sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Na Plena Atenção não há Alguém - Patalk Satsang


Olá pessoal, vocês têm alguma pergunta?

Participante: Às vezes, eu tenho algumas perguntas, mas quando chega a hora de Satsang eu esqueço.

Mestre Marcos Gualberto: Reparem que nós estamos investigando o pensamento e todo o conteúdo da consciência. É só o que podemos investigar. O pensamento é igual a qualquer outra aparição; algo que vem e vai. Você tem uma pergunta, mas se ela não é feita, então, desaparece. Uma pergunta é uma corrente feita de pensamentos. Que importância tem aquilo que aparece e depois vai embora? Há algo aí que não é esquecido. Esse algo é onde o pensamento aparece; é onde o esquecimento acontece e a lembrança, também.

Para nós a percepção sensorial do mundo é algo muito real, assim como o pensamento é bastante real, mas o pensamento tem a qualidade da percepção dos sentidos. A sua experiência de mundo é como a sua experiência mental. O pensamento tem a mesma qualidade do que é material. Eu estou dizendo que o pensamento é um objeto, como qualquer objeto que os sentidos experimentam.

Geralmente nós dizemos “eu estou vendo essa árvore, eu estou ouvindo esse som, eu estou pensando sobre isso”. A experiência é algo mudando, e, portanto, o som, a visão da árvore e o pensamento não permanecem. Não é certo dizer “estou pensando sobre isso, estou vendo essa árvore, estou ouvindo esse som”, porque nada disso permanece. Toda experiência tem a mesma qualidade, que é a  qualidade da impermanência. Seria mais preciso dizermos “ver a árvore, pensar sobre isso, ouvir esse som”,  tirando o pronome eu e ficando com a experiência que não permanece. No entanto, há algo que torna possível essa experiência, que não permanece, não é imutável e não nos permite afirmar “eu, eu vejo, eu penso, eu escuto”: a verdade. É a verdade que permite essa experiência, onde o ver, o pensar, o ouvir e a ideia de alguém presente estão aparecendo.

Quando você está comigo em Satsang, eu estou nesse encontro com a verdade, apontando para você aquilo que não é uma experiência, e que, por natureza, está mudando; não é a ideia de "alguém" presente nessa experiência. Estou sinalizando para você a importância da verdade, que é aquilo que torna isso possível. A dualidade é o conceito de um "eu" na experiência,  pensando, ouvindo e vendo; assim é a sua experiência do mundo. Você não pode afirmar a verdade do mundo, com base num "eu" que experimenta algo sensorial e que está mudando todo o tempo. Esse "eu" é apenas uma ideia ligada a essa experiência, porque só há o ouvir, o ver e o pensar.

A sua experiência do mundo é tão ilusória quanto você nessa experiência. Só lhe resta aquilo onde a experiência e o eu aparece. No sono profundo não há a experiência do "eu" vendo, ouvindo e pensando. Se você, agora mesmo, fechar os olhos e não experimentar um único pensamento aí, inclusive o pensamento "eu sou o corpo", não haverá um "alguém" experimentando. No entanto, algo permanece, algo desconhecido e indescritível, fora de definições e experiências: a Verdade, que está além da mente, porque a mente, aqui, pressupõe a presença de um "eu experimentando esse ver, ouvir, pensar, e toda e qualquer experiência. É aqui que se situa todo conflito humano, que é a ideia de "alguém experimentando o mundo". Isto é a dualidade, com a ideia de "eu e o mundo", "eu e minhas certezas, ou incertezas e dúvidas", "eu e minhas experiências". Quando falamos de ego, estamos falando da ilusão de "alguém experimentando o seu mundo". Estou dizendo o seu mundo, porque não há nenhum mundo separado desse eu; não há nenhum eu separado desse mundo. Repare que eu não estou negando a experiência, estou negando o experimentador. A experiência é parte da aparição nessa Consciência. Essa Consciência é aquilo que chamo de Presença, Ser, Verdade, sua natureza real. Então, há somente a experiência acontecendo e mudando, mas sem "alguém" nisso.

Quando você se identifica com o corpo, dá a essa experiência uma identidade, que quer se livrar da experiência de que “você é o corpo”, isso somente quando a experiência é desagradável. Quando a experiência é agradável ela diz “ótimo, estou bem”, mas quando é desagradável ela diz “estou mal”. Isso vale para tanto para a experiência “eu sou o corpo", como para a experiência "eu vejo essa árvore", "eu escuto esse som", "estou pensando sobre isso". É a mesma coisa.

