sábado, 21 de junho de 2014

Satsang: Descaracterizando o sentido de autoria.



Vocês sabem que essas falas, em Satsang, elas têm uma única proposta, que é o que nós poderíamos chamar agora, nesse instante, de descaracterização. Descaracterização de algo, daquilo que nós consideramos assim básico, para ser vivenciado. Isso acontece nessa descaracterização do sentido de autoria.

Nós temos uma sensação forte de sermos o autor, de estarmos no controle. Nós passamos a vida inteira sem questionar isso. Todo tipo de fala que ouvimos, dos livros que lemos, as conversas que tivemos, há todo modo de acontecer, socialmente falando, que tenta nos convencer, dia após dia, isso nos livros, nos diálogos, nos contatos e tal, que nós somos senhores responsáveis por nossas ações, naturalmente pelo nosso futuro, culpados pelo nosso passado, se ele não foi bom ou se ele não está sendo generoso conosco agora, nesse instante. A fala comum é, construa, realize, faça, vá lá e conquiste, você é alguém, você pode. São inúmeras as falas, as frases, todo tipo de colocação que temos assim, que ouvimos muitas colocações desse tipo, evolua, cresça, se espiritualize, realize suas virtudes, alcance virtudes, enfim, é uma grande quantidade de fala nessa direção.

Mas o que, que nós temos de fato? Temos agora uma caracterização, que precisa ser vista, ela é descaracterizada numa constatação acerca daquilo que somos, numa investigação direta. Satsang é essa proposta, dessa autoinvestigação, desse estado de meditação, que é o seu estado natural e de uma Entrega Real a essa Presença, que de fato nós somos. O que temos que nos perguntar é, "se estamos vivendo ou se a vida está acontecendo". A ideia é que nós estamos vivendo, não temos a mínima noção de que, a vida está somente acontecendo.

Quando você para e diz, “estou vivendo”, o que você chama, o que você quer dizer com isso quando diz, estou vivendo? O que você chama, o que você denomina, o que você quer dizer com esse, “eu” vivendo? Por exemplo, o corpo está respirando, mas isso, isso é alguma coisa que você está fazendo? O corpo está respirando, você está fazendo isso? Você acabou de almoçar, a digestão está acontecendo ou não? Ou é você que está fazendo? Quando você deita para dormir, é o sono que te pega ou é você que pega o sono? Quando a gente diz, peguei no sono, o que queremos dizer com isso, “peguei no sono”? É que você agarrou o sono? Pela manhã, quando você se encontra já acordado, saindo do sono, foi você  que saiu do sono ou o sono acabou?

Percebem? Aonde está você nisso? Aonde está você na respiração? Você é responsável pela respiração? É? Pela digestão? Pegar no sono? Sair do sono? Quando você movimenta o braço assim, você é responsável por isso? Basta uma decisão? Basta uma ideia, para determinar esse acontecimento? É assim? Me ajudem! Basta eu ter a ideia, vou me levantar e vou andar? É assim que funciona? Basta isso? Uma ideia faz isso acontecer? Ah claro que não!  Você está saudável, uma decisão sua, isso? Sim ou não? Não! Você esqueceu a chave, lá no seu trabalho e veio pra casa sem a chave, é verdade isso? Foi você que esqueceu a chave? Você teve essa decisão? Você decide? O que você decide? Aonde está você? Estou perguntando aonde está você nas ações simples, no dia a dia, não é nas ações especiais, digo, nas ações simples. Percebem que nós não estamos nem nas ações simples, como é que alguém diz, realizei, conquistei? Fulano conquistou a fortuna, ficou milionário, isso é verdade? Você pode decidir se tornar milionário? E essa decisão que é só um desejo, necessariamente se cumpre, por que há uma decisão? Será que a gente não percebe, que há muitos fatores envolvidos, para uma simples ação acontecer? Essa ação simples, como levantar o braço, movimentar o braço, ou se levantar, caminhar, ou qualquer uma outra. Nessa simples ação, há tanta coisa envolvida nela, como é que você pode localizar um elementozinho chamado “eu”, dentro disso? 

