sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Tudo acontece nessa Indescritível e Ilimitada Consciência


Quem determina essa fala é exatamente este instante, o grupo presente, aqueles que aqui estão, aquilo que costumo chamar de mecanismos corpo-mente presente. É importante que você compreenda logo como base essa introdução, porque isso na verdade é o começo de tudo. O começo de tudo é encontrar, é tomar ciência Disto que vê, Daquilo que vê. O que é Ele que vê? Quem ou o quê é esse Observador? A nossa ênfase no Despertar nesse florescer da Verdade está em encontrar Aquilo que vê. Reparem, não é aquilo que é visto, e sim Aquilo que vê. A pergunta é: o que é isso que vê? Ou: quem é que vê? Tudo pode ser observado, tudo pode ser visto, e tudo que é visto não é Aquilo que vê. Os objetos são percebidos, são presenciados, são vistos, enquanto Aquilo que vê ou Quem vê permanece como o “sujeito”.
Então, nós temos Aquilo que é visto e temos Aquilo que vê. Você pode ver uma casa, você pode ver um carro, você pode ver o corpo físico, você pode ver agora neste momento o seu PC aí diante de você ou o notebook, você pode ver suas mãos, você pode ver o espaço ao seu redor: a mesa, cadeiras. Se você está no quarto neste momento você pode ver a cama. Essa é a experiência com o que pode ser visto. Tudo o que pode ser visto são objetos. Aquilo que é visto como objetos aparece Naquilo que vê, ou Nisto que vê, que é o “sujeito”. Nosso equívoco, nosso engano é estarmos identificados com aquilo que pode ser visto, e assim esquecemos do “sujeito”, ou esquecemos Aquilo que vê. Nós nos confundimos como o corpo e esquecemos quem somos. Nós somos Aquilo que vê.
O corpo pode ser visto, as mãos, os pés, os olhos. As sensações aparecendo no corpo podem ser presenciadas, podem ser vistas, elas podem ser sentidas. Podemos sentir calor, frio. São experiências objetivas, experiências com objetos que os sentidos podem tocar e que o corpo pode sentir. Podemos ver, podemos provar, podemos tocar, podemos cheirar, podemos ouvir. Assim, eu estou vendo, eu estou provando, eu estou tocando, eu estou cheirando, eu estou ouvindo. O equívoco aqui é que estamos perdidos nessa experiência objetiva, estamos perdidos naquilo que é visto. Esquecemos essa base.
Aquilo que vê permanece imutável. Esse “sujeito” permanece imutável, Esse que vê, Aquilo que vê. Estamos tratando da Consciência, Daquilo no qual toda experiência aparece, toda experiência objetiva, toda experiência de objetos, tudo o que é experienciável aparece Naquilo que experimenta. Estamos perdidos, identificados com essa experiência. Pensar, sentir, tocar, ver, cheirar, está acontecendo Nesta Presença, Nesta Consciência. E Ela não muda, enquanto todas as experiências estão mudando Nela, aparecendo Nela, aparecendo e indo embora.
A Liberação é a consciência de sua Natureza Essencial imutável, na qual toda experiência vem e vai, toda sensação vem e vai, todo pensamento vem e vai, todos os objetos vêm e vão. Eles aparecem e desaparecem, enquanto Aquilo que vê, Esta Presença, Esta Consciência, se mantém desidentificada. E quanto não há essa identificação, permanece esta Presença, que é Consciência intocável. Ela permanece em sua Liberdade. Permanece em sua Liberdade porque não há uma identidade para essa experiência. O que temos é a presença da experiência Naquilo, Nisto, nesta Presença. Isso é o fim do sentido de uma identidade presente, é o fim do “eu”, do ego, do “mim”. É o fim do sentido de um experimentador.
Não há um experimentador na experiência. Aqui está todo o nosso engano. Nós acreditamos ser o experimentador nesta ansiedade, nesta depressão, nesse estresse, nessa mágoa, nesse ressentimento, nessa culpa, nesse desejo, nesse medo. Não há um experimentador nessa experiência. É só uma experiência aparecendo e desaparecendo, sem uma identidade. Essa é a primeira coisa a ser compreendida. O que estamos fazendo nestes encontros é trazermos uma certa aproximação disso verbalmente. Nada muito importante. Isso ainda tem um certo lugar, mas não fiquem presos a essa fala, a essa palavra. Precisam aqui, nesse encontro, permanecerem desidentificados de qualquer experiência. Ouvir agora também é somente uma experiência, não coloquem uma identidade nisso.
Quando você interpreta, julga, avalia, quando busca acrescentar entendimento particular a isso que está ouvindo, você está caindo no mesmo erro, no mesmo equívoco, no mesmo engano, que é colocar uma identidade nessa experiência, então você passa a ser o experienciador desse ouvir, então isso fica num nível muito superficial. Você fica apenas no campo do intelecto, esse é o campo do experimentador. Toda e qualquer experiência é objetiva. É algo que pode ser observado, percebido, constatado como algo passado, algo que nasce e morre, algo que aparece e desaparece, enquanto Aquilo no qual essa experiência surge e desaparece permanece.
Esta é a natureza da Consciência. Esse é o primeiro ponto. O segundo é que mesmo essa experiência, mesmo sem o experimentador, ainda está acontecendo nesta Consciência. Isso significa que ela não está separada dessa Consciência. Assim sendo, tocar, cheirar, ouvir, ver, é algo dentro dessa Consciência. O que não temos aí é o sentido de uma identidade particular como um experimentador. Então, a experiência, ela está presente nesta Consciência, mas não há um experimentador. Seja uma experiência objetiva, externa, ou uma experiência objetiva interna, seja uma percepção sensorial, que é uma experiência objetiva externa, ou uma experiência objetiva interna, como pensamentos, sentimentos, emoções, e também sensações físicas, todo esse tipo de experiência está presente nesta Consciência. Neste sentido, o corpo não está separado desta Consciência. A mente não está separada desta Consciência.
Tudo isso está acontecendo nesta Consciência, nesta indescritível e ilimitada Consciência. O que não temos aí é um experimentador, não temos alguém presente. Percebam a beleza disso. Na experiência do medo só há medo, na experiência da ansiedade só há ansiedade, na experiência do pensamento só há pensamento. Se isso não encontra uma identidade, isso não pode ser manter. Quando acontece o fim do experimentador, a experiência termina. Ela tem o seu início e o seu fim. Esse experimentador é o ego, é o “mim”, é o “eu”, é o sentido de uma identidade em toda essa coisa.
Estamos colocando para você o fim desse sentido de alguém presente neste instante, neste momento, na experiência. Estamos apontando em encontros como esses o fim desse suposto “você”, desta pessoa. E isso é o fim do sofrimento, é o fim do sofredor, é o fim do medo, é o fim do medroso, é o fim da ansiedade porque é o fim do ansioso. Isso é o fim da ideia de alguém presente na experiência. Agora mesmo estamos diante deste silêncio, desta Presença, desta Graça, na qual o experimentador não existe. O experimentador é somente uma crença. Temos esta bela experiência do ouvir, de acompanhar essa fala, mas não há alguém nisso. É algo despretensioso. É como a experiência de ouvir um pássaro cantando. Não interpretamos, não julgamos, não comparamos, não agarramos aquilo que ouvimos. Ficamos apenas nesse ouvir.

