sábado, 8 de março de 2014

A real meditação: Um mergulho permanente no ser


Que bom estarmos nesse momento nesse encontro, um encontro com a verdade, a verdade sobre nós mesmos!

Estamos apontando sempre para uma única direção e essa direção é aquela que nos mostra essa realidade da Unidade, da Unicidade ou não-dualidade como quiserem chamar isso. Em outras palavras, desta liberdade, que é a liberdade do Ser, que é a liberdade de nossa essencial natureza, que é a liberdade da Consciência.

Eu queria tocar um pouco a respeito dessa Consciência... Alguma coisa que alguém escreve e fica assim um tanto confuso e essa confusão, exatamente nascida desse modo tradicional, rotineiro, comum de pensar, nos coloca naquela posição aonde aquele sentido mais profundo do que foi dito ali, naquilo que está escrito, fica perdido. Nós queremos fazer algumas colocações a respeito da Consciência, esperando que cada um de vocês que nos escutam nesse instante, nos acompanhe, mas, procurando nos acompanhar de um modo diferente de como geralmente nós lemos alguma coisa, porque, as vezes, lemos algo, assim como ouvimos alguém dizendo alguma coisa, e o mais comum é fazermos isso procurando ajustar aquilo que escutamos, ou ajustar aquilo que lemos a esse fundo que nós temos, a este fundo que nós já trazemos... E eu sei que não é nada simples descobrirmos como ouvir sem este fundo, como perceber sem esse fundo, como aprender o significado daquilo sem esse fundo, e é isso que nós estamos propondo a vocês aqui presentes.

Dentro deste tipo de encontro, nós descartamos toda essa visão baseada em conceitos, em idéias, em opiniões, e nós procuramos, — e eu digo todos nós presentes —, aquele que faz uso da fala, da palavra, como vocês que nos escutam. Nós descartamos tudo isso e fazemos uso desse estado de Pura Presença que é o nosso estado real, para entrarmos nesta nova dimensão, que é a dimensão da compreensão em si.

É maravilhoso sabermos que nessa dimensão, todo sentido de separação desaparece, todo sentido de divisão desaparece, de confusão desaparece, porque temos um elemento novo que nos torna capazes de compreender diretamente quilo que está sendo colocado em palavras; porque conseguimos, na verdade, ir além delas, ir além dessa limitação delas. Fazendo uso assim desse estado de presença estamos diante da pura inteligência, da pura percepção, da pura compreensão, desta tremenda e extraordinária habilidade. E isso é um modo de ver, de perceber dentro de uma extraordinária velocidade, algo que o intelecto, que a mente, não consegue.

E nós vamos falar, e queremos falar com vocês sobre essa questão da Consciência e, com esse tipo de atitude, vamos nos aproximar desse ponto, desse tema, desse assunto que vamos tratar aqui. Eu queria perguntar a vocês, o que é que nós entendemos por Consciência?... Nós podemos ter várias interpretações a respeito dessa palavra. Nós podemos dar vários significados a essa palavra e, mesmo assim, podemos estar perdendo, em que sentido nós estaremos colocando isso aqui. Então seria aconselhável a gente olhar exatamente dessa forma como estamos falando, como estamos colocando. Quando eu pergunto a vocês, "o que é Consciência?", aqui nós estamos perguntando o que significa tudo isso.

Eu queria fazer algumas observações e queria que vocês nos acompanhassem. Tudo aquilo que é percebido pelos sentidos físicos, pelo tato, pela visão, pela audição, pelo paladar, pelo olfato, tudo aquilo que é percebido pelo corpo, é percebido e transmitido ao corpo do mundo externo, traduzido dentro do próprio cérebro como uma percepção. Agora, notem: isto é percebido dentro da própria Consciência. Na realidade, isto é parte da Consciência. Então, o corpo, com tudo aquilo que ele recebe do mundo externo, é algo que está dentro da própria Consciência; é a Consciência que apreende isso, compreendem isso.

É interessante nós falarmos isso, porque, se nós compreendermos que, o mundo externo, ele é percebido dentro da Consciência, nós temos uma base, uma base para a compreensão daquilo que os sábios chamam de Unidade, Unicidade ou Não-dualidade. Exatamente porque, aquilo que temos como mundo externo, na verdade, está dentro da Consciência, é parte mesmo desta Consciência, desta única Consciência. Então, os objetos que vemos a nossa volta, eles estão como que estendidos na dimensão do espaço, mas o espaço está dentro da Consciência. A distância entre esses objetos — que também compreende tempo, esse tempo que nós conseguimos marcar no relógio — também é algo que acontece, naturalmente, dentro da Consciência. Então, a noção de tempo e a noção de espaço, é algo dentro da Consciência.

