quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Paltalk Satsang - A diferença entre uma resposta reativa e a resposta direta da Consciência



Que bom estarmos presentes neste encontro, num momento em que nós nos voltamos para esta única realidade, esta única verdade em meio de tudo aquilo que aparece e que também desaparece; é aquilo que é por demais importante e de mais sagrado. Nosso corpo e mente já vem sendo tocados por essa nova dimensão e quando nós dizemos “nova”, é nova apenas no sentido de que ela traz algo inteiramente desconhecido daquilo que até então tem sido a nossa vida.

Estamos juntos aqui para descobrir isso, essa "novidade" essa qualidade nova de vida, de compreensão, de verdade, de sabedoria e de liberdade. Algo que é o fruto maduro no Despertar. Todos sentimos que a vida não é algo confortável, pelo menos como a temos vivido até então: uma vida cheia de aborrecimentos, cheia de contrariedades,  cheia de medos, de desejos, uma vida ocupada 99% das vezes com situações para serem resolvidas, problemas a serem enfrentados e nunca relaxamos, estamos sempre tensos, nervosos, estressados, aflitos... 

Nós gostaríamos neste instante em que estamos juntos, gostaríamos de perguntar se é possível essa Vida de novidade, essa Vida livre de inquietude, de inquietações. Quando procuramos nesse olhar direto para dentro de nós mesmos, descobrirmos que é exatamente dentro de cada um de nós que os problemas estão acontecendo — e temos que nos perguntar se todos esses problemas que surgem em nossa mente, — nesses assim chamados conflitos, dilemas, dificuldades, se a base que sustenta cada um deles, pode desaparecer. Porque se nós tivermos uma qualidade completamente nova, diferente da que conhecemos, podemos vivenciar uma percepção direta da consciência, livre de interpretações mentais, de traduções, dos quadros que se apresentam dentro de nós como desafios e isso, é parte do auto-conhecimento. Isto é parte da ação. 

Tudo que procuramos, é uma vida em liberdade. É uma vida serena, em paz. Tudo que buscamos, tudo que procuramos é descobrir se há alguma coisa como essa Vida Nova, da qual estamos falando... Se isso realmente é uma realidade. Porque isso que nos impulsiona em direção a essa pesquisa, a essa averiguação a essa investigação, a essa busca é exatamente porque sentimos que não é de fato natural uma vida como a grande maioria vem vivendo.

Não tanto ouvir essa fala, ouvir esse recado, essa mensagem, essa palestra, ou como queiramos chamar isso. Isso não é tão importante, o mais importante é nós tentarmos — neste instante em que ouvimos isso —, atentarmos para esse ponto dentro de cada um de nós, esse ponto que nos trouxe até este questionamento, até esta procura, a esta busca que gerou dentro de nós este impulso para estarmos trabalhando isto, hoje neste encontro. 

Quando atentamos para isso somos capazes de perceber de uma forma inteiramente nova, algo inteiramente fora de toda essa desordem e confusão. 

Então temos que nos perguntar realmente se podemos nos ver livres e se não são exatamente esse conceitos conflitivos e as interpretações erradas que trazemos, a própria base de toda confusão, de todo sofrimento, de toda desordem em cada um de nós. 

Parece que as circunstâncias criam algumas representações difíceis de se lidar com elas. Isso porque temos muitas fixações, muitos conceitos, muitas interpretações conflitivas e, por isso, tudo nos parece assim, porque estamos aprisionados a padrões mentais de condicionamento. 

Não há simplicidade na mente, não há leveza no coração, não há essa coisa de olhar diretamente, de ver e aprender diretamente, de compreender diretamente, porque estamos sempre com essa complexa mente dividindo, comparando, discriminando, julgando, distorcendo, interpretando e assim por diante.

O convite deste encontro é o silêncio, é nos deixarmos tocar por este ponto que trazemos dentro de cada um de nós, que é um ponto que não pode ser encontrado por uma referência mental. Sua mente não pode encontrar esse ponto, não pode tê-lo como referência, apenas o seu coração tem esse poder. 

