segunda-feira, 16 de março de 2015

O Pensamento é um Vício - Paltalk Satsang





Hoje, aqui, temos mais uma oportunidade dessa investigação. Deixem-me falar com vocês, nesse encontro, sobre esse fundamento: onde pode ser constatado o fundamento desta Presença?

A primeira ideia, e é só uma ideia, é que nós estamos vivendo no tempo. O corpo nos dá um sentido de localização espacial e temporal e, para a mente, essa é a orientação: a noção de estar no tempo e no espaço, localizados no corpo. E a pergunta é: qual é o fundamento desta Presença? E nós vamos falar, agora, um pouco sobre isso.

Ela está fundamentada fora do tempo e, naturalmente, fora do espaço. Quando se fala de tempo, tempo implica distância, de um ponto a outro ponto. Você não separa o tempo do espaço. Eu não sei se isso se aplica, ou se explica, dentro da ciência, da física quântica. Não sei, e também não me importo, se há como nós conseguirmos uma aproximação disso, dessa forma. Eu estou falando, apenas, daquilo que eu percebo.

Eu percebo que é impossível ter a noção de tempo, sem o movimento de um ponto a outro; então, tempo implica presença de espaço. É aqui que a mente se estabiliza, em sua noção de existência, de ser uma entidade, de ser "alguém", e é isso que eu chamo de movimento do pensamento. O pensamento precisa de um espaço para poder se mover, um espaço que cria o tempo. Agora mesmo, nesse instante, não há tempo. Tudo está presente nesse instante, sem tempo. A noção do tempo, e aqui eu falo psicologicamente, é toda mental. Nesse instante, o corpo presente, sem a ideia de localização no espaço, está fora do tempo e funciona como uma ferramenta, nesse instante, para a constatação do fundamento desta Presença. O corpo é uma ferramenta de Meditação, quando apenas os sentidos estão presentes (visão, audição, tato, olfato e o paladar), com todas as experiências físicas, sem a vinculação com a ideia de uma identidade separada, como um experimentador experimentando. O corpo, apenas o corpo, na experiência é um instrumento de Meditação.

Vamos ver se eu consigo colocar isso de uma forma diferente. Agora, por exemplo, esse ouvir é só o sentido da audição. Se não há a ideia de alguém ouvindo, mas apenas o ouvir, o corpo faz o uso desse sentido da audição, sem "alguém" presente, e isso é a Consciência, o fundamento da Consciência, que é esta Presença agora, nesse presente instante, sem o movimento do pensamento.  O movimento do pensamento, aí, seria a interpretação dada a esse ouvir, acrescentar algo a esse ouvir, e, quando isso é feito, a noção de tempo e espaço aparece; e desta forma você está no mundo da mente. Vamos colocar assim: seria o "mundo agora" e um "mundo no tempo". O mundo agora é Presença, é Consciência; o mundo no tempo é pensamento. Como há somente o que acontece nesse instante, se isso é tudo, isto é o fundamento desta Presença, que é Meditação. Então, o ouvir é somente o ouvir, e a própria noção de corpo desaparece; isso vale para a visão, o tato, o paladar, ou para qualquer experiência sensorial. Portanto, há somente a experiência presente nesse instante, agora, como Consciência... É o mundo agora.

Acompanham? Então, qual é o fundamento da Consciência? É Presença, agora, sem o experimentador, o pensador, o autor das ações; sem aquele que escuta, fala e sente, pois há apenas o sentir, o escutar e o falar.  Assim, o corpo, como tudo, está presente agora, sem movimento. A aparição do som, do falar, do pensamento, do corpo e desta Presença, que é Consciência, é a aparição do "mundo agora"; não é o "mundo no tempo"; não é o mundo da "pessoa", do "eu", esta suposta entidade. A Presença presente, agora, é o fundamento desta Consciência.

Não é simples? É simples isso, gente, ou é complicado? Estou dizendo que não há tempo e que o seu "mundo mental" é só uma ideologia, uma crença, um conceito, uma suposição, uma abstração! Isso está claro? Como está isso aí?

Toda aparição é somente isso: uma aparição; nada mais do que isso. O corpo é uma aparição, com as percepções dos sentidos, que são, apenas, aparições. Aquilo que você chama de mente, que é um conjunto de pensamentos, sem um pensador surgindo, é uma aparição

Um dos participantes deste encontro diz: “teoricamente entendível”; mas, "entendível", teoricamente, onde? Eu diria que o entender é possível, o entendimento, não. Entendimento implica habilidade de explicar, de aceitar e de compreender, enquanto que o entender fica sem esse compromisso, pois é algo solto. Você diz “teoricamente entendível na mente”, entretanto, eu diria que, se for entendido na mente, já não há mais o entender de que estou falando, porque entra aí um outro elemento, que é o entendimento e "alguém" entendendo; portanto, não é preciso alguém entendendo isso, basta o entender.  Isso é como a questão do compreender: não é necessária a compreensão, basta o compreender "sem um dono", "alguém" presente. O entender sem um dono é o fim do entendimento. O compreender sem um dono é o fim da compreensão.

É, também, como o pensar "sem um pensador", pois se não fica um dono, "alguém", o pensamento é algo solto, que não se transforma em uma experiência pessoal, nem faz parte desse movimento do tempo. Daquilo que pode ser capturado, e termina sendo, a captura somente é possível pelo "entendedor", "compreendedor" ou "pensador"; e isso é uma ilusão.

Faz sentido isso? Dá para ficar nesse entender, sem o entendimento? Dá para pensar sobre isso, sem o pensador? Isso é maluco demais, não é?.. maluco demais...

