quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Paltalk Satsang: Esta Vida é para esta Realização!




Realização não é um trabalho de um fim de semana. Você não pode olhar para esse trabalho desta forma, porque isso aqui não é como um workshop ou um curso, com uma carga horária determinada, que após concluídos está tudo resolvido. Você tem essa vida para realizar isso. É importante que você escute isso, muitas vezes: essa vida é somente para realizar Isso. Essa vida que você tem, que acredita ter, e da qual acredita ser dono, senhor e diretor, tudo isso, é uma crença. Essa vida é para esta Realização: da única vida, da Real Vida.

Essa Real Vida eu chamo de liberação, algo presente nesse instante. Esse é o momento único dessa Realização, não há outro momento. Você não pode impor uma condição, não pode idealizar uma forma, planejar um caminho, caminhar numa determinada direção, ou seja, não há nada que você possa idealizar, planejar e fazer para realizar Isso.

No entanto, isso requer, paradoxalmente, um grande esforço, que não é um esforço no formato daquilo que a mente pode propor, mas, mesmo assim, é um esforço. É preciso uma aplicação total, uma dedicação total; é preciso toda a sua vida dedicada ao fim dessa suposta vida que você acreditar ter, controlar, construir e ser alguém nela. Todas as vezes que abrimos a boca para falar sobre Isso, nós nos encontramos dentro desse paradoxo, algo indizível sendo colocado em palavras, impossível método, caminho ou formato. No entanto, estamos aqui, neste espaço chamado Satsang, colocando em palavras o que está fora das palavras, e propondo algo fora daquilo que a mente pode realizar, através de seus planos, intenções, motivos e desejos.

Estamos juntos?

É algo fundamental a paciência de se deparar com Isso, que é desconhecido e não pode ser alcançado pelo pensamento, nem, a princípio, idealizado, planejado e executado pelo pensamento. Essa paciência na aproximação desse desconhecido, que é fundamental, é o que eu acabo de chamar de esforço. Mas repare: você é impotente e não pode realizar Isso. No entanto, Isso precisa ser realizado.

É aqui que nos deparamos com este paradoxo: um esforço seu só o afasta da Realização. Tudo o que você pode fazer, nesse esforço pessoal, o afasta, porque está baseado em suas crenças e desejos pessoais, e na imaginação acerca disso. No entanto, eu o convido a um esforço, entretanto é o esforço de uma outra ordem. Há um texto de Annamalai Swami no qual ele fala de um esforço, que se faz necessário. É desse tipo de esforço que estamos falando e eu chamo de "se aquietar". Durante muito e muito tempo, o seu movimento está no fazer, idealizar, planejar e buscar execução, num grande esforço de "alguém" dentro de um objetivo, de um sonho e de uma imaginação, todavia este esforço é inútil. Estamos falando de um esforço totalmente diferente, que eu chamaria de não-ação, não-planejamento, não-imaginação e não-execução, descobrindo a ciência de estar quieto.

Para vocês a coisa mais complicada, a mais difícil de todas, que requer o real e maior esforço, não é a idealização, o planejamento e a execução, mas, sim, o desistir, o ficar quieto, o abandonar-se, o render-se, o entregar-se; é confiar inteiramente na Graça, pois realizar Isso somente é possível pela própria Graça. É aqui que a presença do Mestre se faz necessária e é algo insubstituível, porque, por sua Graça, somente Ele faz você aquietar-se, diante do olhar dessa Presença. O Guru, Deus, Consciência, sempre, sempre e sempre será necessário e você não pode substituí-lo por uma ideologia, por uma crença, ou pela recusa de olhar esta verdade: você não pode realizar Isso no intelecto, por mais habilidoso, eficiente, bem treinado e culto que ele seja, ou por mais formação que ele tenha, ou quão grande seja a habilidade adquirida ao longe dos anos. A Realização não faz parte do intelecto, que é parte da mente e um ótimo instrumento para separar, multiplicar, dividir, somar, avaliar, comparar, julgar, ponderar, refletir, entender, justificar, explicar e assim por diante. Portanto, quando falamos daquilo que está além da mente, ao intelecto é possível somente imaginar a respeito, algo que pode fazer muito bem, o que vocês tem feito ao longo desses anos e, justamente por isso, não podem se aquietar e ficar quietos.

