quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A Busca da Realização Pessoal como um Substituto para o Medo - Satsang



Trabalho, para nós, é sinônimo de realização pessoal. O joão-de-barro constrói uma casa para morar com sua fêmea. Os pássaros fazem um ninho para poder procriar e, ali, os filhotinhos nascerem. Para onde quer que você olhe, você vê os animais fazendo alguma coisa, mas não há uma realização pessoal ali. O que nós chamamos de trabalho, para eles, deve ter um outro nome. Para nós, trabalho é algo que você faz para se autopreencher. O pássaro joão-de-barro faz a casa e vive um tempo ali com a fêmea; depois eles vão embora e deixam a casa vazia. O pássaro constrói o ninho, tem os filhotinhos, que nascem, crescem um pouquinho e vão embora do ninho; depois os pais abandonam o ninho, sem nenhum apego, deixando-o prontinho. Se você observar um pássaro construindo o ninho vai achar que dá trabalho; isso é uma coisa trabalhosa para nós, mas para ele não há nenhum trabalho ali, aquilo não vai lhe preencher em nada; não há medo da dor, nem o desejo de prazer. 
 
Na natureza, nenhum ser vivo acumula, nem para si, nem para a prole. Na natureza, nenhum ser vivo tem a ideia de que a prole é herdeira e sucessora. Então, na natureza, você não vê peso no trabalho, na existência, enquanto nós vivemos sob essa égide da benção e da maldição. Nós vivemos fugindo da dor e buscando o prazer; o prazer chamamos de benção e a dor chamamos de maldição. O trabalho que fazemos é para escapar dessa maldição e para adquirir prazer. A insegurança e o medo nos colocam sob a maldição. 
 
Tudo isso são apenas crenças de que a nossa segurança depende de nós, da autoria de nossos feitos e realizações. Nós transformamos essa insegurança, que é baseada nesse medo, num esforço e numa tentativa de trabalho. Então, a nossa insegurança nos empurra para fugirmos do medo através da realização pessoal, que chamamos de trabalho. Só trabalhamos com um objetivo: adquirir segurança; esta que não chega nunca, não importa a quantidade de resultado que este trabalho nos traz. O símbolo, a bandeira dessa segurança é o papel-moeda, é a cédula, é o dinheiro. Só trabalhamos por medo, pois o trabalho é aquilo que inventamos para substituir esse medo, essa insegurança. O sentido de autoria, de realização, nos impulsiona a esta escravidão, a esta limitação, a esta busca de realização pessoal chamada trabalho; e tudo isso para obtermos a segurança simbolizada naquela bandeira. Na existência, na natureza, você não vê isso. Todos os seres parecem trabalhar, mas nenhum deles, de fato, está trabalhando. 
 
Trabalhar, para nós, tem o sinônimo de preenchimento e realização pessoal; de medo, de pura insegurança; da direta não aceitação de que a Consciência, a Verdade, Deus, é a única realidade, é a única fonte de provisão absoluta, onde não há falta. 


 

O trabalho do predador para obter a presa não é um trabalho, porque não há ali um preenchimento pessoal na realização de alcançar a presa. Quanto ao pássaro que constrói o ninho para ter seus filhotes, não há um trabalho nisso, também, porque não há um preenchimento pessoal. A presa na boca do predador não é um troféu. A casa construída pelo pássaro, para ter seus filhotes, não é a sua posse e, logo, vão embora e a abandonam. 
 
Tudo o que a mente faz, o faz para uma realização pessoal e este é o trabalho. Ter filhos é um trabalho... isso preenche; traz preenchimento e realização. “A mulher tem que ser mãe”: quem inventou essa fórmula? Por que que toda mulher tem quer ser mãe? Por que todo homem tem que ser pai? A mente criou a fórmula, porque a mente busca o preenchimento em realizações, como ter um filho ou uma filha. Isso é um peso, isso é um trabalho. 
 
