quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A Ilusão não tem um princípio - Paltalk Satsang



Essas falas estão sempre nos indicando isso: nós estamos juntos trabalhando o fim do sentido de separatividade, do sentido de dualidade. Quando falamos do fim do sentido de dualidade, estamos falando  do fim da ilusão; dessa ilusão onde há esse fragmento chamado "eu", de um lado, e o mundo sendo experimentado por este “eu”, do outro lado. Assim, temos a questão do sujeito e do objeto; isso é a dualidade e aqui está o sentido de separatividade.

A mente, em si, no sentido mais amplo da palavra, não é inerentemente dualista, isso é apenas uma aparência. Ela parece se tornar dualista ou inconsciente, ignorante, apenas pelo pensamento, por uma parte, um mero fragmento. Acompanhem isso com calma: quando a mente, através do pensamento, atribui a essa Consciência o significado de um experimentador experimentando, de um “eu” separado do mundo, de um sujeito diante desse objeto chamado mundo, faz com que tenhamos a ilusão da separatividade, da dualidade, e nós temos, então, essa conhecida mente separatista, egóica, dual. Nós convidamos você a perceber isso: a ilusão do sentido de separatividade criado pelo pensamento, quando esse pensamento cria essa crença. Agora, por exemplo, nesse instante, só há a Consciência presente. Esta Consciência é este ouvir; é todo e qualquer pensamento aparecendo; toda e qualquer experiência aparecendo. Quando há a crença de que há alguém nisso, que há alguém dentro dessa experiência, pensando, ouvindo, ou experimentando, aí, então, nós temos a mente dual, a mente egóica, em conflito como um experimentador.

Colocando de uma forma bem simples: você diz “eu não gosto disso”; “isso está errado”; “estou sofrendo”; “estou preocupado”; “tenho medo”; “eu posso escolher”. Quando você faz isso, o que temos aí é a mente dual, dualista, separatista; é o pensamento, a partir de uma crença, se separando como "alguém" -  alguém para pensar, sentir, escolher, resolver, gostar ou não gostar... Isso é a dualidade, o sentido de separatividade. Dá para acompanhar isso?

Se isso não estiver presente, se o pensamento não estiver, através dessa crença, se separando, confiando, acreditando nisso - se ele não aparece aí - não há dualidade, não há separatividade. Há somente experiência, e a experiência é a própria Consciência. O pensamento é a Consciência, o sentimento é a Consciência, a sensação é a Consciência; tudo é essa Consciência, nada está separado Dela. Tudo é uma expressão dessa única Consciência.

O ego, o “eu”, esse “mim”, esse sentido dual, surge quando há a crença de alguém nessa coisa. Agora mesmo, um pensamento pode acontecer aí, nesse cérebro, nessa cabeça, mas esse pensamento não tem alguém por trás dele. Uma sensação pode estar acontecendo nesse instante, mas não tem alguém por trás dessa sensação. Quando esse “eu” surge, ele se separa e diz: “não quero pensar assim”. Na verdade, não tem "ele" pensando assim, só tem o pensamento acontecendo, mas ele se separa e cria o conflito, que é dual. E o conflito entre esse suposto “eu” pensando e o pensamento acontecendo como algo separado dele, entre alguém sentindo e o próprio sentimento presente sendo rejeitado, ou sendo apreciado, por essa suposta entidade que está experimentando isso, não é real.

Agora percebam que a mente, em si, não é dualista, porque ela é, ainda, uma expressão da Consciência. Já essa mente dualista, separatista, egóica, é a ilusão de um experimentador dessa coisa chamada pensamento. O pensamento é só o pensamento; não há o pensador. Então, diante da experiência do medo, e há somente medo, não tem "alguém" para se livrar do medo. Se isso está aí, permaneça aí; é só uma experiência, como qualquer outra experiência, que passa, que vai passar.

