domingo, 21 de dezembro de 2014

Você é o que é sempre, e isso é imutável!



Você não pode ser ensinado sobre isso. Não há nada a ser acrescentado. Isso é como tentar ensinar uma mangueira a produzir mangas. Ela não pode ser ensinada, não precisa ser ensinada. Ela não pode produzir outra coisa - é algo inerente a ela produzir mangas, e não abacaxis. Os abacaxis nascem rentes ao chão, e as mangas aparecem no alto, é a ordem natural das coisas. 

Nós podemos é descobrir o que significa não interferir, não boicotar isso, não atrasar isso, não criar confusão nisso. Toda nossa ação, esforço e procura nessa direção só cria distúrbio, só interfere. Aqui, nós podemos ganhar tempo. E ganhar tempo, aqui, significa aparentemente adiar a coisa, o inevitável. 

Porque você não pode evitar que a mangueira produza mangas, porque isso é sua natureza. Mas nós procuramos escolas, procuramos ensinos, procuramos meios, expedientes para que isso aconteça no nosso tempo. E o "nosso tempo" é a interferência e postergação de todo o processo. Na ilusão de que nós estamos presentes fazendo alguma coisa, produzindo alguma coisa, que estamos no controle de alguma coisa - alguma coisa exatamente como essa, que ultrapassa qualquer perspectiva, qualquer programa de ordem pessoal. 

É como a historia do monge diante do mestre Zen. Ele disse ao mestre: "Mestre, acabei de entrar no mosteiro, estou aqui para ser ensinado. Por favor, me mostre o que é o Zen." À isso o mestre disse: 

- Você já tomou o seu mingau de arroz?

Ele, sem entender que relação tinha esta fala do mestre com o que ele tinha perguntado disse: "Sim, mas e daí?". À isso o Mestre respondeu:

- Então, vá rápido, agora, nesse instante, lavar as tigelas.

Nós queremos uma amostragem que possa ser aplicada logo depois de ser aprendida, de ser intelectualizada, de ser assimilada, memorizada, claramente escutada, intelectualmente, perfeitamente aceita. Algo que possa ser aplicado depois. Como se houvesse o depois! O depois é o tempo, o depois é o adiamento, é essa ideia de aprender para agir, descobrir para Ser. Sempre o fator tempo envolvido nesta simples e direta constatação, de que não há espaço - nem tempo! - nesta realização do que É... Que está agora, aqui neste instante.

Por isso, a coisa não é ensinável, nem é praticável, porque não está separada desse instante. Nada se separa do que é. O Que É contém tudo, o que é contém Ser. Não é ser para fazer, não é ser para ter, não é ser para realizar... Ser contém tudo, não há separação. Não há tempo e espaço, não há evolução aí, não há nenhum processo aí, por que não há alguém aí! Não há alguma coisa fora Disso. 

Lavar as tigelas, tomar o mingau de arroz. Isso é o zen. Não há distância entre isto e aquilo, entre o “eu” e o “não eu”, entre o que está dentro e o que está fora. Percebam isso, é só o constatar desse instante como ele se desdobra, exteriormente, internamente, sem mesmo a noção de externo e interno. Um só movimento presente nesta Presença que não muda. Nada pode ser acrescentada a Ela, ou tirada dEla. Nenhum nome pra isso, nenhuma nome pra aquilo, absolutamente! Nada tem nome, nada tem uma forma que seja especificamente, singularmente, separada de tudo à sua volta.

Se você fecha os olhos, o mundo visual desaparece. Se você abre os olhos, o mundo visual aparece. Mas quem separa e distingue formas desse mundo visual é só a ideia. Se não houver a ideia, vai haver só a visão, que não separa, que não distingue, que não vê diferença. Reparem o que estou dizendo para vocês agora, reparem isso: essa distinção de cor e forma, essa noção de aparências. Só o intelecto distingue isso, essa percepção visual é Única, é uma só. Ela não faz diferença. Diferenças entre árvores, seres humanos e animais - ela não faz diferença entre o sexo, entre cor de pele. É só uma percepção visual Una, Única. Acompanham isso? Que é só o intelecto que diz a você: árvore, pedra, cachorro, homem, mulher, criança, branco, preto, azul, vermelho? A percepção visual é Una, não há divisão. Quando você escuta os sons chegando, você só tem os sons chegando, não há distinção entre o que é música e o que é fala, ou o canto de um pássaro - é só um som. A distinção está toda nesse censor intelectual, nesse censor que compara, avalia, classifica, qualifica. Acompanham isso? Que não há distinção de sons? Que não há distinção alguma? De visão? Da mesma forma não há distinção nenhuma de sentir. É sempre o intelecto, com esse censor em nós, que diz: isso é bom, isso é ruim, gosto disso que estou sentindo, não gosto disso que estou sentido. Mas a pergunta que fica é: aonde isso está acontecendo? Há uma distinção? Aonde isso está acontecendo há uma separação? 

Então, a separação é algo que surge posterior e a isso, a esse sentir, a esse ouvir, a esse ver. Estamos dizendo que você, em sua natureza real, não precisa aprender a ser! Você é o que é sempre, e isso é imutável. E para Isso que você é não há diferença entre positivo e negativo, entre o bom e ruim, entre árvores e seres humanos. Nesta não-separação de sua real identidade, nesta não-divisão, sem este sentido de algo dentro e algo fora, não há conflito. Perceberam? Não há dualidade, não há “eu” e “não eu”, não há ser e não ser, ok?

Há só o que é! E você é o que é. Porque você não está separado disso que se apresenta. Então, não há nada para alcançar, porque não há nada que tenha sido perdido. Você não tem que integrar nada, porque você não existe separado de tudo isso que aparece e desaparece. 

Aparece a você, de olhos abertos, o mundo visual - sem nomes, sem cores, sem formas, uma só realidade presente. Você fecha os olhos, o mundo visual desaparece. Mas desaparece e aparece nesta Presença que vê tudo, nesta unicidade, nesta não-separação. O fundamento disso é beatitude. O fundamento disso é Verdade, é não-conflito. Porque não há comparação, não há julgamento, não há certo, errado, isso, aquilo, eu, não-eu. Não há iluminado e não há não-iluminado, não há verdadeiro, não há falso. Nada. Apenas Isso. Aí o Mestre diz ao discípulo - o discípulo quer saber sobre a visão do zen ("Acabei de entrar no mosteiro, preciso aprender o Zen") - o Mestre diz:

- Você já tomou o mingau de arroz? 

- Sim 

- Então, de imediato, agora, neste instante, vá lavar as tigelas! 

Não há separação, não há divisão, não há nada separado dessa Presença, na qual tudo aparece e desaparece, como ela própria, fazendo aparecer, fazendo desaparecer. Ela é a matéria-prima, ela é a substância, e ela é a testemunha. Não se separa nunca.

Termina toda busca, toda procura, toda tentativa de ser algo. Porque isso seria adiar, isso seria escapar, ou procurar escapar - coisa impossível. Você não pode deixar de ser aquilo que você É! Pode apenas acreditar que pode vir a ser alguma coisa diferente, ter alguma coisa diferente, ganhar alguma coisa diferente... Ok, pessoal?


Fala transcrita a partir de um encontro Presencial no Rio de Janeiro em 2012

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