Assim, no fundo, estamos na mente, sob o medo, a bênção e a maldição, estas que são os dois lados da moeda do medo. Por isso trabalhamos; não só trabalhamos, como, também, nós aprendemos e evoluímos. Trabalhamos para construir, para nos preenchermos. Aprendemos para evoluir, para nos preenchermos. A “liberação”, “libertação”, é a libertação do trabalho, como, também, do conhecimento, porque a “libertação” é o fim do medo. Você não tem mais a necessidade imperiosa de se realizar tendo filhos, nem de se preencher tendo posses. A existência não nos mostra isso, não nos dá esse modelo de vida. A natureza não nos dá esse modelo de vida, porque foi a mente que criou isso. Nós criamos essa artificialidade toda e transformamos a necessidade simples numa coisa muito complexa, porque isso nos preenche, preenche esse "mim", esse "eu", essa "pessoa" que acredito ser; por esse motivo trabalhamos, trabalhamos por isso. A comparação, a imitação, o modelo social e cultural fazem isso conosco. A mente nos torna medíocres e nos coloca para trabalhar.


 

Um dia Cristo disse: "olhem para os pássaros, não semeiam nem colhem, mas o Pai alimenta todos eles. Olhem os lírios do campo, que nem tecem, nem fiam, mas nem mesmo Salomão, em toda sua opulência e glória, vestiu-se como um deles". Cristo está dizendo que vocês não precisam trabalhar, homens de pouca fé, pois, assim como cuida das aves e dos lírios, Deus cuida de vocês; acreditam que, por acaso, vocês valem menos que um pássaro ou uma flor?

Então, ainda vão sair daqui acreditando que precisam trabalhar? Ainda vão sair daqui acreditando que são os autores e realizadores dos próprios feitos? Ainda acreditarão nesta coisa de ter segurança porque estão no controle? Ainda estarão buscando este preenchimento numa ação supostamente pessoal, que poderão vir a realizar esta suposta pessoa? Que essa suposta pessoa um dia será feliz, porque conquistou, com a realização do trabalho, a felicidade? 
 
Então, é isso o que falo sobre o trabalho. 
 
Eu não quero saber de trabalhar, e, quanto ao dinheiro, tenho todo o dinheiro que preciso ter. Quanto às necessidades preenchidas, todas estão sendo preenchidas. Tudo isso por uma ação da Graça, que é a provisão, e eu não me importo se ela aparece neste ou naquele formato. Quem se importaria? Quem ficou aqui para se importar? Porque vocês tem que encontrar um modelo através do qual poderão obter ou realizar esta suposta segurança? Porque vocês se limitam a fazer com que esta Fonte jorre, apenas,  através de um pequeno canal, quando têm todos os canais disponíveis, sendo a própria Fonte?; tendo todos os canais e caminhos, toda a inteligência que se faz presente sempre?. 
 
Então, digo que você está além do medo, além da pessoa, além do trabalho e além dos desejos. Você é a Consciência livre do medo e livre do desejo. Esse "além" não é uma transcendência, é o fim dessa ilusão. A Graça cuida de tudo. Deus vem cuidando de tudo. Pode chamar isso de trabalho de Deus, eu prefiro chamar isso de brincadeira de Deus. Se não houver essa Consciência, o que estará presente é o medo. 
 
O detalhe é que se você está com vinte anos, já vem tendo conta desde que tinha cinco anos, até antes disso, e tem alguém pagando por você, sempre, pagando suas contas. Uma criança de cinco anos já gera uma conta enorme e nem tem ideia da conta que faz. Tem sempre alguém pagando por você, e esse alguém é a Consciência, não importa o canal que Ela usa. Agora, se é assim desde que você tinha dois anos de idade, desde quando você saiu da maternidade, porque não vai ser assim até o fim? Por que você tem que se preocupar com contas? Eu não tenho contas. Eu deixo que outros tenham minhas contas. Faça o mesmo e deixe que outros tenham as suas contas. Na verdade, que outros? Não há outros... Outros é a Fonte. Você pode se livrar das suas contas e deixá-las todas com a Fonte, pois é Ela que distribui suas contas, e nem com isso você se preocupa.


Fala transcrita e revisada a partir de um trecho de um encontro Presencial em Recife Fev/2015

Um comentário:

Deixe aqui o seu comentário

Compartilhe com outros corações