Se você não der um significado a essa experiência, que é o sentido de um "alguém" rejeitando, valorizando, criando uma história sobre isso, ela será só uma experiência dentro dessa ilimitada Consciência, dessa ilimitada Presença não dual, não separatista. Então, é só uma experiência dessa Consciência e não uma experiência pessoal, não uma experiência minha, desse “mim”.

Nós estamos vivendo o tempo todo segurando a imagem de alguém controlando, ou com poder de controlar, a sensação, o pensamento, o sentimento, a emoção, toda e qualquer experiência. Aqui está a ilusão da mente egóica; é aqui que está a ilusão do sentido de separatividade.

PARTICIPANTE: Por que essa particularização da mente em um experimentador? Para que isso? Quando surge?

MESTRE MARCOS GUALBERTO: É uma pergunta interessante... Vocês que precisam me responder.

PARTICIPANTE: É automático isso.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: O que você chama de automático, eu chamo de inconsciente. A natureza da mente dual – que faz você estar sempre sendo capturado por essa pegadinha da consciência – é inconsciência.

Há muito tempo o movimento da mente é esse de vir a ser, de buscar ser, de experimentar. Então, nós estamos, na verdade, viciados em vir a ser, em experimentar, em participar, em nos perdermos nessa inconsciência.

Você pergunta: “quando?” Não existe quando. Só podemos saber como isso acontece, mas, quando não sabemos, ninguém sabe. Sabemos que acontece quando essa Consciência, aparentemente, se perde nesse movimento, quando o pensamento assume a particularização de um fragmento nessa experimentação.

PARTICIPANTE: Em algum momento isso apareceu aqui?

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Não foi em algum momento. Na inconsciência, isso apareceu aí. Agora, quem é a Consciência de que estamos falando? A Consciência nunca deixa de ser consciente. Aquilo que nós chamamos de Consciência é como esse movimento do pensamento que se separa, como um fragmento, para experimentar.

PARTICIPANTE: Como uma faísca que dá um salto para fora da fogueira?

MESTRE MARCOS GUALBERTO: A ilusão não tem um princípio, assim como essa inconsciência não tem um princípio, então, não é em algum momento. Nós estamos apenas num jogo de aparências. Estamos lidando com aparições, somente aparições, que não são reais. A aparição do “eu” não é algo real; a aparição da mente egóica não é algo real; a aparição do sentido de separatividade não é algo real, pois é somente uma aparição. A ideia que fazemos é de que isso é uma aparição no tempo. Eu prefiro dizer que é uma aparição, como a própria aparição da inconsciência, nessa Consciência, que nunca deixa de ser o que Ela é. Essa inconsciência é a mecanicidade, é o vício, é o sentido de separação, é o sentido da mente dualista.

PARTICIPANTE: Mestre, quando estamos investigando isso, e em alguns momentos quando trago consciência para o momento, isso pode ser visto. É possível notar que não há ninguém na experiência, mas só isso não resolve a coisa. No momento seguinte já há inconsciência e na maior parte do tempo eu estou me percebendo separado da experiência.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Esse é o hábito, esse é o vício, esse é movimento do pensamento, se separando como um fragmento na experimentação, no experimentar. É isso o que a mente tem feito o tempo todo.

PARTICIPANTE: Mestre, no seu processo, como foi isso aí? Você olhando esse pensamento vindo... Estava sempre atento, ou você se perdia também? Como era? A sensação que eu tenho é que não tem nada para fazer. Isso é tão automático, tão sutil, que só um milagre, só a Graça pode fazer alguma coisa. São 24 horas que você tem que ficar olhando, mas você não consegue olhar 24 horas. Você consegue olhar um minuto, e, no momento seguinte, você já foi embora, e num outro momento você consegue... Enfim, eu queria saber se com você foi assim também.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Então... A primeira coisa que me chamou atenção na pergunta foi a questão do pensamento acontecendo naquele que está Acordado, naquele que está Desperto. A primeira coisa é quando ela diz: “o pensamento quase não ocorre...” Mas não é assim. A questão não é o pensamento não acontecer; o pensamento não é o problema. O problema é estar identificado como o experimentador desse pensamento. É para isso que é importante vocês se atentarem: quando o pensamento aparece você se identifica com ele, se perde e dá uma identidade a ele.