Percebam que aqui nós temos a chave dessa liberação. A chave dessa Liberação é não colocarmos identidade naquilo que se apresenta nesse momento. Você está sempre neste instante, neste momento, agora, na experiência. A experiência é belíssima. A experiência é a vida se expressando. A ideia de alguém dentro é a ilusão de um agente, de um autor, de um controlador, de alguém capaz de moldar, mudar, alterar alguma coisa. E isso é conflito. E esse conflito, naturalmente criado pelo medo, é sofrimento na ideia de um sofredor presente. Despertar, realização, iluminação ou qualquer nome que você queira dar para isso, isso significa o fim dessa ilusão, a ilusão da mente. Mente aqui como sinônimo de uma identidade presente fazendo alguma coisa, ou se livrando de alguma coisa, ou conseguindo alguma coisa. Tudo isso é uma grande ilusão.

Fala pelo paltalk transmitida no dia 29 de Janeiro de 2014

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Paltalk Satsang - Nós não tratamos de conhecimento em Satsang


Nós não tratamos de conhecimento em Satsang. Nós tratamos em Satsang de autoinvestigação. Autoinvestigação trabalha o fim do medo. O fim do medo é o fim do desejo. Nós carregamos o peso do desejo em razão do medo presente, esse medo que nasce dessa inconsciência. Então, nós temos essa inconsciência, essa insciência acerca da Verdade sobre nós mesmos, e isso é medo. Isso se traduz como medo em nosso viver, em nosso dia a dia, se expressando através do desejo. Esses desejos são agora essas tendências internas, algo latente, algo que é parte da mente. Na yoga eles chamam de vasanas, aquilo que se acumula aí, nesse mecanismo, nesse organismo, como uma contração. O sentido de uma identidade separada que vive dessa inconsciência, que é essa insciência dessa Verdade sobre nossa Verdadeira Natureza é medo, e medo se traduz no nosso viver, no nosso dia a dia como desejos, e esses desejos são essas vasanas.
O trabalho de autoinvestigação é a base dessa real meditação, é a possibilidade de queimar isso, de queimar essas vasanas, de queimar esses desejos mantidos pelo medo dessa inconsciência nessa falsa identidade. Essa falsa identidade que se passa por você, que você acredita que é você. Esse “você” é o próprio medo, essa própria contração nesse mecanismo. Aqui fazemos essas colocações apenas para haver uma certa facilidade, para termos uma certa aproximação até mesmo intelectual disso, embora isso fique em último plano – não tem muita importância. Estamos carregados de ansiedade, de preocupações, de estresse, inquietos. Esse sentido de busca, da liberação, da libertação de todo sofrimento que temos, implica também ainda em sinais dessa presença, a presença do medo, dessas vasanas presentes, dessas tendências que estão aí nesse mecanismo.
Isso tudo precisa ser visto, precisa ser liberado, precisa ser queimado. Remorso, culpa, medo, o hábito de falar demais, a tagarelice mental, o julgamento, a comparação, a fixação em crenças, tudo isso são sinais de medo, dessa inconsciência, dessas tendências mecânicas aí nessa máquina, nesse mecanismo. E estes são sinais do ego, do “mim”, do “eu”. Você não consegue ver isso. Você está por demais identificado com esses padrões, eles se passam por você de uma forma belíssima. Esse sentido de “alguém” no controle, o sentido de um autor, de um fazedor, de um realizador...
É como a tensão de um arco. Você tem a flecha e tem o arco, e você tem a tensão de um arco, e o que cria a tensão nesse arco é uma corda de uma ponta a outra do arco. Essa corda mantém a tensão do arco. O arco nunca relaxa. O sentido de uma ego-identidade nesse suposto “eu”, nesse fazedor, é como esse arco tenso por essa corda. A corda aqui é o sentido de uma identidade presente, de uma identidade separada, e a tensão nesse arco são essas tendências latentes, as tendências de um autor, de um realizador, de um fazedor, essas tendências de uma pessoa que estão aí, uma impressão nessa máquina, nesse mecanismo. Você é o único que não consegue ver isso em si mesmo.
Essa pessoa, esse “eu”, esse “ego” consegue ver o ego no outro, consegue ver vícios e virtudes no outro, mas na verdade são sinais nele mesmo dessas impressões, mas ele não consegue ver isso em si próprio. Não tem o outro, é ele mesmo ali, e ele vê com base em comparações, em avaliações, em julgamentos, em classificações. É apenas uma projeção dessa ilusória identidade presente. É essa própria pessoa, esse próprio “eu”, esse próprio “mim”, esse próprio sentido de identidade separada. Ela não pode se dar conta de que liberdade é liberdade do agente, é a liberdade do sentido de separatividade, é a liberdade do fim desse sentido de separação.
Esse sentido de uma identidade separada não se dá conta do que é a real Liberdade. Esse sentido é a própria ilusão de alguém que um dia realizará isso, e por isso busca essa liberdade do lado de fora. O “eu” não pode ver a si próprio, o ego não trata com ele mesmo. Apenas uma intervenção dessa Presença, dessa Graça, Daquilo que está além desse sentido de separatividade, pode expressar, revelar esta real Liberação, que é o fim dessa identidade separada – isso significa o fim do medo, o fim do padrão de todas essas tendências presentes, o fim dessa inconsciência, o fim dessas vasanas. Então, estamos diante do Estado Natural, do estado livre do ego, livre do sofrimento, livre do sentido de um autor, de um realizador, de um fazedor.
A mente é algo para se investigada. A mente é algo aqui sendo investigada. Nessa investigação, temos o fim da mente, o fim do sentido de separatividade. A investigação dessa ilusão é o fim dela. Ela apenas se torna um problema quando você se recusa a investigar isso. Há uma certa lógica, há uma certa coerência, há uma certa “inteligência” para esse movimento de pensamentos, para todas essas crenças presentes, para todas essas certezas, convicções mentais. Se isso não é investigado, isso continua, se mantém como um problema, porque isso continua sendo o maior investimento dessa pseudo identidade separada.
Exatamente porque nos identificamos com isso. Essa lógica, esse bom senso, essa “inteligência” nos captura, somos capturados pela ilusão, a ilusão de que “eu tenho razão”, “eu sei”, “eu posso”, “eu realizo”, “eu estou certo”. É quando essa mente assume uma realidade, uma ilusória realidade. Na mente não é possível, todas as crenças, todos os ensinos, todo e qualquer conhecimento que você tenha é algo completamente inútil, é algo que não serve para nada a não ser para manter essa ilusão. Quando esse sentido de um autor, de um “eu”, de uma pessoa, quando o medo, essa inconsciência, essas vasanas, essas tendências, esses padrões, quando isso é removido através desta investigação-meditação-entrega, esse arco fica livre dessa corda, então deixa de ser um arco, tenso, e agora relaxa.