O grande segredo de ouvir sobre isso, a partir de uma voz que fala através deste estado de Presença é estar em silêncio, só observando os pensamentos que passam. Nossa atenção está totalmente voltada para esses instante em que as palavras saem e que nós as ouvimos. Isso nos traz ao instante do imediato. Esse instante do momento presente, esse instante onde ficamos vulneráveis, abertos, sensíveis e conseguimos assim vibrar com essa mesma Presença que aqui neste instante agora se encontra. 

Isso traz uma nova maneira de ver, um novo modo de perceber e isso ocorre como que por uma mágica sagrada, divina. É capaz de varrer inteiramente tudo isso que acabamos de falar e essa mente que era tão complexa, tão desorientada, tão difícil, tão envolvida com esses conceitos conflitivos, com essa desordem, tudo isso é como que varrido inteiramente e somos tocados e nos sentimos tocados diretamente por isto, por esta coisa, por esta realidade, por este ponto que apesar de não ter referência é algo que nos leva, ou nos traz a este estado real de presença de ser.

Alguém que nos escuta tem uma certa dificuldade quando nos escuta somente na esfera do intelecto; essa não é a maneira adequada de nos ouvir. Todo ser envolvido nisso é capaz de nos revelar algo além das palavras, que a cada momento está pulsando de forma presente, de forma real, somos capazes de perceber o que está acontecendo por traz desse próprio movimento em desordem do pensamento nessa mente. Somos capazes de perceber por traz de todo esse movimento da mente, perceber essa realidade que contempla, que presencia, que percebe, que não se mistura e não se dilui com nada disso. Não se trata da aquisição de alguma coisa. 

Perceber esse algo novo, essa vida nova, esse estado de Presença Real, que nesse momento nós chamamos de novo, não se trata de adquirirmos isso, mas de constatarmos isso. Constatar quem somos nesse exato momento e isso é visto agora, diretamente, não como uma a ideia, uma possibilidade conceitual, mas sim como uma realidade nesse presente imediato. Estamos falando da Natureza da Consciência que é o fim dessa mente conflitiva. A apresentação desse novo, — que é a natureza da consciência que somos — é o fim de todo sofrimento e de todos os problemas que surgem na mente. Quero repetir isso: não é uma aquisição é uma constatação. Uma constatação dessa realidade que trazemos além dessa mente treinada que temos e que nela temos vivido dessa forma.

Todos os sistemas, todos os ensinos que recebemos, toda padronização que nos tem sido dada, tem falhado nisso: em nos apontar essa diretividade, essa objetividade, essa plena visão, essa imediata visão daquilo que somos, em verdade, em realidade, em nossa verdadeira natureza. 

E assim vivemos uma resistência intelectual constante, num conflito interno constante, numa queixa constante, vivemos empacados, provados, tolhidos, dentro de uma medíocre limitação, porque o condicionamento que recebemos nos impôs isso. 

Espero que você esteja ouvindo com o ouvir do coração, estamos estendendo um convite dentro deste encontro para essa nova visão, para essa nova vida, a vida no Ser, a vida do ser, de nossa natureza real, de nossa natureza essencial, que consegue colocar a mente e todas as funções relativas a ela, — intelecto, sentimentos e emoções, — e tudo mais em seu devido lugar. É uma ordem que não nasce de ajustamentos a padrões e sistemas, a alguma forma de disciplina. Falamos de uma ordem que nasce do próprio estado de meditação e auto-investigação. Aqui estamos para ver isso de uma forma muito direta. 

Sempre aconselhamos a todos os presentes para não intelectualizarem isso, não tentem nos acompanhar com o intelecto, pois não falamos a partir do intelecto para intelecto. Não é um assunto técnico que envolva conhecimento, que envolva lógica. Aqui os pensamentos não se concluem, não os vamos levando numa sequência até chegarem numa conclusão. Aqui o propósito da fala é quebrar esse movimento, exatamente este movimento do pensamento, caminhando para algum ponto e assim começando um novo caminho e assim por diante. 