Somente uma ação desta Graça, desta Presença, que varre o intelecto e põe fim a este movimento de inquietude, pode trazer essa quietude. Você não pode fazer isso, pois esse esforço não é seu; é o esforço dessa Presença, desta Graça, acontecendo aí. Isso não é simples, ou quando falado a respeito fica simples, embora possa parecer difícil, mas, com um pouquinho de dedicação, você pode perceber o quanto isso é simples. Entretanto, o que quero dizer é que, embora seja simples, estamos diante de algo que não é fácil: estar nesse esforço, que não é um esforço pessoal. Isso é uma entrega que a mente, o intelecto e a pessoa não conhecem; que o suposto autor das ações não conhece. Então, só lhe resta o olhar desta Graça, desta Presença.

Dedique o seu coração a essa entrega, à busca do sagrado, e, de todo o seu coração, deixe essa chama arder e queimar, pois assim o Guru aparece, o Mestre aparece, a Graça aparece, e o Real esforço é possível. Somente quando esse esforço opera, trabalha e realiza o seu propósito, você, nessa quietude, pode chegar a esse ponto e, num belo dia, isso amadurece e torna-se o seu Estado Natural. Todavia, enquanto Isso não estiver estabelecido e não for aquilo que você é - seu estado real, seu estado natural -, é uma grande estupidez falar de não-esforço, excluindo a presença da Graça, do Mestre, de Deus.

Chegará o dia em que não haverá nenhum esforço, pois estar quieto não requer nenhum esforço. Na Bíblia há um versículo que diz "Ficai quieto e sabei que eu sou Deus", que está falando exatamente sobre isso. Compreender esse princípio intelectualmente não resolve, por tornar-se um sistema ideológico, filosófico, de crenças e um sistema espiritual, o que é algo bastante inútil. O que funciona somente é o poder dessa Presença, o poder dessa Graça, que é Consciência. Então, esse estar quieto, ou ficar quieto, é o único esforço. Essa entrega, de fato, não requer esforço, mas, mesmo assim, é o único esforço que se faz necessário.

Estamos falando desta Realização, não de uma crença. Vocês estão cheios de crenças e, provavelmente, já ouviram milhares de falas, leram dezenas de livros e frequentaram várias escolas iniciativas, místicas, esotéricas, espirituais, religiosas, filosóficas, e etc., etc. Sabem tudo, mas ainda estão nessa tagarelice mental. Não há espaço, não há silêncio e não há quietude; não há um real esforço, que é esse não-esforço; não há uma ação da Presença, da Graça, da Consciência, desse amor divino realizando a coisa.

O esforço que se faz necessário significa ir além do mundo; o mundo que você vê e experimenta; o mundo que você, como entidade separada dele, desfruta e no qual sofre, como "alguém" dentro dele. É preciso ir além desse mundo, indo além do sentido de "alguém" nessa experimentação.

PERGUNTA: Seria um esforço nosso, não um esforço para se realizar, mas sim um esforço para não atrapalhar?

MESTRE: É parte disso, mas não é só isso. Estar quieto não significa apenas não atrapalhar. Estar quieto significa se permitir; jamais resistir, lutar ou se defender; jamais fazer, tentar fazer, acreditar poder fazer ou imaginar ser capaz de fazer qualquer coisa. Isso é um real esforço, porque é contrário a tudo o que vocês têm vivido até hoje. É relaxar em seu Ser, não dar asas a nenhuma imaginação; não confiar absolutamente em nenhum pensamento, em nenhuma sensação, em nenhum sentimento, em nenhuma emoção e em nenhuma crença, conclusão, imaginação ou ideologia.

Estar quieto é se permitir esse espaço, esse silêncio, esse vazio. Então, o muro, a muralha, o obstáculo, que é o sentido de controle, cai. Assim, a pessoa, ou alguém, cai, e esse "alguém", esse "mim", esse "eu", não está mais aí. Vocês aprenderam a estar no controle por muito tempo, porém isso não requer nenhum esforço; aprenderam, há muito tempo, a assumir responsabilidades, a se sentirem responsáveis por si mesmos, pelos outros, pelo mundo, e isso não requer nenhum esforço. Toda disciplina, toda prática, toda virtude que adquiriram, ou querem adquirir, é para continuarem essa coisa que não requer nenhum esforço.

Viver assim é algo que todos vocês, todos nós fomos treinados a vida toda, inclusive por livros, que nos ensinam as práticas espirituais, religiosas, filosóficas. O que requer seu esforço Real é desistir disso, parar com tudo isso, abrir mão de tudo isso. Um real esforço é não confiar nesse si mesmo, nesse mim, nesse sentido de alguém. 

PERGUNTA: Quietude parece sinônimo de que há um problema! No senso comum, eu me refiro.