Esse relaxar do arco pelo fim da corda tensa, que é o fim do medo, que é o fim do sentido de uma identidade separada, que é o fim da inconsciência, significa o fim do desejo. É a constatação desta Felicidade, desta Liberdade, deste Amor e desta Paz, neste relaxamento, nesta não tensão mental. Isto é a liberdade da própria ideia de liberdade. É a liberação da própria ideia de liberação. É a felicidade do fim da ideia da felicidade. É o amor no fim da crença em sentimento e da ideia sobre o amor. É a paz que ultrapassa toda compreensão, toda descrição. Isso significa Deus, Consciência, Presença, Ser, Verdade. E aí está o Despertar.

Fala transcrita de um Encontro no Paltalk Senses do dia 27 de Janeiro de 2014

sábado, 25 de janeiro de 2014

Você não pode ser aquilo que muda



Você não pode ser aquilo que muda; sua mente muda, seu corpo muda, tudo isso muda constantemente; mas quem é esse que vê isso que muda, mudando, que pode contemplar o que veio e já se foi? Repare isso. Quero lhe perguntar isso: onde está aquele menino que jogava bola na rua e onde está aquela menininha que brincava de boneca? Temos aqui suas fotos, olhe para eles agora, e me diga onde estão eles, essa crianças? Elas se foram, ele com o seu short curto e ela com as suas trancinhas no cabelo. O que estamos dizendo é que tudo muda, assim, tudo passa, tudo que é agora, amanhã, não estará aqui. O que você conhece que não muda, não passa, não sofre alteração? Vou lhe dizer: apenas esta Consciência que presencia esta mudança; o corpo muda, a mente muda e o mundo muda, mas a Consciência presencia estas mudanças. Da mesma forma são os pensamentos dentro do cérebro, os sentimentos que sinto e as emoções que acontecem a este corpo, onde estão eles, as minhas alegrias e tristezas, meus medos e desejos.

O que lhe convido a constatar é aquilo que sua lógica e bom censo não podem rejeitar, o simples, direto e insubstituível fato de que a Única realidade nisso tudo é a Ilimitada Presença da Consciência que vê, que presencia tudo isso. E ela é o fator, imutável, tudo está mudando mas ela não muda nunca. Assim sendo, vamos ficar nesta percepção imutável e todos os conflitos se desfazem, tudo encontra o seu lugar certo. Isso é o que chamo de trabalho sobre si mesmo, em si mesmo, um convite da própria imutável Consciência para ser o que ela é, para reconhecer a si própria como a Única verdade, imutável. Quero lhe dizer que sua procura por paz está apontando para esta direção. Sua busca de felicidade, assim como sua busca de amor, isto é realização ou iluminação, o que todos sentem é que este comum padrão de existência, prisioneiro da dor e do sofrimento não pode ser o natural, deve haver algo além disso tudo...

Sim, meu amigo! Esta é sua real natureza, sua essencial e divina presença, seu Ser ou Ilimitada Consciência. Talvez sua pergunta seja: o que posso fazer? Como assim? Como você pode fazer alguma coisa para ser o que sempre foi? A única resposta é: não faça nada! Desista das imagens que tem de si mesmo, de acreditar ser algo diferente, se desfaça de suas crenças, portanto, não se trata de fazer,  mas de entrega-se ao que é, render-se ao que é. Pareço vago, não fui claro, vou lhe dizer como é simples, embora requer persistência, dedicação, desejo que queima e intenção decisiva...

Observe tudo o que se passa dentro de você: comece pelos pensamentos, faça isso, em qualquer lugar, a qualquer momento, comendo, andando, conversando, ouvindo alguém ou algum som, no trabalho, na escola, na hora de deitar para dormir... Esteja atento ao que se passa dentro, veja os pensamentos, observe-os um a um chegando, não os agarre, não pule sobre eles, como você sempre fez e fundindo-se com eles, sumindo neles adormecendo na identificação; Observe-os, isso é importante, vou repetir propositalmente. É muito importante: não se identifique com eles, não se dilua neles, não se funda com eles, observe-os, se isso é feito exatamente assim, logo você percebe que você não é os pensamentos, eles vem e vão, assim como tudo a sua volta, assim é tudo dentro de você, logo, você  está compreendendo que não é a mente, mas essa Consciência que presencia. Você está se rendendo ao que é, se entregando ao que é. Persista nisso! Encontre esse  espaço e se desidentifique assim do seu mundo interno e do seu mundo externo; eles estão acontecendo para você, eles estão em você e não você neles... Você é anterior a tudo que aparece e desaparece. Trabalhe isso. Você é....O Ser... A ilimitada presença... A Ilimitada Consciência...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Paltalk Satsang - A diferença entre uma resposta reativa e a resposta direta da Consciência



Que bom estarmos presentes neste encontro, num momento em que nós nos voltamos para esta única realidade, esta única verdade em meio de tudo aquilo que aparece e que também desaparece; é aquilo que é por demais importante e de mais sagrado. Nosso corpo e mente já vem sendo tocados por essa nova dimensão e quando nós dizemos “nova”, é nova apenas no sentido de que ela traz algo inteiramente desconhecido daquilo que até então tem sido a nossa vida.

Estamos juntos aqui para descobrir isso, essa "novidade" essa qualidade nova de vida, de compreensão, de verdade, de sabedoria e de liberdade. Algo que é o fruto maduro no Despertar. Todos sentimos que a vida não é algo confortável, pelo menos como a temos vivido até então: uma vida cheia de aborrecimentos, cheia de contrariedades,  cheia de medos, de desejos, uma vida ocupada 99% das vezes com situações para serem resolvidas, problemas a serem enfrentados e nunca relaxamos, estamos sempre tensos, nervosos, estressados, aflitos... 

Nós gostaríamos neste instante em que estamos juntos, gostaríamos de perguntar se é possível essa Vida de novidade, essa Vida livre de inquietude, de inquietações. Quando procuramos nesse olhar direto para dentro de nós mesmos, descobrirmos que é exatamente dentro de cada um de nós que os problemas estão acontecendo — e temos que nos perguntar se todos esses problemas que surgem em nossa mente, — nesses assim chamados conflitos, dilemas, dificuldades, se a base que sustenta cada um deles, pode desaparecer. Porque se nós tivermos uma qualidade completamente nova, diferente da que conhecemos, podemos vivenciar uma percepção direta da consciência, livre de interpretações mentais, de traduções, dos quadros que se apresentam dentro de nós como desafios e isso, é parte do auto-conhecimento. Isto é parte da ação. 

Tudo que procuramos, é uma vida em liberdade. É uma vida serena, em paz. Tudo que buscamos, tudo que procuramos é descobrir se há alguma coisa como essa Vida Nova, da qual estamos falando... Se isso realmente é uma realidade. Porque isso que nos impulsiona em direção a essa pesquisa, a essa averiguação a essa investigação, a essa busca é exatamente porque sentimos que não é de fato natural uma vida como a grande maioria vem vivendo.