Estamos descobrindo o que é nos posicionar no coração… Nos posicionarmos além da mente. Estamos descobrindo o que é olhar para toda essa confusão e desordem mental, nos posicionarmos além disso, ou por trás disso tudo, como aquele que testemunha, que observa e que não se perde, não se confunde e não se entrega a essa identificação. E quando isso é visto, exatamente assim, isso significa um fim imediato de toda essa coisa. Fica muito claro, é um ver, um saber e sentir direto. Um homem culto, uma mulher culta nisso se perde.

Estamos diante deste ponto que é a nossa real natureza. Por isso não visualize mentalmente. Diante desta verdade todos os problemas desaparecem, desaparecem com naturalidade. A vida continua exatamente com as suas situações, com seus acontecimentos, que é apenas de um ponto de vista de uma referência e de uma mente conflitiva que se baseia em interpretações mentais, que são vícios mentais. É apenas a mente carregando esse peso de interpretação, que diz gosto e não gosto, quero e não quero, pode e não pode, deve ser assim não deve ser assim, isso está certo, isto está errado... 

Queremos desafiar a todos os presentes para a encontrarem dentro de si mesmos esse ponto que inclui todas as coisas, esse ponto que assim sendo não tem nenhuma circunferência em volta dele, esse ponto que é o Ser, que é o Eu Sou, que é essa ilimitada consciência, a verdade divina. Se esse desafio é aceito e esta observação recebe o seu devido lugar — e por isso mesmo nesta realização estamos diante desta vida nova. 

Esta é uma vida totalmente livre de toda separação, de toda desordem, de todo conflito, de toda interpretação mental, uma vida livre do sentido de “uma pessoa”, que vê o mundo através das dualidades do gostar ou não gostar, querer ou não querer, do certo ou errado.

QUESTIONADOR: - Porque é comum no início deste processo de auto-investigação começar a vir a tona em nossa consciências todas as resistências e fantasmas escondidos por anos..., toda a sujeira lançada abaixo do tapete?

MARCOS GUALBERTO - Seria bom falar sobre os mecanismos de defesa. Falemos sobre isso. O que acontece é que nós vivemos com base num ponto de vista. A nossa vida está muito centrada nesse mecanismo que é o intelecto. E esse intelecto foi treinado para fazer seleções. Isso é parte de seu próprio condicionamento: selecionar sempre com base em seu arquivo que vem acumulando através dos tempos. Com base nisso, o intelecto julga, avalia e faz com que o que chega de novo, sempre é escutado com esse fundo, com essa base e essa forma de ouvir é uma forma de resistência, de predileção, de escolha, de separação, de aceitar e rejeitar e isso do ponto de vista de uma compreensão. 

E do ponto de vista da realidade do Ser, essa maneira de ouvir é na verdade; resistência, um ouvir sem uma escuta atenta, porque há sempre esse centro de referência que é esse julgamento, essas escolhas, essas determinações de aceitar ou não, sempre através do intelecto. 

Isso não possibilita essa liberdade de compreensão de inteligência presente. Esse modo de perceber isso direto é sentir, isso é vivenciar, experimentar, isso é ser, porque fomos treinados para não ouvir, treinados para ouvir sem ouvir. Ouvir com preconceitos, julgamentos, escolhas com bases na comparação da informação que trazemos em nossos arquivos.

Então, a forma real, a maneira real de ouvir é deixar de lado, abrir mão desse mecanismo que é o intelecto, quando ele procura entrar criando esse tipo de coisa. Como se faz isso? Observação de quando ele entra, no momento em que ele entra, avaliando, julgando, dizendo sim, dizendo não... Se você  consegue pegar sua ação exatamente nesse instante, ele desmonta, não tem poder de continuidade, por causa da luz lançada sobre ele por essa Presença do Estado de Ser, do estado de percepção pura, que joga sobre este que não nos deixa ouvir. Não há nada a ser feito, a não ser a tomada de consciência de quando esse mecanismo entra, tentando se instalar. 

Ouvir isso sem medo... Esse fundo está sempre pronto com seus desejos, com seus medos, suas escolhas, suas razões próprias, seus julgamento, enfim com tudo que ele já traz. Quando se constata isso, exatamente no momento que surge, porque tem que ser exatamente nessa hora para não ser carregado por ele, apenas olhe; quando surge a observação ela quebra, dissolve esse padrão. 

