terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Livre arbítrio, determinismo,escolha, acaso.






Vamos começar com uma resposta a uma pergunta. A pergunta é: Quando não há mais um fazedor, um autor, como alguém que pedala uma bicicleta, ainda assim a bicicleta continua o movimento por inércia, por padrão, por programação da própria máquina?

Essa pergunta, vamos fazer uma observação em cima dela. Não há esse fazedor, não há esse autor. Esse fazedor, esse autor, nunca esteve presente, ele não é real. O que nós temos aparentemente por presente nessa crença, nessa imaginação, é a ideia de um fazedor, é a crença de um autor. A bicicleta está sendo pedalada, mas não tem alguém criando essa força sobre os pedais. E ainda assim a bicicleta continua.

Então, não se trata, como aqui na sua pergunta, de se a bicicleta vai continuar o seu movimento por inércia. A bicicleta já tem o seu próprio movimento, e esse movimento é só um movimento sem alguém nele, sem um movimentador. Esse movimento da bicicleta continua até que o mecanismo desapareça. Enquanto a bicicleta tiver rodas, pedais, guidom e tudo o mais, a coisa vai continuar. Já não tem um autor agora, já não tem um fazedor agora. Então, a primeira coisa a ser compreendida é essa.

A segunda coisa é: e quanto aos padrões? Já estou reformulando sua pergunta. São esses padrões que desaparecem junto com uma crença do sentido de identidade, junto com o sentido de um fazedor, de um realizador. Uma vez que a crença de um realizador, de um fazedor, de um autor não está mais presente, os padrões começam a desaparecer. Esses padrões é o desconforto dessa pseudo identidade, dessa ilusória identidade. Todo o sofrimento do ego, desse mim, desse eu, desse “realizador”, é esse padrão. É isso que desaparece.

Então, compreendam isso: no Despertar, na Realização, como você queira chamar, a ação não é de alguém, não há alguém nela. Você não existe. Existe você como crença, não há você como real. Esse mecanismo, esse corpo-mente tem uma programação. À parte dessa programação desse mecanismo há padrões de uma suposta identidade separada. Esses padrões são essas impressões nesse mecanismo, nesse corpo-mente, são esses padrões que desaparecem com o desaparecimento do ego, do eu. Porque esse ego, esse eu, não é nada além que padrões de uma suposta identidade se passando por você.

Deixando agora a metáfora da bicicleta, esse mecanismo é a bicicleta, e essa ação do movimento desse mecanismo é uma ação dessa Presença, dessa Consciência impessoal, não tem alguém aí. Agora podemos deixar essa metáfora e dizer que a única coisa que desaparece com o desaparecimento dessa suposta identidade são as programações dessa suposta identidade: ambição, inveja, ciúme, ansiedade, desejo, medo. A lista, você vai lá no dicionário Aurélio e dá uma procurada. E tudo o que você vê de ruim e de bom nesse assim chamado “ser humano” é essa suposta identidade presente numa suposta ação.

Porque mesmo essa suposta entidade, essa suposta ação, por mais negativa ou positiva, não há nada aí acontecendo de fato. Tudo é somente uma ação dessa Presença, dessa Consciência. Há um único poder que move tudo. A ilusão da suposta identidade separada, é isso que desaparece, e a ideia de um autor presente em qualquer ação. É quando o medo, a inveja, o ciúme, a preocupação, a ansiedade, o desejo, é quando isso desaparece nesse mecanismo, nesse organismo, nesse corpo-mente. Nesse sentido, o que temos aí é algo particular nesse mecanismo. O que chamamos de alguém acordado, alguém desperto, não tem alguém, há só o Despertar. Há só o estado de alerteza, de pura Consciência, de pura Presença naquele mecanismo, trabalhando de uma forma natural. É quando esse mecanismo está no seu Estado Natural.
Sua fala é natural, seu olhar é natural, seu sorrir é natural, seu comer, seu dormir. Há uma nova ordem para esse mecanismo. Esse mecanismo não está mais subjugado a essa opressão mental, a essa opressão da mente egoica, a essa opressão desse sentido de separatividade, a essa opressão dessa programação que é comum apenas a 7 bilhões no planeta. Não há mais medo. Se não há medo, não há ilusão. Se não há mais ilusão, não há mais sofrimento. Sem o medo, sem o sentido de separatividade. Isso significa completa ordem. Não a ordem que a mente conhece, mas exatamente a ordem da ausência da mente. Mente significa comparação, julgamento, avaliação, sobreposição, ajustamento, enquadramento, limitação. Ou seja, resultado ou busca de resultado. Limitação, medo. Limitação, conflito, medo. Limitação, conflito, sofrimento, medo. Ilusão é igual a limitação, conflito, sofrimento, medo.