Não tanto ouvir essa fala, ouvir esse recado, essa mensagem, essa palestra, ou como queiramos chamar isso. Isso não é tão importante, o mais importante é nós tentarmos — neste instante em que ouvimos isso —, atentarmos para esse ponto dentro de cada um de nós, esse ponto que nos trouxe até este questionamento, até esta procura, a esta busca que gerou dentro de nós este impulso para estarmos trabalhando isto, hoje neste encontro. 

Quando atentamos para isso somos capazes de perceber de uma forma inteiramente nova, algo inteiramente fora de toda essa desordem e confusão. 

Então temos que nos perguntar realmente se podemos nos ver livres e se não são exatamente esse conceitos conflitivos e as interpretações erradas que trazemos, a própria base de toda confusão, de todo sofrimento, de toda desordem em cada um de nós. 

Parece que as circunstâncias criam algumas representações difíceis de se lidar com elas. Isso porque temos muitas fixações, muitos conceitos, muitas interpretações conflitivas e, por isso, tudo nos parece assim, porque estamos aprisionados a padrões mentais de condicionamento. 

Não há simplicidade na mente, não há leveza no coração, não há essa coisa de olhar diretamente, de ver e aprender diretamente, de compreender diretamente, porque estamos sempre com essa complexa mente dividindo, comparando, discriminando, julgando, distorcendo, interpretando e assim por diante.

O convite deste encontro é o silêncio, é nos deixarmos tocar por este ponto que trazemos dentro de cada um de nós, que é um ponto que não pode ser encontrado por uma referência mental. Sua mente não pode encontrar esse ponto, não pode tê-lo como referência, apenas o seu coração tem esse poder. 

O grande segredo de ouvir sobre isso, a partir de uma voz que fala através deste estado de Presença é estar em silêncio, só observando os pensamentos que passam. Nossa atenção está totalmente voltada para esses instante em que as palavras saem e que nós as ouvimos. Isso nos traz ao instante do imediato. Esse instante do momento presente, esse instante onde ficamos vulneráveis, abertos, sensíveis e conseguimos assim vibrar com essa mesma Presença que aqui neste instante agora se encontra. 

Isso traz uma nova maneira de ver, um novo modo de perceber e isso ocorre como que por uma mágica sagrada, divina. É capaz de varrer inteiramente tudo isso que acabamos de falar e essa mente que era tão complexa, tão desorientada, tão difícil, tão envolvida com esses conceitos conflitivos, com essa desordem, tudo isso é como que varrido inteiramente e somos tocados e nos sentimos tocados diretamente por isto, por esta coisa, por esta realidade, por este ponto que apesar de não ter referência é algo que nos leva, ou nos traz a este estado real de presença de ser.

Alguém que nos escuta tem uma certa dificuldade quando nos escuta somente na esfera do intelecto; essa não é a maneira adequada de nos ouvir. Todo ser envolvido nisso é capaz de nos revelar algo além das palavras, que a cada momento está pulsando de forma presente, de forma real, somos capazes de perceber o que está acontecendo por traz desse próprio movimento em desordem do pensamento nessa mente. Somos capazes de perceber por traz de todo esse movimento da mente, perceber essa realidade que contempla, que presencia, que percebe, que não se mistura e não se dilui com nada disso. Não se trata da aquisição de alguma coisa. 

Perceber esse algo novo, essa vida nova, esse estado de Presença Real, que nesse momento nós chamamos de novo, não se trata de adquirirmos isso, mas de constatarmos isso. Constatar quem somos nesse exato momento e isso é visto agora, diretamente, não como uma a ideia, uma possibilidade conceitual, mas sim como uma realidade nesse presente imediato. Estamos falando da Natureza da Consciência que é o fim dessa mente conflitiva. A apresentação desse novo, — que é a natureza da consciência que somos — é o fim de todo sofrimento e de todos os problemas que surgem na mente. Quero repetir isso: não é uma aquisição é uma constatação. Uma constatação dessa realidade que trazemos além dessa mente treinada que temos e que nela temos vivido dessa forma.

Todos os sistemas, todos os ensinos que recebemos, toda padronização que nos tem sido dada, tem falhado nisso: em nos apontar essa diretividade, essa objetividade, essa plena visão, essa imediata visão daquilo que somos, em verdade, em realidade, em nossa verdadeira natureza. 

E assim vivemos uma resistência intelectual constante, num conflito interno constante, numa queixa constante, vivemos empacados, provados, tolhidos, dentro de uma medíocre limitação, porque o condicionamento que recebemos nos impôs isso. 

Espero que você esteja ouvindo com o ouvir do coração, estamos estendendo um convite dentro deste encontro para essa nova visão, para essa nova vida, a vida no Ser, a vida do ser, de nossa natureza real, de nossa natureza essencial, que consegue colocar a mente e todas as funções relativas a ela, — intelecto, sentimentos e emoções, — e tudo mais em seu devido lugar. É uma ordem que não nasce de ajustamentos a padrões e sistemas, a alguma forma de disciplina. Falamos de uma ordem que nasce do próprio estado de meditação e auto-investigação. Aqui estamos para ver isso de uma forma muito direta. 

Sempre aconselhamos a todos os presentes para não intelectualizarem isso, não tentem nos acompanhar com o intelecto, pois não falamos a partir do intelecto para intelecto. Não é um assunto técnico que envolva conhecimento, que envolva lógica. Aqui os pensamentos não se concluem, não os vamos levando numa sequência até chegarem numa conclusão. Aqui o propósito da fala é quebrar esse movimento, exatamente este movimento do pensamento, caminhando para algum ponto e assim começando um novo caminho e assim por diante. 

Estamos descobrindo o que é nos posicionar no coração… Nos posicionarmos além da mente. Estamos descobrindo o que é olhar para toda essa confusão e desordem mental, nos posicionarmos além disso, ou por trás disso tudo, como aquele que testemunha, que observa e que não se perde, não se confunde e não se entrega a essa identificação. E quando isso é visto, exatamente assim, isso significa um fim imediato de toda essa coisa. Fica muito claro, é um ver, um saber e sentir direto. Um homem culto, uma mulher culta nisso se perde.

Estamos diante deste ponto que é a nossa real natureza. Por isso não visualize mentalmente. Diante desta verdade todos os problemas desaparecem, desaparecem com naturalidade. A vida continua exatamente com as suas situações, com seus acontecimentos, que é apenas de um ponto de vista de uma referência e de uma mente conflitiva que se baseia em interpretações mentais, que são vícios mentais. É apenas a mente carregando esse peso de interpretação, que diz gosto e não gosto, quero e não quero, pode e não pode, deve ser assim não deve ser assim, isso está certo, isto está errado... 

