quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A Real Felicidade é o Estado sem Ego - Satsang


Nós falamos sobre a felicidade pessoal. Felicidade pessoal é impossível, porque a pessoa é impossível. Felicidade é a Natureza Divina. A pessoa não conhece a felicidade. A pessoa conhece o medo e para fugir do medo ela criou alguma coisa que ela chama de "felicidade", de "liberdade", de  "paz", de "verdade" e de "amor divino".

Isso está fora da mente. O que mais nós podemos falar sobre isso? Todas essas teorias sobre liberdade, felicidade, fé, amor divino, tudo isso é algo criado pela mente. É a sua fuga do medo e a procura de alguma segurança. E isso é a pessoa. Não importa se falamos de uma boa pessoa ou de uma má pessoa. Não importa se falamos de uma pessoa justa ou ímpia, santa ou pecadora, mundana ou não mundana.

O que temos falado é que essa imaginação de "ser alguém" lhe afasta da simplicidade, da naturalidade de ser feliz. Ser feliz é não buscar nada, como a felicidade, o amor, a paz ou a liberdade. Qualquer movimento é um movimento de afastamento dessa natureza básica e essencial, que é paz real, liberdade real, amor real e felicidade real. Isso está fora da mente. É tão simples como deixar de confiar, de acreditar, de depositar segurança nos pensamentos, mas ao mesmo tempo é tão difícil quanto isso, a coisa mais íntima, que é o pensamento.

O problema não é o corpo, mas é o pensamento. Não é o corpo que busca a felicidade, mas é a mente egóica, imaginativa e pessoal, que está à procura disso. O corpo tem necessidades básicas, mas é algo inerte, nele mesmo. Sem o impulso da mente, ele se adapta com facilidade a quaisquer condições, ligadas à sobrevivência, enquanto que a mente não se adapta.

A mente cria supostas necessidades, e é por isso que vocês reclamam a falta de apreciação, sentem-se carentes de chamego (como se diz no Nordeste), de carinho. Vocês têm sempre alguém ou alguns para lhe darem isso, para preencher essa necessidade fictícia, imaginária, que é a necessidade artificial da mente, que nós chamamos de ego.

Vocês estão sempre com raiva, ofendidos, magoados, feridos e chateados, além de serem vingativos, porque são pessoas. Ser pessoa é uma miséria; não ser o que a vida É (o Todo), é estar  sentindo-se separado, precisando de outras pessoas para ser cada vez mais, "alguém". Então, essa busca de felicidade é medo. Essa procura de se manter como alguém recebendo apreciação, chamego, carinho, reconhecimento, atenção, é muito... muito... miserável. Isso significa viver nessa limitação, nesse círculo restrito, o que eu chamo de contração, e no sentido de um “eu” importante.

Quando a vida está presente nessa Consciência, que é a "não-pessoa", a felicidade está presente na "não-carência", na "não-necessidade psicológica" e na "não-busca de atenção, chamego e carinho." Somente então a vida pode lhe surpreender, porque você não é importante. Você é ela. Como ela não está separada do que você é, ela é pura plenitude, generosidade, abundância, suficiência, completude. É isso que você é, quer esteja vivendo num palácio ou numa choupana.

Felicidade é algo incondicional, como são a Liberdade, o Amor e Deus.   É quando você não está mais preocupado se está vivo ou morto, além de não buscar mais fama, reconhecimento, proteção, amparo, cuidado, etc. Vocês precisam deixar isso, com urgência: essa grande infantilidade, essa coisa mesquinha que é viver no ego, numa "autopreocupação" constante e no medo, que não termina nunca, bem como viver nesse desejo,  que é só um desespero de um suposto alguém, que quer ser alguém. Por isso há tanta solidão, depressão, ansiedade e desespero em toda parte.

Curiosamente, isso não é real. A vida não toma conhecimento disso. A existência não toma conhecimento disso. Isso só existe nesse mundo fantasioso de pessoas que acreditamos ser. Algumas até se candidatam em nos tratar e nos curar, como se houvesse cura, tratamento, e pudéssemos ser ajudados ou ajudar outros.

É basicamente isso: desista! Desista do ego; desista da pessoa que você acredita ser. Confie na minha fala: você não é isso! Você é Deus! Você é beatitude, bem-aventurança, felicidade, liberdade suprema. Você não precisa de ajuda; ninguém precisa; não tem alguém que precise.