MESTRE: Só há um problema, porque você está treinado a estar no controle. É natural ter a virtude do chamado esforço, que é essa coisa de ser ativo, tentar controlar, de tentar realizar e de tentar fazer, mas na verdade não requer esforço algum. Quando você começa a se aproximar dessa verdade, da verdade sobre si mesmo, nessa quietude, isso requer a presença da Graça, de Deus, do Guru, do Mestre, da Consciência, daquilo que está dentro e que agora se apresenta como a mesma Consciência na forma do Mestre. Quando você faz isso, esse real estar quieto, esse real esforço, você sai do senso comum. 

Todos vão olhá-lo como se houvesse um problema. Você é o problema, apenas porque está quieto; não tem mais a disposição de controlar, manipular, opinar, decidir, escolher, resolver ou julgar, e assim por diante; é um intelecto inativo. Para esses fins, você sai do senso comum e, agora, realmente é um idiota, um imbecil, um lunático, um alienado, um estranho. Observem o que eu estou falando, se é isso ou não é isso. O real esforço, de nenhum esforço, é visto dessa forma. Aí, não há mais interesse em discutir, dar opiniões, em brigar com os outros, em impor crenças aos outros, em se ocupar com a vida deles, em tentar moldá-los, mudá-los, transformá-los, ensiná-los, orientá-los e ajudá-los. Você abandonou o ilusório fazer e está no real esforço, porque abandonou o ilusório esforço, que não era esforço, mas somente um hábito, o movimento comum, o movimento desse "mim", desse "eu", do ego, dessa pessoa.

PERGUNTA: A gente, que está aqui a mais tempo, costuma fazer uma divisão didática de que existe uma real natureza e de que existe a mente. E, quando está falando com a gente, você não está falando para a mente, está falando para nossa real natureza. Então, você manda um paradoxo destes, “um esforço que não necessita de esforço” e a gente acredita que já está resolvendo esse paradoxo, porque, se existe a real natureza e a mente, a real natureza não se esforça e a mente se esforça. Como a gente “resolve” o paradoxo, parece que está enfraquecendo a sua fala e está perdendo novamente o ponto, pois parece que o intelecto está entrando aí para, mais uma vez, se apropriar e criar um entendimento. Então, eu gostaria que você comentasse isso: essa divisão que você está fazendo de real natureza e de mente, quando não tem mais paradoxo na sua fala, porque uma coisa é para um e outra coisa é para mente, por exemplo.

MESTRE: Aqui tem uma coisa que escapa, realmente, quando a gente coloca essas falas. Quando usamos a expressão paradoxo, não é nenhum paradoxo, pois é só o modo como a mente se aproxima disso. Se você tiver uma aproximação mental dessas falas em Satsang, você vai estar sempre diante de um paradoxo, de algo difícil de ser visto. Então, a melhor forma de ouvir essas falas é permitir-se ouvir, apenas ouvir. Há algo que não ficou claro, ainda, para vocês em Satsang: não há alguém falando e alguém ouvindo; há somente o ouvir, sempre. Se isso ficar claro, que só o ouvir importa, a questão que se torna paradoxal perde inteiramente a importância, bem como a resposta a este paradoxo. Quando tem alguém ouvindo, como quando tem alguém falando, vamos sempre nos deparar com essa coisa do paradoxo, porque alguém que nos escuta vai nos ouvir com um fundo de interpretação, de avaliação, de entendimento. Então, se houver apenas o ouvir, que é o propósito do Satsang, a fala que se dirige a esse espaço, a essa Consciência, a essa Presença, cumpre o trabalho dela.

Então, não se preocupem com nada, com essa questão do entendimento, pois somente assim vocês irão deixar de ver o paradoxo. Embora seja possível que, no que é manifestado verbalmente, isso seja percebido, internamente isso não terá mais nenhuma importância; esse é o sinal de que está presente apenas o ouvir, o ouvir direto. Quando há o ouvir direto, nesse ouvir direto não há nada paradoxal. A palavra é paradoxal, a palavra é dual; isso é a natureza da palavra, mas não é a natureza da Consciência, não é a natureza do ouvir. No ouvir direto, sem a separação que o intelecto faz, não há paradoxo. Está claro isso aí? Não há nenhum problema na palavra, na dualidade da palavra, no paradoxo da resposta por meio da palavra, quando há o verdadeiro ouvir.

Vamos ficar por aqui. Namastê. 


Fala transcrita e revisada tendo como fonte um encontro via Patalk Senses no dia 14/01/15
Encontros todas as segundas, quartas e sextas às 22h - Participem!

Um comentário:

  1. "E o que significa a Quietude? Significa “Destrua-se” (...)" [Livro: Ramana Maharshi Ensinamentos Espirituais, p. 89]

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