Queremos desafiar a todos os presentes para a encontrarem dentro de si mesmos esse ponto que inclui todas as coisas, esse ponto que assim sendo não tem nenhuma circunferência em volta dele, esse ponto que é o Ser, que é o Eu Sou, que é essa ilimitada consciência, a verdade divina. Se esse desafio é aceito e esta observação recebe o seu devido lugar — e por isso mesmo nesta realização estamos diante desta vida nova. 

Esta é uma vida totalmente livre de toda separação, de toda desordem, de todo conflito, de toda interpretação mental, uma vida livre do sentido de “uma pessoa”, que vê o mundo através das dualidades do gostar ou não gostar, querer ou não querer, do certo ou errado.

QUESTIONADOR: - Porque é comum no início deste processo de auto-investigação começar a vir a tona em nossa consciências todas as resistências e fantasmas escondidos por anos..., toda a sujeira lançada abaixo do tapete?

MARCOS GUALBERTO - Seria bom falar sobre os mecanismos de defesa. Falemos sobre isso. O que acontece é que nós vivemos com base num ponto de vista. A nossa vida está muito centrada nesse mecanismo que é o intelecto. E esse intelecto foi treinado para fazer seleções. Isso é parte de seu próprio condicionamento: selecionar sempre com base em seu arquivo que vem acumulando através dos tempos. Com base nisso, o intelecto julga, avalia e faz com que o que chega de novo, sempre é escutado com esse fundo, com essa base e essa forma de ouvir é uma forma de resistência, de predileção, de escolha, de separação, de aceitar e rejeitar e isso do ponto de vista de uma compreensão. 

E do ponto de vista da realidade do Ser, essa maneira de ouvir é na verdade; resistência, um ouvir sem uma escuta atenta, porque há sempre esse centro de referência que é esse julgamento, essas escolhas, essas determinações de aceitar ou não, sempre através do intelecto. 

Isso não possibilita essa liberdade de compreensão de inteligência presente. Esse modo de perceber isso direto é sentir, isso é vivenciar, experimentar, isso é ser, porque fomos treinados para não ouvir, treinados para ouvir sem ouvir. Ouvir com preconceitos, julgamentos, escolhas com bases na comparação da informação que trazemos em nossos arquivos.

Então, a forma real, a maneira real de ouvir é deixar de lado, abrir mão desse mecanismo que é o intelecto, quando ele procura entrar criando esse tipo de coisa. Como se faz isso? Observação de quando ele entra, no momento em que ele entra, avaliando, julgando, dizendo sim, dizendo não... Se você  consegue pegar sua ação exatamente nesse instante, ele desmonta, não tem poder de continuidade, por causa da luz lançada sobre ele por essa Presença do Estado de Ser, do estado de percepção pura, que joga sobre este que não nos deixa ouvir. Não há nada a ser feito, a não ser a tomada de consciência de quando esse mecanismo entra, tentando se instalar. 

Ouvir isso sem medo... Esse fundo está sempre pronto com seus desejos, com seus medos, suas escolhas, suas razões próprias, seus julgamento, enfim com tudo que ele já traz. Quando se constata isso, exatamente no momento que surge, porque tem que ser exatamente nessa hora para não ser carregado por ele, apenas olhe; quando surge a observação ela quebra, dissolve esse padrão. 

O estado natural de consciência é de simples constatação: uma testemunha passiva. Muitas vezes se adormece nessa condição de inconsciência, de automatismo inconsciente. Esse automatismo é simplesmente o mecanismo programado para se repetir, e se fortalecer na repetição, e assim, tem sido durante todos esses anos. Somos apenas essa consciência repetitiva. 

Como fazemos quando somos desafiados em nossas posições? Esse mecanismo automaticamente entra em jogo. O que chamaríamos de ego, de “eu” de pessoa é esse movimento de reflexo, reagente, automático, um fundo reagente. Se me criticam isso encontra um fundo de autodefesa por causa da identificação com o fundo. Sou isso porque há uma identificação, pois o estado “Eu Sou” é perdido, a imagem que tenho de mim entra em cena automaticamente reagindo. Isso está sempre baseado na mecanicidade, totalmente inconsciente, sem nenhum valor real para essa consciência que sou. 

Esse automatismo, esse mecanismo automático que reage a insultos, criticas, elogios... Esse mecanismo é uma coisa estúpida que está sempre funcionando. Ocorre uma dualidade em ação: ou se escolhe um lado ou outro de acordo com o condicionamento instalado. Nossa Natureza Real é totalmente diferente disso. Ser é algo extraordinário porque não há uma reação com base num fundo, há só percepção direta da Presença, da pura percepção do que é. Uma critica ou um elogio tem só a liberdade de ser o que é sem a identificação de um fundo com seu estado reagente. É assim com este padrão de vida que o eu tem vivido.

É interessante falar um pouco sobre o medo. Um perigo imediato, se ele é físico, traz consigo uma resposta imediata do organismo, não de um fundo, uma resposta de defesa de busca de solução para aquele dado desafio chamado perigo presente. Agora, quando falamos já de um perigo que é puramente psicológico, boa parte dos perigos que vivemos não são perigos reais, são psicológicos, só encontram resposta quando há um fundo que traz uma resposta inadequada ao momento. É nascido de uma ilusão de um condicionamento de algo que não é real. Por ser um perigo psicológico, irreal, uma resposta inadequada é a que se apresenta, porque é somente isso o que o fundo tem para dar. 

Quando não há o fundo psicológico, o que há é uma resposta inteligente do organismo diante de um desafio. O medo que vivenciamos só tem uma base: o fundo que trazemos. Quando se é pequeno, se é ensinado que no quarto escuro tem um bicho papão. Quando crescemos passamos a rir disso, só que não percebemos que nossos infindáveis medos, foram firmados a partir daí e não nos apercebemos disso diante desses medos. Isso porque nosso condicionamento, essa mente, que é tudo isso que adquirimos, é uma prisão muito forte e com um poder muito forte sobre o próprio corpo. 

A meditação, o trabalho de entrega e auto-observação fazem um trabalho completo no corpo e na mente, em todos os níveis, para que seja natural qualquer resposta do organismo. Falar, sorrir, chorar, correr, caminhar, o se afastar de um perigo, qualquer resposta no corpo é natural. Boa parte dessas reações sentidas no corpo, vindas de um fundo, de um eu, um fundo de condicionamento mental, são superficiais, cópias, imitações, artificiais. Isso tem a mesma realidade que a voz e os dizeres de um papagaio. 

Estar diretamente com o que é — esse é o ponto certo. Sem esse posicionamento de um pensamento conflitivo, sem uma interpretação mental, é o melhor exercício para a quebra do ilusório mecanismo que sempre se repete, que é o eu. Ficar com o que se apresenta, independente se é de nosso gosto ou não. A VIDA É O QUE É, não é como o eu deseja. 

Quando não há resistência, há compreensão imediata. Nosso trabalho real não acontece numa base de disciplina, acontece de minuto a minuto. O despertar só ocorre aí e tudo está no lugar certo. 

A questão é saber estar consciente diante de todo desafio que se apresente. Não há nada mais a ser feito. Só estar de coração aberto, não mantendo o eu separatista. Tudo isso precisa ruir.