Não há nada que seja percebido, fora da consciência, é algo dentro da Consciência. Não há nada que seja percebido fora da Consciência. Assim sendo, tudo está dentro da Consciência. O pensamento, de forma tradicional, dentro de cada um de nós, de forma comum dentro de cada um de nós, tem construído suas teorias a respeito de tudo isso. Uma teoria, é essa teoria de que a Consciência dentro do corpo percebe o mundo. Nós estamos exatamente mostrando que isso não é verdade; na realidade, o mundo assim como o corpo, aparecem dentro da Consciência. Tudo está na Consciência. Tudo está dentro da Consciência... Os objetos estendidos no espaço... A separação desses objetos, nós chamamos de espaço. O tempo, que é distância, tempo entre esses objetos no espaço. O corpo, tudo é parte, ou tudo está dentro desta única Consciência. Isso nos coloca num ponto muito direto, nesse ponto de contato, nesse ponto de Não-dual, nesse ponto que não tem um centro específico, porque, tudo, está dentro desse ponto. E o próprio chamado "tempo e espaço", não tem nenhuma realidade fora desse único ponto.

Aqui nós chegamos a uma posição interessante: tempo e espaço... E o que acontece nesse tempo e espaço, está dentro da Consciência. Assim, a Consciência é a única realidade, é a única verdade, e esta Consciência é aquilo que os sábios chamam de Verdade, de Ser, —Consciência. estamos em um único ponto, vendo um único ponto...

Assim, esse mergulho dentro de nós mesmos — nós não estamos falando de introspecção — porque, a introspecção, é o próprio movimento do pensamento em direção a um ponto criado pelo próprio pensamento: a ideia de um centro, dentro do corpo... É assim que geralmente nós pensamos. Pensamos que existe um centro dentro do corpo e esse centro é a "alma", é o que nós chamamos de "espírito", é o que nós chamamos de "eu". E, nós estamos dizendo, que a Consciência é aquela que trás, ou que manifesta, todas as coisas, incluindo o próprio corpo, e a Consciência é o único ponto, é o único centro, mas é um centro diferente porque é um centro sem circunferência, é um centro sem periferia, é um centro onde tudo está presente, onde tudo acontece e onde tudo não acontece, onde tudo aparece e onde tudo desaparece; estamos falando daquilo que não nasce, daquilo que não morre, daquilo que nunca veio, daquilo que nunca partiu. E esse mergulho é feito nesta observação, a partir deste ponto de tudo aquilo que surge dentro dele. É isso exatamente que a meditação significa.

A observação, ou testemunhar de todo esse movimento interno que é o movimento interno, que é o movimento na Consciência, agora fica fácil nós entendermos o que queremos dizer aqui com movimento interno. Interno porque tudo está dentro da Consciência. O mundo é percebido na Consciência. os pensamentos são percebidos na Consciência. os sentimentos são percebidos na Consciência. Aquilo que chamamos de "emoção", é percebido na Consciência. Vamos tocar nessa questão da emoção...

A emoção é essa reação que o corpo expressa em razão de um pensamento. O pensamento, no corpo, produz uma reação, e essa reação do pensamento, no corpo, é o que nós chamamos de emoção. Nós queremos, nesse momento, que cada um de vocês presentes acompanhasse isso. Vamos ver se descobrimos, nesse encontro, nessa noite, essa importância, que é a importância da meditação. A meditação é exatamente esta observação, este testemunhar de todo esse movimento interno na Consciência. Quando de olhos abertos, olhamos para um objeto, ou para vários objetos, quando esse olhar não cria dentro do cérebro de cada um de nós através do pensamento, qualquer imagem, qualquer ideia, qualquer conceito a respeito daquilo que estamos vendo no mundo externo, nós estamos diante do estado de presença, nós estamos diante do estado de Consciência, percebendo todo esse movimento interno... Isto é meditação: um olhar sem tradução, um olhar sem imagens, um olhar sem conceitos, um simples e direto olhar para o mundo externo, para um ou para vários objetos, seja algo animado ou inanimado; podemos olhar assim para um sofá dentro de nossa casa, uma cadeira... Podemos olhar assim para uma casa e podemos olhar assim para uma pessoa, podemos olhar assim para esposa, para o marido, para o patrão, para os filhos, para aquele nosso vizinho...