Mais alguma coisa? Hum? Não é isso não? Você quer isso e mais aquilo. E eu digo que não tem isso e nem aquilo; só tem Ele. Você quer disputar lugar, quer estar bem com Ele e bem com tudo, mas você não pode estar bem com Ele e bem com tudo. É somente quando Ele pode estar que terminam os seus problemas, porque não há mais nenhuma exigência de que algo aconteça diferente do que está acontecendo.

Hoje eu vejo tudo acontecendo certo à minha volta, tudo no lugar. Eu não estou aqui para avaliar, classificar ou julgar nada, e nem para dizer o que está fora do lugar. Essa estúpida arrogância caiu aqui. Por que é que não cai aí? Não cai porque você é muito importante, mais do que a vida, que determina tudo; mais do que Deus que escolhe tudo, que faz tudo do jeito Dele.

Só tem a vontade Dele, Deus, que é uma outra palavra para Consciência, essa indescritível verdade que, soberanamente, triunfa acima de todas as vontades, desejos e escolhas.  E agora o que vocês me dizem?

Deus, você, essa árvore, esse espaço, é todo esse movimento misterioso, indizível, indescritível.  Se não gostarmos da palavra Deus, a gente cria uma outra: pode chamar de God ou outro nome.

Participante - Não dá pra ter Deus e o nosso mundinho?

MESTRE - Não. Nosso mundinho é imaginário. O nosso mundinho é um conflito, é um problema, é um sofrimento, uma miséria, para a nossa própria e pessoal imaginação. Por isso que está tudo errado, tudo fora do lugar, e vocês não fizeram nada certo até hoje; jamais farão.

Participante - É a Bíblia que diz que quem vê Deus morre?

MESTRE - Sim. Quem vê Deus morre. Eu vou parafrasear: quem vê Deus descobre que nunca esteve vivo. Quem vê Deus descobre que só tem Ele. Enquanto não se vê Deus, a cegueira é a ilusão de que se está vendo alguma coisa criada pela própria cegueira, pela ilusão, pela imaginação. Então, quando ver-se alguma coisa que é chamada Deus e o mundo, isso é parte dessa cegueira, dessa ilusão.

Não é nesse Deus que estou falando. Estou falando Daquilo que se apresenta quando não há mais essa cegueira da dualidade, em que há um "eu", o mundo e Deus.

Participante - Essa felicidade que você fala não é a felicidade que a gente experimenta aqui às vezes, não é?

MESTRE - Essa é imaginação.

Participante - Porque se tudo é o que é...

MESTRE - Essa é a felicidade.

Participante - Porque tudo é o que é, não há espaço para a tristeza.

MESTRE - É a ausência de tristeza.  A Natureza Divina é a alegria. Deus é a suprema alegria, mas não é a alegria que tem esse oposto chamado tristeza, como o outro lado da moeda. É algo completamente, radicalmente, diferente disso.

Participante - Então, é uma alegria que a gente não tem a menor noção do que seja.

MESTRE - Na mente, não. Na mente, você não tem isso.

Participante - Às vezes temos flashes disso, em Satsang.

MESTRE - Na mente, não. Porém, vocês todos têm lampejos diretos daquilo que são. Isso nunca nos abandona, porque nós somos Isso, que não é o que vem e vai. A cegueira, a ilusão e essa suposta felicidade vêm e vão. É a mente que vem e vai, não Aquilo que você É e não deixa de ser.

Participante - Mestre, parece que existe um processo em direção a essa felicidade. Por exemplo, é muito comum ouvir relato de quem está em Satsang de que está mais leve, com menos problemas.  Então, é como se a gente fosse se aproximando dessa felicidade?

MESTRE - Não vamos nos aproximando dessa felicidade. O sentido de separação perde seu encanto; só isso. Na razão em que esse sentido de separação, que é a ilusão do sentido de uma identidade separada, começa a perder o encanto aí, você pode vivenciar mais o seu Estado Natural, que é Paz. 

Participante - A mente e o corpo vão ficando mais afinados com essa Verdade.