Participante: vivenciar isso é só quando compreender?

MESTRE GUALBERTO: Não é "só quando compreender", pois não é possível compreender no tempo e isso não requer nenhum tempo. Você diz "vivenciar isso é só quando", entretanto, "quando" implica tempo, mas não há o tempo, há somente o compreender. Percebam que isso não requer nenhum tempo, mas, para capturar, segurar e aprender isso, a mente precisa de tempo e espaço; porém, o compreender está "aqui e agora", sem o "compreendedor", e você somente diz algo no momento da sua fala.

Participante: O Ser não precisa dos cinco sentidos?

MESTRE GUALBERTO: Os cinco sentidos são aparições no Ser, não algo separado do Ser. A Consciência não é algo separado da experiência, assim como a experiência não é algo separado da Consciência. Não há nenhuma separação. A Consciência é o ouvir, o ver, o tocar e o pensar, e é evidente que, aí, não há nenhum pensador ou experimentador.

Participante: São os sentidos que precisam do Ser para se manifestarem?

MESTRE GUALBERTO: Na verdade, os sentidos são aparições no Ser, o Ser é Consciência e a Consciência é essa Presença; portanto, não há separação entre a percepção e o percebido, nem entre aquilo que é consciente e aquilo do qual aquilo que é consciente, é consciente.

Essa fala é um convite para o fundamento desta Consciência, que é este presente instante, este presente momento.

Colocando isso de uma forma mais simples: o vício de se manter no tempo e como uma "entidade" pensando, nessa identidade e identificação com os pensamentos, mantém você nesse "mundo do tempo". Estamos convidando você para este "mundo do agora", que é o mundo se expressando neste presente instante, onde "você", o  "experimentador" e o "pensador" não entram; enfim, onde "autor" das ações não entra.

Participante: Há somente alguns momentos - raros - em que isso acontece?

MESTRE GUALBERTO: Estar presente nesse instante, nesse fundamento que é Consciência, acontece em momentos raros, sim; mas porque? Porque nós estamos viciados no pensamento, no "mundo do tempo", sempre ocupados com o passado ou  futuro; sempre resolvendo equações mentais. Estamos sempre ocupados com o pensamento,  que é uma espécie de droga, na qual você está viciado;
você está viciado em ocupar-se no uso desta droga. O pensamento é um vício. Eu costumo dizer que é um hábito, mas, na realidade, não é um hábito - é um vício. Estar identificado com o sentimento, com o pensamento e com a sensação, que aparecem neste instante,  é um vício.

Participante: Os sentidos também são um vício?

MESTRE GUALBERTO: Não, porque os sentidos são simples aparições nessa consciência, que, também, ainda é Consciência. O vício é transformar a experiência sensorial em algo particular, "pessoal",  e dar um significado de cunho pessoal a isso.

Não há nada de pessoal em ouvir, em sentir o sabor do chocolate, em tocar, no calor, no frio, na audição, na visão, no tato, no paladar, na sensação térmica... Não há nada pessoal nisso, pois os sentidos são, apenas, aparições no Ser, que é a Consciência; isso tudo é a vida, presente nesse instante, e esse é o fundamento desta Presença. É aqui que o corpo é somente um instrumento da Meditação. Permita o corpo vazio do experimentador e livre do pensador, assim como a respiração está acontecendo aí, nesse instante, sem alguém respirando. Isso é somente uma ação desta Presença, dessa Consciência, com os sentidos operando sem um gerente, sem um autor.

Participante: Mestre, qual é a prática para se realizar isso? Fica relativamente distante para vivenciar isso sem um treino, uma vivência.

MESTRE GUALBERTO: Treino... vivência... prática... isso implica tempo; é preciso tempo. Você precisa de tempo para praticar alguma coisa, para esse treino e para essa vivência. Nesse instante, eu estou convidando você a ficar somente com o ouvir, pois, assim como o respirar está acontecendo sem você, nesse instante, o ouvir pode acontecer sem você. Se um pensamento surge, nesse instante, e é sempre nesse instante que ele aparece, você não precisa dar importância e um significado a isso, nem saltar sobre isso, como o pensador faz. Então, a sua prática, o seu treino, a sua vivência, é aqui e agora... é sempre aqui e agora; eu não costumo chamar isso de prática, ou vivência, eu chamo isso de atenção, Consciência, nesse instante, nesse presente momento. Não há como a mente capturar isso e transformar em algo dela. Ficou claro isso?

Não vai faltar, eu lhe garanto, oportunidade de estar presente nesse instante, livre da noção de um "pensador", livre do "experimentador". A vida, fundamento desta Consciência, que é esta Presença, está sempre aqui e agora; porém, o pensador, o entendimento, o ''compreendedor" e o dono dos sentidos não estão aqui. Mas a experiência e a sensação estão aqui, inclusive o pensamento aparece tudo aparece, agora e aqui. Trabalhar isso é a real Meditação, que não requer ambiente especial, música de fundo ou sentar-se na posição de lótus, respirando de uma certa forma, absolutamente. Assistindo a um filme, comendo pizza e tomando Coca-Cola você pode fazer isso; caminhando, treinando na academia e trabalhando você pode fazer isso; e é melhor você fazer isso assim, do que assentado com uma música suave ao fundo, dando altos cochilos e chamando isso de meditação.

Valeu pelo encontro! Espero que tenham todos desaprendido um pouco mais, e que as certezas tenham diminuído. Vamos ficar por aqui. Namastê!


Fala transcrita e revisada a partir de um encontro via Paltalk no dia 09 de Março de 2015

Encontros as segundas, quartas e sextas as 22h - Baixem o Paltalk gratuitamente e participem!


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