Se pudermos olhar sem esta estrutura antiga, que é essa estrutura de conceitos, essa estrutura de ideias, essa estrutura de imagens... Nos coloca isso em direto contato com aquilo que presenciamos, com aquilo que estamos ali olhando. É isso que chamamos aqui de "testemunhar", de "observar"... Observar sem nenhuma ideia a respeito, sem nenhuma escolha, sem nenhuma diretriz mental... isso é meditação. Nós podemos fazer isso de olhos abertos, caminhando pela rua, conversando com alguém, sem nenhuma imagem, sem nenhuma ideia... Estarmos diante do simples fato, da simples realidade da fala, da palavra, daquilo que ouvimos de alguém, e daquilo que falamos a partir de uma resposta que estejamos dando, ou de uma colocação que estejamos fazendo. É o que nós estamos exatamente fazendo aqui nesse encontro.

Não estamos tratando de conceitos, de ideias, de opiniões; estamos fazendo aqui uma colocação e que ao mesmo tempo que fazemos esta colocação nós estamos observando o que está sendo colocado. Uma observação sem escolha, uma observação direta. Daí nasce a fala, nesse exemplo aqui. Mas nesse modo, nessa maneira, nessa forma de operarmos em nossas relações, tudo nasce, neste presente, neste instante, neste momento exato, e isso é parte da meditação, isso é algo dentro desse estado de meditação, isso é algo dentro desse estado do testemunhar. Então, nós podemos fazer isso lidando com o mundo externo e, como acabamos de colocar, nós não precisamos estar sentados, de olhos fechados, com uma música tocando, em um ambiente com uma luz especial preparada para isso, absolutamente nada disso.

Cada momento é um momento único. Cada instante é uma oportunidade deste encontro com a nossa real natureza, que é a natureza do Ser, através da meditação. Então nós fazemos isso, caminhando, trabalhando, comendo, escrevendo, falando... Não importa que postura física o corpo tem, em que atividade este corpo esteja envolvido. Esse estado de consciência é aquele que está dentro deste presente momento, nesta atenção, nesta plena atenção, uma atenção dada a si mesmo. Antes, estávamos perdidos no ambiente externo, mergulhados nesse ambiente externo. Ao ver alguma coisa, mergulhávamos naquilo; éramos seduzidos pelo pensamento a entrar num estado de devaneio. Éramos seduzidos pelo pensamento para entrar num estado de interpretação, de tradução daquilo e, agora, estamos neste ponto, exatamente neste ponto que é o ponto da Consciência, o ponto do testemunhar.

Então nós fazemos isso lidando com o mundo externo e fazemos isso também lidando com o mundo interno. Nesse mesmo testemunhar para cada pensamento, para cada sentimento, para cada reação no corpo, que chamamos de emoção, esse próprio testemunhar do corpo como algo dentro desta Ilimitada Presença, desta Ilimitada Consciência que somos. Espero que esteja ficando claro o que entendemos por meditação.

Se nós não temos esta base real para a meditação, nós podemos criar todo tipo de fuga existencial e chamarmos isso de meditação. O que estamos colocando é algo muito simples, muito simples. Estamos fazendo uso de muitas palavras, mas se estamos acompanhando, se podemos acompanhar tudo isso, nesse estado de silêncio, exatamente nesse estado sem escolha, nesse estado de não interpretação, isso está ficando muito claro para cada um de nós. Todo problema que temos é que nossa educação não nos ajudou nesse sentido. Nós somos muito capazes — na realidade nós não temos capacidade nenhuma — a nível do intelecto para acompanhar isso.

Um elemento novo está presente nesse encontro, esse encontro com o Ser, que é esse encontro nesse espaço aqui, que nos dá, ou nos traz essa capacidade. Ela é algo inerente, inato ao Ser, inato a esse próprio estado do qual estamos falando, que é o estado da Consciência. Mas é algo que o intelecto como fragmento não consegue perceber. Assim sendo, vamos continuar por mais alguns minutos colocando, vamos nos manter nessa disposição para acompanharmos isso. Aquilo que foi colocado e que está sendo colocado aqui, sobre a meditação, é a base, a base dessa verdade, é a base desse estado Real do Ser, esse estado não dual, de não dualidade. Isso é algo maravilhoso, isso é algo simples, ou "extraordinário".