Satsang pelo Paltalk , 03 de agosto de 2011

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Trabalho acontece apenas em estar na Presença






Mais uma vez juntos no único lugar, e esse lugar é agora mesmo, aqui, onde tudo pode ser encontrado. Sejam bem vindos a mais esse encontro com esse vazio, esse espaço no qual essa realidade do mundo aparece. Esse espaço é aquele no qual a realidade da mente, do corpo e do mundo estão aparecendo. Nós estamos mais uma vez nesse espaço, mais uma vez sempre nesse espaço, o espaço do qual nós nunca saímos, aonde não existe separação, aonde sempre nos encontramos. É nesse vazio aonde tudo se levanta, aonde tudo aparece, esse é o único lugar, aqui e agora, o lugar da Paz, da Liberdade, do Silêncio, aonde a Verdade aparece e essa assim chamada ilusão também aparece.

Não há nada separado desse espaço, desse vazio. Ele engloba tudo. E de fato é maravilhoso estarmos aqui, de onde nunca saímos. Na Presença da qual nunca estivemos ausentes. Essa Presença que segura todo esse jogo divino, esse jogo dessa assim conhecida ilusão. Tudo é transparente nesse vazio, nesse espaço, nesse lugar. Nós estamos vendo o pensador, o “eu”, o “mim”, a “pessoa”, e isso tudo é só uma crença do próprio pensamento. Nada disso destrói a realidade dessa Presença sempre presente. É somente o pensamento surgindo, aparecendo, separando corpo, mente, mundo, inconsciência, consciência, ilusão, verdade. Nada disso pode destruir essa Realidade da Paz, da Liberdade, da Felicidade, do Amor presente.

Tudo que vocês de fato precisam aqui é constatarem Aquilo que está presente, e que nunca deixa de estar presente em meio a todas essas aparições. As aparições são só aparições. Isso que está sempre presente é esse vazio, é essa realidade divina, é a sua Natureza Verdadeira, que é Deus.

P – Se a coisa é aquietar-se, silenciar, ser presente, então não vale mais rezar, orar, mentalizar, praguejar para mudar uma situação de vida desagradável ou intolerável?

M – Aqui se trata de acolher, de abraçar, de não se separar daquilo que se apresenta, agradável e desagradável é só uma aparição já indo embora. Tudo está indo embora, tudo está passando. Já esse Vazio, essa Presença, esse Espaço, esse Lugar, essa Consciência permanece como Pura Bem-aventurança, Pura Alegria, em Pura Liberdade. É que a situação é que vocês dão muita credibilidade ao intelecto, e aí ele confirma estados emocionais, sentimentais, estados que aparecem aí nesse mecanismo. Então o intelecto confirma como sendo algo de alguém. Não tem alguém aí não. Isso é uma crença muito forte.

É só o Vazio mesmo, é só esse Lugar, esse Espaço. O corpo aparecendo aí, toda e qualquer sensação, qualquer sentimento, qualquer estado agradável ou desagradável, qualquer reza, qualquer mentalização, qualquer praguejar, qualquer não silenciar ou silenciar, qualquer aquietar-se ou não se aquietar. Tudo está passando mesmo. Quando lhe convido ao Satsang, eu lhe convido e lhe dou esse bem vindo. Eu digo para você: bem vindo a esse espaço de seu próprio Ser, o único lugar do qual você jamais saiu, aonde aparece a ideia de um mundo do lado de fora, de uma mente do lado de dentro. E você não está separado dessa ideia nem daquela. Você não é o pensador desse pensamento. Não existe essa verdade aí, a verdade da crença de um pensador. Isso é só mais um pensamento também. A crença de um pensador é só mais um pensamento.

E o mundo inteiro aparece, o universo inteiro se desdobra, surge. Você, como esse Espaço, esse Vazio, essa Presença, essa Consciência, está além de toda essa aparição.

P – Marcos, você tem afirmado que o único modo de acordar despertar é ficar perto de um Mestre em Satsang, ou seja, nenhuma prática, nenhum exercício, só isso, que tudo é muito simples. Mas então para quê tantos textos advaitas, tantas explicações dadas por tantos Mestres como Ramana, Papaji, Mooji, Bidi, e muitos outros, inclusive você?

M – É simples. Todas essas explicações dadas por esses Mestres são para o intelecto curioso enquanto ele está fazendo muito ruído. Quando o intelecto desaparece as perguntas desaparecem. Essas explicações nascem das perguntas desses intelectos. A ênfase de Ramana era o silêncio. A de Papaji era ficar quieto. A do Mooji é dar respostas a perguntas – mas são perguntas do intelecto.

P – Então tirando esse valor referido por você não há mais nenhum? Eles não tem mais nenhuma utilidade?

M – Eles quem? Os ensinamentos? Não. Os ensinamentos são não-ensinamentos. Esses ensinamentos tem o propósito de lhe mostrar a não necessidade de aprender. O propósito deles é descartar qualquer ideia da necessidade de novos ensinamentos.

P – Mas então ensinar a não ensinar é um ensinamento ou não?

M – Tudo o que posso lhe dizer é que Despertar é Ser, e Ser não sabe, não se interessa em saber nem tem o que aprender. Ou seja, tudo aqui se trata em desaprender tudo o que a mente acredita que aprendeu. Não serve para Aquilo que você já É. O Trabalho acontece apenas em estar na Presença. É um trabalho nesse mecanismo, nesse corpo-mente, é um trabalho de desprogramação nessa máquina, nesse organismo, de todo o condicionamento mental presente. Nenhum ensino pode fazer isso, só o desaprender pode abrir espaço nesse mecanismo para a coisa assentar aí, para esse Estado que já é você fora de qualquer construção intelectual.

P – A minha pergunta não é nesse sentido.

M – Tudo o que estou dizendo é que Ser não depende de ensino. Ser você já é. Todo ensino só acrescenta algo mais a essa formação meramente intelectual da personalidade. E personalidade aqui é sentido de separatividade.

P – Não há nada a fazer para desaprender?

M – Claro que há: estar em Satsang. Alguns passaram 30 anos próximos a Ramana, outros 40, e outros a vida inteira. Há caso de alguns que despertaram em 6 anos com Ramana. Teve um cara da América chamado Robert Adams. Ele esteve um dia com Ramana e foi suficiente. Apenas uma vez, e foi suficiente. Tem a história de um camarada que esteve com Nisargadatta, assistiu dois Satsangs, um pela manhã e um à noite, e também despertou. Já foi o suficiente. Mas foi ali. Despertar é uma ação dessa Presença nesse mecanismo. Não tem nada a ver com ensino, com prática, com métodos, com exercícios. Tem a ver com uma ação dessa Presença, dessa Graça, que acontece.

P – Como então ficar quieto, aquietar a mente?

M – Você não pode. Isso não é trabalho seu. Todo o trabalho do Despertar é dessa Presença, dessa Graça, dessa Consciência, que é o que temos em Satsang. Não há como aquietar a mente. Quem aquietaria? Que mente pode ser aquietada?