Em sono profundo, não há a experiência de estar bem ou mal. Apenas observe que isso está mudando, que não é permanente, nem bem-estar ou o mal-estar para "alguém" aí. É assim para toda e qualquer experiência. Seja só o que você É, esse espaço que é livre, enquanto a experiência está mudando. Não há o "eu" pensando ou sentindo esse mal-estar ou bem-estar, ficando, apenas,  esse ilimitado Espaço, que eu chamo de Presença, que não reage e, simplesmente, abraça e acolhe a experiência que está passando; é a natureza de toda a experiência a passar. Assim, acontece um desidentificação da ideia de ser o corpo, além da desidentificação da ideia "estou vendo", "estou ouvindo" ou "estou pensando". Desta forma, o sentido de dualidade termina.

Você deve trabalhar isso momento a momento, em cada segundo da sua vida. O convite da mente vai ser sempre para situar você como um "eu" experimentando o mundo, de dentro do corpo. Estou, aqui, dizendo que você não é o corpo, nem essa experiência dos sentidos. Você está além do corpo, você não está nessa experiência mental. Você está além da mente.

Participante: A única maneira de não se confundir é estar sempre atento a si mesmo? Seria o mesmo que estar presente, consciente?

Mestre Marcos Gualberto: Escute isso, você disse: “A única maneira de não se confundir é estar sempre atento em si mesmo?” 

Em "si mesmo" você não está atento, porque a plena atenção não tem esse si mesmo. Você diz “seria o mesmo que estar presente, consciente?”, entretanto há somente a Presença, não há "você" presente e, quando há Consciência, não há "você" consciente. Você consciente, assim como você presente, atento a si mesmo, isso é só uma crença. Quando há plena atenção, não há esse "si mesmo". Quando há plena Presença, não há esse estar presente. Quando há Consciência, não há isso de estar consciente. Essa pergunta está fundamentada na ideia de "alguém fazendo alguma coisa".

Participante: Ainda é o eu... puxa vida. Obrigado, Mestre.

Mestre Marcos Gualberto: Que bom que você percebeu. É o mesmo truque da mente, o tempo todo. É sempre a mente lhe dando a ideia de que você está experimentando isso. Só tem a experiência, tenho falado muitas vezes isso. Há somente o experimentar, não tem você. Agora mesmo, só tem o experimentar; relaxe, não rejeite, não fuja, não busque mudar o que já está mudando. Toda e qualquer experiência que você esteja vivenciando nesse instante não é você.

A pergunta permanece, sempre a mesma, aqui no caso: quem é esse mesmo atento a si mesmo? Quem é esse que está presente e consciente? Quem é este que está sentindo frustração, decepção, tédio, solidão, medo, cansaço, uma certa energia ou uma falta de energia? Quem é esse que está sentindo enjoo e dor de cabeça? Estou dizendo para você: só há essa experiência, que é viver sem "alguém".  Não se trata de estar consciente, mas tudo acontece nessa Consciência, que é liberdade, porque Ela nunca é tocada, quando o corpo e a mente estão sendo tocados.

Participante: Quando a gente faz essa pergunta “quem está sentindo dor?”, parece que existe alguém que se separa de quem perguntou. Essa dor não some, continua existindo, mas esse que perguntou pode observar essa dor e acolhê-la num processo natural, até se extinguir.

Mestre Marcos Gualberto: Sim, porque essa dor é uma experiência, como todo o resto passando, enquanto que aquilo onde a dor está aparecendo permanece sem ser tocado. Então, quando a pergunta “quem?”, ou “o que é isso?”, é feita nessa dor, o "que é isso" que experimenta, que sente? Nesse momento há Consciência, que está desidentificada da experiência. Essa Consciência está acolhendo a experiência, como algo que aparece nela; não rejeita a experiência, não a bloqueie ou reprime. Apenas, nesse instante, você está de volta à Fonte.

Isso é Meditação, Consciência e Presença. Isso é o real Trabalho. Então, você usa toda e qualquer experiência nesse trabalho e, desta forma, se mantém na experiência de ver, de ouvir, de pensar, de uma dor física ou de um prazer, mas não se confunde com o corpo que experimenta, nem com a mente que analisa. Isso é fascinante, pois você descolou do "eu", do "mim", do senso da pessoa, que mantém uma identidade, seus desejos, suas frustrações e crenças particulares, seus preconceitos e assim por diante.

Isso é a Verdade, que não é pessoal, algo particular. Ela não é exclusiva.

Namastê.

Fala transcrita e revisada a partir de um encontro via Paltalk Senses no dia 18/02/2015
Encontros as segundas, quartas e sextas às 22hs - Baixe gratuito o Paltalk e Participe! 

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