P - Mas então se o "eu "  é uma ilusão, não há nem livre arbítrio nem determinismo, nem escolha e nem acaso?
M – Não tem nada disso não. Isso aí nasceu da necessidade da mente de explicar. Se a mente deixa de explicar, ela desaparece. Essa é a dificuldade que vocês têm em Satsang. Vocês querem capturar isso para depois terem a sensação de que já sabem, e isso é ego. Nesse momento você escuta uma fala a partir de um lugar que não sabe. Não sei exatamente o que estou falando, quem saberia? Que necessidade tem de alguém aqui e alguém aí? Alguém que sabe explicar e alguém que sabe compreender? O que acontece quando alguém que explica explica e alguém que entende entende? Ambos ficam na limitação do conhecimento. Essa limitação do conhecimento é um espaço circunscrito, é uma sala com quatro paredes. A mente pode apontar para esse espaço, para essa sala, e dizer “está ali”. Mas o que ela pode apontar está dentro da limitação dela.

A mente criou o conceito e a explicação do conceito. E encontrou além do conceito e da explicação uma prova do conceito. Então, ela criou a experimentação para comprovar sua experiência. Na mente, tudo isso existe: livre arbítrio, determinismo, acaso. Tudo isso na mente está presente. Tudo isso é verdadeiro na mente, ela pode provar a validade disso. Quando ela aponta para esse espaço de quatro paredes, esse espaço circunscrito, ela pode provar a validade disso, dentro dela. Isso é parte do conhecido. E aqui em Satsang estamos apontando para além da mente, além da limitação desse espaço. Para uma suposta identidade separada, livre arbítrio explica muita coisa, e determinismo também. Escolha também, acaso também, causa e efeito também.

Mas aonde podemos encontrar essa identidade fora da mente? Ela não está presente no que é, ela só está presente no que foi ou no que pode vir a ser. E o que foi e o que pode vir a ser pode ser explicado pelo determinismo ou pelo livre arbítrio, pela escolha, causa e efeito, acaso. Estamos apontando nesses encontros para a sua Real Natureza. Sua Real Natureza é algo no qual esse mecanismo aparece e depois desaparece. Esse mecanismo aparecendo e desaparecendo tem a importância de qualquer outra aparição para sua Real Natureza. Para sua Real Natureza esse mecanismo ou o mecanismo vizinho são só mecanismos.

Quando o sentido de uma identidade presente, que é uma ilusão, cai, a comparação cai, a inveja cai, a crença de ser especial cai, o sentido de autoimportância cai. É simplesmente maravilhoso isso, constatar a beleza disso, a beleza do fim desse sentido de identidade separada. Essa é a única Liberação. Na Liberação você não é livre, na Liberação não há esse você. Paradoxalmente, você é a Liberação. Mas esse você inclui todas as aparições, todas as desaparições também. Então, nada é importante ou sem importância, nada está no lugar ou fora do lugar. Não há nada real ou irreal. É aqui que você constata que a ilusão nunca existiu. Só parece que foi assim. Mas o tempo também não existiu, só parece que foi assim.

Aqui temos a natural dificuldade de colocarmos isso em palavras. Você pode realizar – aqui realizar é esse constatar – o que você é. Mas não há como falar sobre isso. Aquele que sabe, não tem o que dizer, então não fala. Aquele que fala, é porque tem muito o que dizer, então não sabe. Agora entra o paradoxo: saber aqui é o que eu chamo de Suprema Ignorância, é um saber sem o saber. Vocês têm uma forte preocupação em tentar capturar isso, e eu continuo afirmando para você: apenas fique na proximidade e a coisa acontece. Não há nada para ser conhecido, não há nada para se saber. Não é possível saber. Mais uma vez o paradoxo: não é possível deixar de saber. Aquilo que você é não deixa de ser, quer aconteça uma constatação disso aí ou não. Se não acontece a constatação, a ilusão do sentido de separatividade se mantém. Se acontece a constatação, é o que nós chamamos de Despertar.

Você é sábio, essa é a sua natureza, mas você não sabe disso. Não sabe disso neste momento. Antes desse “Despertar” você não sabe que é sábio, e depois desse “Despertar” você continua não sabendo que é sábio. Eu posso esclarecer isso: a sabedoria desse Estado Natural no Acordado não serve para ele, não é algo que tenha qualquer utilidade para ele. É algo medicinal. Há aqueles que se aproximam, tomam desse medicamento, recebem desse medicamento, e quando estão curados percebem que nunca estiveram doentes também. Então, o sábio não sabe que sabe, e os não sábios não sabem que sabem, mas na verdade não há sábios e não sábios, só há Consciência. Só há Verdade, só há Liberação.

Fala pelo paltalk transmitida no dia 03 de fevereiro de 2014

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