para quem acredita que é um filósofo, um sábio ou um estudioso essa crença de que o intelecto é alguma coisa especial. 
 
Você nunca relaxa no Estado Natural, porque está sempre tenso neste estado não-natural de "ser alguma coisa"; está sempre tenso. Você está sempre nesta postura especial, naquela atitude infantil. A palavra “infantil”, aqui, não é a melhor, já que aquela atitude não é inocente, posto que ser infantil é ser inocente. Eu diria, apropriadamente, aquela atitude não-inocente, não-simples, não-natural, de ser importante. 
 
Você não tem importância, e tudo está acontecendo sem você. Já percebeu isso? Mas você acha que é o autor e que acordou pela manhã. Eu estou dizendo que a existência acordou você pela manhã; que você não teve noção nenhuma de tudo o que aconteceu a esse organismo e que acredita que é seu. Estou dizendo que você respira por Graça da Presença Divina presente, que é a sua Natureza Real; não respira porque você quer, assim como a fome, a sede, o sono e o acordar não vêm porque você quer. Você não caminha, fala e escuta porque quer, pois tudo isso é uma ação que acontece sem você, que não está no controle disso, e, a qualquer hora, uma dessas coisas vai falhar – pode falhar a qualquer momento – e você não pode fazer nada para mudar isso. Ou acredita que pode?

Você tem cabelos na cabeça, não tem? Se começarem a cair, começam a cair e não está sob seu controle. Você pode tentar procurar um socorro para isso parar de acontecer, como o shampoo antiqueda, mas nada é garantido. Você não tem garantia de nada, porque não está no controle de nada. Você está aqui respirando, sente uma dor no peito, algo que parece ser gases presos, ou qualquer outra coisa, e não é, é um infarto do miocárdio. Você não pode controlar isso, porque não está na gerência disso. Você não gerencia nada, só acredita que existe como “alguém”, um alguém que está fazendo ou não, permitindo, ou não, as coisas acontecerem. Isto é prepotência absoluta, estupidez ao quadrado. É isso que chamamos ser um indivíduo; é isso que chamamos de possibilidade de evoluir, de ser "alguém", um alguém espiritual, iluminado.
Eu sei que a gente não fica com nada depois de uma fala como essa. Eu sei que é desanimador não poder contestar isso. Eu sei que é desanimador não ter um intelecto tão hábil, tão afiado, tão preparado... E que importância tem um intelecto desse tipo, que nessa autodefesa permanece restrito ao conceito do “eu,” do “mim”, ou seja, numa ilusão chamada individualidade?

Assim, relaxe, desista. Na verdade, nem isso você pode. Você pode apenas ouvir. Se você ouvir, neste estado de atenção e de entrega, essa Presença que está aqui, que é você em sua Real Natureza, tudo acontece sem você... É a Ação Divina, ação do Amor, ação da Graça, ação de Deus... 
 
O único autor, a única pessoa presente é impessoal, que É Você, em sua Real Natureza. Você, em sua Real Natureza, não está separado de nada. Você, em sua Real Natureza, está no coração de todas os seres e de todas as coisas, chamadas animadas e inanimadas. Você é Isso. Ou Isso tudo é você, ou Esse nada é você. 
 
Se sua mente continua insistindo nesse sonho de separação, de uma existência separada, de uma "pessoinha" aí dentro do seu cérebro, pensando, e mantém essa insistência desse homenzinho, ou dessa mulherzinha, dentro de sua cabeça, no comando de tudo, o sonho da separação e a ilusão do sofrimento se mantêm. 
 
Deixe-me falar um pouco sobre o sofrimento. Não há sofrimento. Tudo o que nós temos são sensações acontecendo agora, neste presente momento. Se elas são desagradáveis, o sentido de uma presença no corpo, especial, importante, diz “estou sofrendo”, mas isso não é real. Tudo o que é real é que há uma sensação desagradável agora, aqui. Por sinal, essa sensação não tem nome, e é o intelecto que dá um nome a isso, chamando de medo, tristeza, mágoa, ressentimento, etc.; "meu ressentimento", "minha mágoa", "meu medo", "meu", "eu"...

É só uma ideia do sofrimento, na ideia de um sofredor. Percebem o quanto isso é claro, é evidente? Se você não se separa do que sente, vai haver algum “eu” sofredor? Vai haver alguma historinha mental, confirmando a identidade de "alguém” aí? Então, se você fica com o que está presente agora, aqui, permite que isso simplesmente seja o que é, sem a historinha mental; desta forma, a historinha mental pode ser observada e, nesta observação, ela termina. É simples assim. Então, o que acontece com esse “mim”, com esse "eu", com esse sofrimento, com esse sofredor? Experimente isso. 
 
Tudo vem e vai. Tudo aparece e desaparece nisso que É Você, em sua Real Natureza - e não há nenhum “mim” aí, nenhum “eu”, nenhuma “pessoa,” nenhum “indivíduo”. Advaita não é um sistema de crenças; não se trata de Advaita como um conjunto de ideias e conceitos, porque isso seria mais um sistema de crenças! Eu estou dizendo: Advaita não é um sistema de crenças, e não estamos falando de Advaita. Estamos falando do Estado de Presença, no qual não há nenhuma separação, nenhum sentido de separação. Dê o nome que você quiser a isso.

Então, permaneça aí. Fique aí no seu lugar. Tranquilo? Difícil? Simples, não é? Pois permaneça aí! Fique aí. Você não pode ficar tenso aí, pois é necessário “alguém” aí para isso acontecer. Vá se habituando, vá permitindo isso assentar-se aí. Isso é muito real, natural, e não requer nenhum esforço. É só Isso.


*Trecho extraído de um Satsang Presencial em Junho de 2012


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