P – Então como ele nos dá essa Graça?

M – Ele não nos dá essa Graça. A Graça já está presente. Você não pode receber essa Graça, você não existe para receber essa Graça. A disposição de estar em Satsang já é uma disposição da Graça trabalhando aí. Não tem alguém para receber essa Graça, não tem alguém para lhe dar essa Graça. Apenas esteja em Satsang e receba, estando ausente. Em Satsang o sentido de separatividade vai embora, e isso é Graça, isso é Presença. Não acabei de falar que não há ensino? Não tem o que aprender, não tem o que ser ensinado. A recomendação que eu dou para todos é a recomendação de todos os acordados.

P – Tenho que estar ausente em Satsang para estar presente?

M – Sim, totalmente ausente. Se o seu ego estiver presente em Satsang não vai acontecer nada. Você só está presente em Satsang quando seu ego está ausente. Não adianta estar presente. Tem que estar ausente.

P – Como deixar o ego ausente então?

M – É o que estou tentando lhe mostrar desde o início. Você não pode fazer isso. Isso é um trabalho da Graça, do Mestre. Você só tem que trazer o corpo e relaxar. Se você não ficar quieto, você continua presente. Quando você está presente, você está ausente do Satsang.

P – O corpo vale alguma coisa?

M – Desperte sem corpo e depois me responda. Como você pode despertar sem corpo? O corpo é tudo o que você precisa neste momento para despertar. Mas é o corpo presente em Satsang, e não a mente egóica, e não o sentido de separatividade.

P – Então o espírito precisa do corpo?

M – Que espírito?

P – A Presença?

M – Todas as suas colocações são meramente intelectuais. Solte isso. Você só vai poder soltar isso quando estiver em Satsang, aí poderá estar ausente, estando presente.

P – Para isso estou aqui, para você me ensinar a soltar.

M – Estou lhe ensinando.

P – É um ensinamento.

M – Não, é um não-ensinamento. Porque o que eu digo é: a única coisa a fazer é ficar quieto. Toda essa intelectualidade desaparece em Satsang, quando o sentido do perguntador desaparece. É por isso que o ensino desaparece. A resposta dos Mestres, dos acordados, são dadas para o intelecto. Mas não servem para nada.

P – Podemos jogar todos os livros fora? Rasgar, queimar?

M – Para você ser o que você é, pode jogar tudo fora. Nenhum deles pode lhe ajudar a ser o que você já é. Eles não podem lhe dar o que você já tem. Não podem fazer de você o que você já é.

P – Um ego reage a situações baseada nos condicionamentos e memórias, e um acordado não reage, apenas responde a partir da Presença da não separatividade. Qual a diferença entre responder e reagir?

M – Nenhuma ação direta é uma resposta no sentido de algo vindo de uma reatividade. Então, aquilo que podemos chamar de resposta da Presença é ação. Na ação não há reatividade. Enquanto a mente, tudo o que ela conhece é reatividade, é resposta reativa. A ação nasce neste instante sem qualquer compromisso com qualquer resultado. Não há medo nela. Essa é a diferença. Enquanto essa assim resposta reativa, que é a resposta da mente, nasce da busca de um resultado, o que na verdade é medo. Não há qualquer planejamento. As coisas vão acontecendo.

Na verdade, toda ação é essa ação, a ação natural, a ação dessa Presença, a ação dessa Consciência. Não há alguém nisso sendo recompensado ou punido. As coisas simplesmente acontecem por uma ação dessa Presença. Tudo o que vocês precisam é dessa naturalidade de Ser. Por isso eu recomendo Satsang. Isso acontece por ressonância. O Trabalho é por ressonância. Na Índia eles chamam de uma ação da Graça do Guru, da Graça do Mestre, da Graça da Presença, da Graça Divina, que é a mesma coisa.

Paltalk transmitido no dia 10 de Janeiro de 2014

domingo, 19 de janeiro de 2014

Realização é Ser




Tudo o que precisamos já está disponível neste instante. Isso é a Graça nos aparecendo em suas múltiplas e variadas formas. E compreender isso é render-se a ela... Ou isso é feito agora ou o sofrimento persiste...

Isso é o real Satsang, o encontro com o próprio Ser que somos. Se alguém nos diz "eu sou e você não é", "encontrei e você não encontrou", "está aqui, não está longe", é a mesma ilusão que dizer "eu não sou ainda mas você já é", "eu não encontrei, mas você já encontrou", "está longe, não está aqui" ou "eu não preciso de nada disso".

Assim, podemos fazer todas estas afirmações verbais, intelectuais, ou sentimentais e estas colocações não têm qualquer importância. Aquilo que nasce da crença, ou dos sentimentos, são apenas crenças ou afirmações mentais que alimentam esse estado "sonambúlico" de ilusão.

Realização é Ser.

Não há tal coisa nesta realização como qualquer forma de separação entre coisas, situações, "pessoas", seres humanos, realizados, não-realizados, iluminados e não-iluminados, sábios e tolos, mestres e discípulos. É a vida acontecendo neste presente momento sem qualquer separação, nesta vivacidade, silêncio, paz, liberdade, e felicidade.

No entanto, isso não é verbal, mas algo existencial, tudo está no seu lugar certo, tudo fica muito claro, todas as perguntas desaparecem e também todas as respostas. É preciso ser suficientemente sincero consigo mesmo, até que sua própria visão, seja tão clara assim.

Isto requer auto-investigação, meditação e entrega a esta real natureza, do Ser que somos neste presente momento. Entrega ou não resistência é este relaxar em nossa real Presença, em nossa verdade inata, a isto presente agora, sempre neste presente momento, tenha isso a forma que tiver...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Paltalk Satsang - Não tem alguém quando há amor.