Nós sabemos que a verdade que somos, a verdade que trazemos, a verdade inata, em nós, é a verdade não dual, é a verdade onde tempo, que acontece na consciência e espaço, que acontece na consciência e tudo aquilo relativo a tempo e espaço, fazem parte da Consciência e esta Consciência é a única realidade, é a realidade única sem um segundo, sem um terceiro, sem um quarto. Esta realidade não dual, esta realidade do Ser. Aqui chegamos a um ponto dentro da fala, bem interessante, a compreensão da ilusão da separatividade, da ideia de um "eu", de um falso centro. Aqui chegamos a um ponto interessante da fala, a queda completa desse véu de ilusão, o conceito de um pensador dentro desse corpo; a queda de um véu do conceito de uma autoimagem que carrega uma história ligada a essa forma física e que identifica essa história como sendo a história de uma identidade real, de uma personagem.

Estamos diante desta libertação, deste sentido separatista de um "eu", estamos diante da libertação do famoso "ego", da famosa "individualidade", da famosa "pessoa", da ideia de tudo isso. Porque é exatamente isso: apenas uma ideia. Ao longo de todos esses anos essa ideia foi formada; ela começou por volta de dois anos de idade, ou menos, a ideia de um eu ganhando coisas e sendo proprietária das coisas. Aquilo que começou com a chupeta, se multiplicou. No lugar da chupeta, temos os bens móveis e imóveis, muitos bens em torno desse centro que chamamos de "eu", "mim", e usamos expressões como "meu", "minha", "para mim". Essas são expressões que se usadas apenas como sentido simples da fala, está tudo bem! O pronome pessoal eu, o pronome possessivo meu... O problema surge quando a ideia de um "eu" passa a ser um conceito real, se é que existe um conceito real. O próprio pensamento cria isso tudo. O próprio pensamento criou tudo isso... Por isso que nós sempre falamos sobre a questão do pensamento, porque o pensamento é a base de tudo isso: a base desse sentido separatista, a base dessa noção de tempo e de espaço, a base dessa noção de objetos como realidades separadas, a base das imagens...

Façam uma pequena experiência exatamente agora enquanto nos escutam... Se você fechar seus olhos, você vai descobrir que todos os objetos que aparecem ao sentido da visão, todos aparecem dentro da Consciência, porque todos desaparecem quando você fecha os olhos. Onde está a realidade dos objetos quando o pensamento não está presente ali?

Se você fecha os olhos, você pode ter uma cadeira diante de você, você pode ter uma casa, um carro diante de você, mas o que é isso senão uma imagem acontecendo na Consciência? Assim é essa percepção do mundo: tudo é percebido na Consciência; então, a Consciência é a base, a Consciência é a realidade. Então, não existem objetos. Aquilo que está estendido no espaço como objetos, isso está dentro da Consciência. Então, o que temos por objetos, são pensamentos. O mundo, ele é completamente mental; ele aparece na Consciência, como imagens. No sono profundo não há mundo. No estado de desmaio não há mundo. Na meditação, também não há mundo. O que sempre temos presente nesses três assim chamados "estados" que sempre se mantém presentes na Consciência. Não é possível negarmos a presença da Consciência no sono profundo, assim como no estado de desmaio ou de meditação. Sempre a Consciência está presente. É a própria Consciência que nos fala da inexistência de qualquer coisa e da existência de qualquer coisa. Aqui nós estamos aprofundando nessa fala, tudo isso.

Foi bom cada um de vocês nos acompanharem com essa paciência. Se fizeram isso de uma forma perfeita, nesse instante estão diante do próprio estado além de todos os estados: é assim que chamamos a Consciência — exatamente porque tudo aparece e desaparece nela. Qualquer variação de maior ou menor intensidade desse estado de presença é algo na Consciência. Ela mesma em si própria, não conhece estados, não conhece alterações. O organismo sim, o corpo-mente sim, conhece alterações, conhece estados diferentes.

Viver este estado livre de todos os estados, compreender não verbalmente, não conceitualmente, não intelectualmente, mas compreender esse estado livre de todos os estados... Estar aí, aqui, agora... Esse estado de presença é algo completamente livre, suprema beatitude, suprema bem-aventurança, suprema felicidade. Estamos diante desta paz que ultrapassa toda a compreensão intelectual, toda compreensão humana.

Estamos no fundamento, na base, na fonte de toda vida, de toda manifestação, diante desta imensidade, desta perfeita, simples e extraordinária e Divina Presença, que é a Presença de Deus... Unicidade, aquilo que os sábios chamam de Ser, Consciência e beatitude, ou bem-aventurança, ou felicidade.

Esta é a fala deste encontro nesta noite. Obrigado pela presença, muito obrigado pela paciência de nos acompanharem. Boa noite. Namastê! 
*Fala transcrita a partir de um encontro em agosto de 2011
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