O estado natural de consciência é de simples constatação: uma testemunha passiva. Muitas vezes se adormece nessa condição de inconsciência, de automatismo inconsciente. Esse automatismo é simplesmente o mecanismo programado para se repetir, e se fortalecer na repetição, e assim, tem sido durante todos esses anos. Somos apenas essa consciência repetitiva. 

Como fazemos quando somos desafiados em nossas posições? Esse mecanismo automaticamente entra em jogo. O que chamaríamos de ego, de “eu” de pessoa é esse movimento de reflexo, reagente, automático, um fundo reagente. Se me criticam isso encontra um fundo de autodefesa por causa da identificação com o fundo. Sou isso porque há uma identificação, pois o estado “Eu Sou” é perdido, a imagem que tenho de mim entra em cena automaticamente reagindo. Isso está sempre baseado na mecanicidade, totalmente inconsciente, sem nenhum valor real para essa consciência que sou. 

Esse automatismo, esse mecanismo automático que reage a insultos, criticas, elogios... Esse mecanismo é uma coisa estúpida que está sempre funcionando. Ocorre uma dualidade em ação: ou se escolhe um lado ou outro de acordo com o condicionamento instalado. Nossa Natureza Real é totalmente diferente disso. Ser é algo extraordinário porque não há uma reação com base num fundo, há só percepção direta da Presença, da pura percepção do que é. Uma critica ou um elogio tem só a liberdade de ser o que é sem a identificação de um fundo com seu estado reagente. É assim com este padrão de vida que o eu tem vivido.

É interessante falar um pouco sobre o medo. Um perigo imediato, se ele é físico, traz consigo uma resposta imediata do organismo, não de um fundo, uma resposta de defesa de busca de solução para aquele dado desafio chamado perigo presente. Agora, quando falamos já de um perigo que é puramente psicológico, boa parte dos perigos que vivemos não são perigos reais, são psicológicos, só encontram resposta quando há um fundo que traz uma resposta inadequada ao momento. É nascido de uma ilusão de um condicionamento de algo que não é real. Por ser um perigo psicológico, irreal, uma resposta inadequada é a que se apresenta, porque é somente isso o que o fundo tem para dar. 

Quando não há o fundo psicológico, o que há é uma resposta inteligente do organismo diante de um desafio. O medo que vivenciamos só tem uma base: o fundo que trazemos. Quando se é pequeno, se é ensinado que no quarto escuro tem um bicho papão. Quando crescemos passamos a rir disso, só que não percebemos que nossos infindáveis medos, foram firmados a partir daí e não nos apercebemos disso diante desses medos. Isso porque nosso condicionamento, essa mente, que é tudo isso que adquirimos, é uma prisão muito forte e com um poder muito forte sobre o próprio corpo. 

A meditação, o trabalho de entrega e auto-observação fazem um trabalho completo no corpo e na mente, em todos os níveis, para que seja natural qualquer resposta do organismo. Falar, sorrir, chorar, correr, caminhar, o se afastar de um perigo, qualquer resposta no corpo é natural. Boa parte dessas reações sentidas no corpo, vindas de um fundo, de um eu, um fundo de condicionamento mental, são superficiais, cópias, imitações, artificiais. Isso tem a mesma realidade que a voz e os dizeres de um papagaio. 

Estar diretamente com o que é — esse é o ponto certo. Sem esse posicionamento de um pensamento conflitivo, sem uma interpretação mental, é o melhor exercício para a quebra do ilusório mecanismo que sempre se repete, que é o eu. Ficar com o que se apresenta, independente se é de nosso gosto ou não. A VIDA É O QUE É, não é como o eu deseja. 

Quando não há resistência, há compreensão imediata. Nosso trabalho real não acontece numa base de disciplina, acontece de minuto a minuto. O despertar só ocorre aí e tudo está no lugar certo. 

A questão é saber estar consciente diante de todo desafio que se apresente. Não há nada mais a ser feito. Só estar de coração aberto, não mantendo o eu separatista. Tudo isso precisa ruir.


Satsang pelo Paltalk , 03 de agosto de 2011

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