MESTRE - Sim... mais harmonizada e sintonizada. Até então, não somos naturais na mente e no corpo. A lua não atrapalha o sol em nada, mas se a lua pudesse acreditar que é o sol, ela ia criar muito problema para ela mesma. Teria muito deveres, obrigações, muito trabalho dos quais não teria capacidade de cuidar. Então, ela estaria realmente em apuros. É  o que acontece com o intelecto (mente) quando tenta se passar por essa Sabedoria Inata, essa Consciência.

Participante - Essa mente que você (Mestre) acessa é a mente funcional e não a mente egoica. Não é isso?

MESTRE - Isso. Ela não passa por esse movimento da separatividade, pois já tem a liberdade de Ser.  A lua ocupa o lugar dela, quer o sol esteja presente ou não, e ele nunca deixa de estar presente.

A mente funcional não é a mente egoica. E o que você chama de mente eu chamaria de função da Consciência. A Consciência pode assumir qualquer função, mas a mente não pode assumir a função da Consciência. Seria a lua tentando fazer o trabalho do sol.

Aqui, ego significa a imaginação de ser a Consciência. É a mente se imaginando suprema para escolher, realizar, fazer e controlar, o que é pura ilusão. É a vontade e ação, o fazer e poder da mente egoica, uma usurpadora de trono, ou que pretende ser.

Vocês precisam urgentemente trabalhar isso. Precisam ficar atentos a esse suposto rei num trono falso, irreal. Quando se sentem coitadinhos, pobrezinhos, não amados, rejeitados diminuídos, e reclamam ou reivindicam internamente direitos, estão se limitando a um sentido de pessoa.

Vocês estão em apuros. Ser um homem casado, uma mulher casada, um filho, um pai, um avô, uma avó, um chefe de família, um patrão, um empregador, um empregado, um amigo, ou seja, ser tudo de alguém para alguém, para si mesmo, tudo isso é estar em apuros. Isso é ser uma pessoa. Soltem isso. Entrem fundo nesse mergulho, que, aqui, eu chamo de meditação, que é trazer Consciência para dentro desse movimento inconsciente que é ser alguém.

Reparem que meditação não é sentar, fechar os olhos e passar 10 minutos, uma hora, assim. Não é isso. É algo que exige Presença, Consciência, agora, nesse instante. O que se passa aqui é frustração, raiva, medo, decepção, busca de ser aceito? O que se passa aqui é um sentido de ofensa, o desejo de ferir, ofender, magoar, diminuir? O que se passa aqui é inveja? Eu não vou brigar com isso, vou apenas ficar ciente de que isto está aqui; não vou mais alimentar isso. Essa ciência, essa Consciência, por si só, faz o trabalho e esse "eu" que se alimenta do prazer morre nessa atenção. Isto é meditação.

Não é isso? Como me dirijo a uma pessoa, a um cachorro? Como me dirijo a alguém, esperando algo de alguém ou de um animal, ou de alguma coisa? Essa é a real meditação. Até quando estou brincando, contando uma piada ou sacaneando alguém, eu trago consciência para isso. Eu não faço isso de uma forma automática, pessoal, para ser o mais engraçadinho, a figurinha da vez, para ser importante. E quando, também, não entro, porque não entro? Para ser importante, o mais santo, o bom menino? Você quer enganar a quem? A si mesmo? É uma questão de Consciência, de Presença, de atenção sobre si mesmo.


Fala transcrita a partir de um encontro Presencial em Tamil Nadu - Índia - Na cidade de Tiruvannamalai, no túmulo de Annamalai Swami (discípulo realizado de Ramana Maharshi), no dia 04 de Outubro de 2014

Um comentário:

  1. Nós nunca nos perguntamos qual é o real significado dessa palavra Consciência por acreditarmos que já sabemos.Alguém consciente de alguma coisa.Eu e o objeto.
    Nós sabemos,esse é o problema.Todos sabem.E aí ficamos uma vida inteira presos nessa ilusão. Não existe dúvida.
    O conflito surge quando a coisa não se completa.O sentido de separação,onde parece estar faltando algo traz insatisfação.O que está faltando quando a dualidade é desmascarada?
    O Mestre aponta insistentemente para isso.Na ausência da ilusão da mente separatista só tem o Mestre. Só há o guru. O amor pelo Real.
    Não há como não se apaixonar por Satsang.Esse encontro com nossa real natureza.
    Estar com um Mestre vivo é ter essa verdade revelada.

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