Não há o “eu”! Percebem? Qual é o próximo pensamento que você vai ter? Você pode determinar isso? Ou também só acontece, o pensamento? Não é assim? Então, onde está você? Cadê você na decisão? Uma decisão é sua? Ou é um pensamento, que chega, se aloja, e bate, bate, bate, bate, fica batendo. Percebem o que queremos dizer?

Quando você tem claro isso, essa descaracterização, essa coisa que foi colocada aí, como uma ideia, porque é só uma ideia, a ideia de ser o autor, de estar no controle, de fazer as coisas. Quando há essa descaracterização, quando há o fim dessa ideia, isso, percebam como é simples, como alguém disse aqui, agora pela manhã, até intelectualmente dá para a gente perceber isso. Não dá? Até para perceber intelectualmente que você não existe? Seu corpo está aí respirando, o coração está batendo, a digestão acontecendo, a vontade de ir ao banheiro, assimilação, expressão, o sono, tudo, tudo, e você não está presente.

Isso nos aborrece a princípio, porque nos toma essa responsabilidade, só que exatamente, essa coisa de ficar sem responsabilidade por compreender que você não existe! É muito estúpido ficar aborrecido com isso, porque é libertador isso, isso tira um peso enorme sobre você. Não é verdade? Não é assim? Aí sim! Agora sim! Agora você tem coração para olhar a vida, sem a ideia de alguém fazendo ela acontecer. É quando você para de dizer “minha vida”, é quando você para de culpar outros, pela vida deles, porque tudo acontece, simplesmente porque acontece. E só há um autor, o único responsável, que não é você. Então, isso tira de você um peso enorme.

Ramana dizia; você entra no trem, e esquecendo que é o trem que carrega você e sua bagagem, você continua com ela sobre os ombros, tire sua bagagem e coloque no bagageiro, se lembre, é o trem que te leva, leva você e a sua bagagem. É quando você tem essa oportunidade de descansar, de olhar a vida acontecendo, é quando você tem a oportunidade de celebrar a vida, de ter só a gratidão, de se curvar diante da existência.

Isso não requer que você seja humilde, isso requer que você reconheça que a Verdade é simples. E esse reconhecimento em si, é uma ação desta mesma Presença Divina. Então, você começa a trabalhar isso de deixar nas mãos certas o trabalho certo. Você é dentista, o outro é mecânico. O mecânico se entrega ao dentista, para o dentista cuidar dos dentes dele. Você que é dentista, se entrega ao mecânico, ou entrega seu carro a ele, para que ele cuide do seu carro, você está nas mãos certas. Porque se um tentar fazer o trabalho do outro, como é impossível isso acontecer, não pode sair certo nada. Assim, somos nós nessa ideia de carregarmos a vida, você não pode carregar a vida, porque se você carrega a vida, o que você está fazendo? Quem está fazendo, o quê? Onde está você nisso? Qual é o resultado disso?
Uma identificação com uma história. Uma história do sentido de alguém. Nós estamos presos a essa caracterização, que é só uma caracterização. É a ideia de um personagem, e é assim que se chamam os personagens, foram caracterizadas, eles são só personagens, eles têm uma roupa, um estilo, um modelo de ação, de atuação de um personagem, e isso não é real, isso não é real, é esse modelo de ação, que eu chamo de minha vida. 

Agora olhe para essa assim chamada minha vida, a vida continua acontecendo, mas a ideia de uma minha vida, dentro da vida, é a ideia da separação, é a ideia do controle, é a ideia da manipulação, é a ideia de um autor. O resultado disso, é stress, ansiedade, culpa, medo, remorsos, todos esses nomes que temos dado a esses estados mentais, nesta identificação com um sentido de um autor, senhor, controlador e responsável. Não é?