Na verdade, vocês fazem perguntas para mim, perguntas para o Marcos, e eu compreendo isso também. Eu não preciso, de fato, lhe dar uma resposta que seja pessoal quanto a isso, porque, basicamente, é a mesma coisa acontecendo com todos. Esse trabalho, esse processo, acontece com todos de uma forma bem parecida; ao menos algumas coisas são bem parecidas.

A resposta é essa: você vai se perder sim, muitas vezes. Você, como sendo esse sentido de “alguém”, sendo esse “experimentador”, já está nisso há muito tempo; você é muito bom nisso - em ser alguém. Então, é natural que você só conheça isso. A mente vai voltar a fazer isso muitas vezes, mas ela vai ficando mais fraca e mais lerda para fazer isso.  Então, com o passar do tempo, aí nesse mecanismo, essa Consciência vai se estabelecendo. Essa armadilha do pensamento, ao tomar esse formato, se separando como uma entidade, como alguém experimentando, ele próprio experimentando, vai perdendo a força. É algo que acontece nesse mecanismo, nesse corpo-mente, de uma forma lenta, de uma forma gradual.

PARTICIPANTE: Essas colocações não fazem sentido para o intelecto. A sua vivência direta nos passa a certeza que é assim mesmo. Tenho a certeza de que só o seu amor faz a diferença. Igual à vaquinha Lakshmi do Ramana, nessa confiança cega no Guru.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Aqui você está em Satsang, diante da Presença, diante da Graça.

PARTICIPANTE: Investigar como foi para você ajuda em alguma coisa para nós? Ou seja, necessariamente seria igual para todos? Porque você, nas suas falas, não está falando do seu processo, mas sempre do agora.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: É, estou apenas falando do processo, não do processo de Marcos Gualberto, mas do processo. Então, de uma certa forma, estou falando da vivência desse trabalho aqui, que é a mesma aí em todos vocês

PARTICIPANTE: Se foi assim com Marcos Gualberto e ele chegou lá, a gente tem chance, né? Uma esperança.

PARTICIPANTE: É difícil para o Mestre falar de um si que não existe mais.

MESTRE MARCOS GUALBERTO: É bem complicado mesmo.

A coisa básica é essa: olhe de novo, e de novo, para essa mesma direção. Repare que esse lugar, esse espaço, essa coisa aí, está fora dessas medidas do pensamento. A Graça é uma ação da Graça e sempre misteriosa, como tudo o que Deus faz. Você vai ouvindo essas falas em Satsang, mas não tem nenhum valor intelectual guardar e arquivar isso aí. O trabalho, em si, já está acontecendo nesse instante, nesse momento, nesse contato.

Toda essa segurança da mente, todo esse posicionamento da mente, todo esse desejo de se manter como uma entidade separada, tudo isso está se dissolvendo, está desaparecendo. Esse é o trabalho.

PARTICIPANTE: Consciência e ilusão da não consciência... Sempre foi assim, não é?

MESTRE MARCOS GUALBERTO: Isso, sempre foi assim: Consciência e a ilusão da não- consciência. Sempre foi assim e sempre será assim. Esse é o mistério da Graça. Agora, para esse, ou para aquele mecanismo particular, essa ilusão termina e, quando ela termina, dizemos: “fulaninho despertou”; “fulaninho não está mais dormindo”; “não está mais na ilusão da separatividade”; “não está mais na ilusão da mente egóica”; “não está mais na ilusão da inconsciência”; “voltou para casa”.

Namastê!


Fala transcrita e revisada a partir de um encontro via Paltalk Senses no dia 19/01/2015
Encontros todas as segundas, quartas e sextas as 22h - horário de Brasília - gratuito

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