Mas se você descansa como os sábios do zen, dizem, no zen, ali, aquele que está acordado, diz: quando tiver sede, beba água, quando tiver sono, durma, quando sentir frio, se abrigue, quando sentir calor, tire o casaco. Então, quando você apenas respeita isso, de forma direta, fica apenas com isso, a vida se mostra, de uma forma muito generosa, porque não há nenhum sentido mais de separação dentro da vida, classificando, nomeando, separando, dividindo, ajustando ou tentando ajustar alguma coisa.

Tudo o que pode ser feito, já está sendo feito, e tudo o que está para acontecer, vai acontecer. Não há nada, que uma ideia que você tenha aí possa fazer algo para mudar isso, não há nada. Esse mecanismo aí, esse organismo, esse corpo, ele aparece no espelho toda manhã que você dá banho, dá comida, dá cama para dormir. Esse corpo tem uma programação, que vai obedecer de forma precisa essa programação, é algo preciso, preciso, descaracterização, clara, sendo vista, lhe coloca completamente livre, de qualquer responsabilidade de autoria.

Sua única liberdade aqui, é a liberdade de ver que a Vida é o que é. Vocês compreendem isso? O que é, estar livre do sentido do mim, do eu, da pessoa, do ego, como queremos chamar isso, é simplesmente ver um fato, diante de si próprio ali, diante dos olhos, você está diante de um fato, de algo que não dá para negar. Pensamentos vem e vão, a programação do corpo já está aí, a vida acontecendo, e você simplesmente descansando em seu coração, em sua Real Natureza.

Nesse viver revela Paz, Silêncio, Liberdade. Você consegue agora, aqui, diante disso, ter a essência mesma de toda a coisa. Você consegue mesmo estar diante de uma única Realidade, que se mantém como a base de tudo, então, não há separação. É uma completa desidentificação com a história do corpo, com a sua programação, é uma completa desidentificação com qualquer historinha mental, toda ela baseada numa memória ligada a esse organismo. E aí está a Liberdade, e aí está a Paz, o Silêncio, a Verdade, o Amor Divino.

O Amor Divino é o único autor de tudo. Eu estou dizendo é que, atrás de cada experiência, também anterior a cada experiência, e dentro de cada experiência, e quando eu digo, cada experiência eu digo todas experiência, nessa Única Verdade, tudo o que temos é esta Presença Divina Amorosa, que faz tudo. Quando eu uso a palavra aqui amorosa, é claro que aqui não entra no sentido sentimentalista, no sentido do assim chamado amor que conhecemos, amor mesclado de satisfação, de prazer, de desejos, de conceitos sobre o que é, e o que não é, sobre o certo, sobre o errado. Porque a palavra amor ou amorosa, está no sentido completamente novo, no sentido de que tudo é esta Vontade Divina, completa, perfeita. É isso que nós podemos chamar de descaracterização da ilusão, podemos chamar isso de descaracterizar aquilo que assumiu esse caráter de verdade, que no fundo é uma ilusão sendo mostrado, sendo visto e sendo desmascarado. É basicamente isto.

Você está aqui hoje, nessa tarde, nesse instante, nesse momento, mais do que para ouvir, você está aqui, para se certificar disso, de que só há essa Presença que faz Tudo. E isso é libertador. Se reconhecer, é reconhecer a própria liberdade. Tão simples, tão simples, nenhum lugar aí, nenhum lugar aí, do lado de fora, nenhum trabalho a fazer aí do lado de fora, nada para encontrar aí do lado de fora, nenhum autor aí do lado de fora. Você é essa realidade, no qual tudo acontece.

Então a sua a vida, que é essa única vida, agora está acontecendo, com profunda gratidão. Porque você sabe, você sente, isso é claro, a você aí, em sua Real Natureza, que tudo está no seu lugar. Então não há mais conflito, não há mais medo, não há mais qualquer ideia, acerca do que deveria ser, do que poderia ter sido. É isso aí! 

É isso aí!

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