Temos aqui o propósito de descobrirmos, constatarmos Aquilo que somos, Aquilo que verdadeiramente nós somos, Aquilo que está por detrás, que é anterior à essa “pessoa” corpo-mente. Uma coisa que nós temos visto é a facilidade com que todos nós nos embolamos com essa coisa, com essas afirmações filosóficas ou esotéricas. Alguns afirmam categoricamente que nós construímos ou somos capazes de construir a nossa própria realidade. Quando olhamos para essa assim conhecida vida que temos, a impressão é que ela foi construída por nós, construída como resultado dos nossos pensamentos. Então, segundo essa base filosófica, espiritual ou esotérica, nossos pensamentos criam nossa realidade no mundo.
O que nós não percebemos é que essa assim chamada realidade de mundo dessa “pessoa” corpo-mente é apenas um sonho. E a ideia de uma identidade principal nessa realidade é ainda parte desse sonho. A única realidade não é a realidade do sonho, mas é a realidade aonde esse sonho acontece. Esse sonho “pessoa-corpo-mente-mundo”. Essa realidade é anterior à “pessoa”, é anterior ao corpo, à mente e ao mundo. É evidente que a sensação da mente é a sensação da criação de sua própria realidade, mas essa realidade é a realidade do sonho. É a realidade de uma pseudo identidade dentro dessa coisa. Isso também ainda é o sonho.
Esse sonho, ele tem a realidade que a mente produz, que o pensamento produz. Essa realidade que o pensamento produz, que a mente produz, é a realidade mental. Apenas na mente essa realidade é possível. Eu continuo afirmando que isso é apenas uma aparição fenomênica, uma aparição que aparece como uma brincadeira divina. Essa brincadeira divina será sempre um mistério, a única coisa que podemos falar sobre ele é que é uma brincadeira mesmo, uma brincadeira divina. Não há qualquer propósito nessa brincadeira. É o próprio divino, é a própria Presença, é o próprio Ser, é a própria Consciência Nela mesmo se expressando. Ela aparece como a substância e como a testemunha, como aquilo que é observado e aquilo que observa. Mas aquilo que observa e aquilo que é a testemunha se mantém como anterior a qualquer fenômeno, a qualquer aparição, a qualquer sonho.
Você é essa Presença. Ciente dessa Presença, o sonho é só um sonho. Não há qualquer realidade separada aí. A realidade “pessoa-mente-corpo-mundo” é o sonho nessa realidade que é você. Não há “corpo-mente-mundo” como algo separado dessa Consciência, dessa testemunha, dessa realidade. Assim sendo, você não pode na mente ser “alguém” criando a realidade para essa assim chamada “sua vida”. Essa “sua vida”, que é um sonho, não é você. Você é a Vida anterior a essa “sua vida”.
Sua Consciência, sua Presença, é anterior ao seu nome, ao seu corpo, à sua forma e ao seu mundo. É anterior a essa “sua vida”. A mente manifesta sua própria realidade, depois ela diz que é capaz de criar sua própria realidade. A mente no sonho dizendo ser o sonhador, dizendo ser “alguém” sonhando. A mente não cria nada. Ela confirma sua própria aparição. Termina dizendo que está criando sua própria realidade. Você não é “alguém” criando sua realidade de vida. Essa “sua realidade de vida” é uma produção da mente, isso não tem nada a ver com você. É só um fenômeno, só uma aparição. Se desidentifique desse fenômeno. Se desidentificar desse fenômeno significa não se confundir com ele.
O trabalho de autoinvestigação, de meditação e de entrega a essa Verdade que é a Consciência é o fim dessa identificação com a mente, que nada mais é que esse sonho “pessoa-mente-corpo-mundo” como “alguém” nisso. Então, a brincadeira do sonho continua, mas não há mais a ilusão de um sonhador criando sua própria realidade. Você não é “alguém” criando sua realidade. Você é a realidade livre desse “alguém”. Não há “alguém”. Essa realidade é Ser, Consciência, Deus, Brahman. Essa realidade é Sat-Chit-Ananda, como se diz na Índia. Essa realidade Sat-Chit-Ananda não é o sonho, não é uma realidade que o pensamento cria, que a mente cria, que a mente sonha.
P – O que é compaixão? O “eu” pode ser compassivo, solidário e fraterno?
M – A ilusão é a ilusão de “alguém” sendo alguma coisa. Quando a ilusão de ser “alguém” está presente, esse “alguém” pode ser qualquer coisa. Esse “alguém” pode ser violento, agressivo, medroso, piedoso, compassivo, solidário e também fraterno. Enquanto houver o sentido de ilusão de “alguém” na ação, esse “alguém” pode ser qualquer coisa.
Ser é Consciência, Ser é Presença. A natureza do Ser é Amor, é Paz, é Silêncio, é Verdade, é Felicidade. É onde entra essa assim chamada compaixão nisso. Compaixão é só uma palavra. O Amor não trata com pessoas. Para o Amor, que é Consciência, só há Consciência. E essa Consciência se reconhece. A Graça de um Mestre vivo, que alguém chama de compaixão é a pura expressão desse Amor que é Consciência se reconhecendo. Isso é compaixão. Mas não é compaixão pelo “outro”. Isso é Graça, isso é Amor. A Presença é Amor. Esse Amor em expressão é Graça, é Consciência.
P – A Presença é Amor, mas não amor por “alguém”?
M – Não. Amor é a natureza desta Presença, que é o cerne, o coração de qualquer experiência. O coração, a essência, a natureza desse encontro aqui, essa é uma experiência. Não há um experimentador dentro dela, há só o experimentar, não é o experimentar de “alguém”, não é a experiência de “alguém”. A essência desta experiência – e essa é a experiência única – é amor, não há “alguém” nisso. A experiência dessa Consciência é amor. Amor não é prazer, não é sentimento, não reconhece direção, não vem de um ponto em direção a outro ponto. É essa onipresença, que é Consciência, sem forma, sem objetos, sem imagens. Não há “eu” e “você”. Não há ele, ela, nós, eles.
A questão é que nós estamos sempre reduzindo qualquer experiência a essa crença de uma identidade por trás dela. Então, há sempre o sentido de “alguém” nessa coisa, “alguém” capaz de amar, “alguém” capaz de receber esse amor. Não tem “alguém” quando há amor. Quando há amor, o sentido de “alguém” é impossível. Quando há o sentido de “alguém” amando, não há amor. “Alguém” é sempre uma crença do pensamento por detrás da experiência do prazer, da alegria, da satisfação, do conforto, do carinho, que é o que nós chamamos de amor por “alguém”.
É como a liberdade, é como a paz. Não tem “alguém” na paz. Quando a paz está presente, o sentido de “alguém” não pode estar presente. Quando surge o sentido de “alguém” temos a crença da paz. A paz é impessoal, o amor é impessoal, a liberdade é impessoal. É a natureza da Consciência, é a natureza do Ser, é a natureza da experiência, sem o experimentador nela. Eu falo dessa experiência agora, sem qualquer descrição, relato, sem qualquer ideia sobre isso, sem qualquer avaliação, comparação, sem qualquer pensamento. Essa Presença, que é Silêncio, que é Paz, que é Consciência, que é o cerne dessa experiência, é Amor. Não tem “alguém” nisso.
Não tem “alguém” em nada, em nenhuma parte, nenhum lugar. Só tem Ele, Aquilo, a Presença.
P – Estou achando a Verdade tão subversiva, caótica, anárquica e louca...
M – Perfeito. Estou perfeitamente de acordo com você. Não há nada tão subversivo, caótico, anárquico e louco quanto a Verdade para a mente. É para a mente que a Verdade é isso. Ela simplesmente é o que é. Mas é natural que ela pareça assim. É uma bela aproximação. Se pudermos nos livrar da mente, estamos diante do que É. E o que é pode ser qualquer coisa. Pode ser caótico, pode ser anárquico, pode ser louco, pode ser subversivo. Mas isso são só aparições.
P – Como olhar para a realidade como você olha, Marcos?
M – Desapareça . Não tem outro jeito. Enquanto houver a ideia de que você está aí, esse olhar é impossível. Esse olhar já é seu, o problema não é a falta desse olhar, o problema é não confiar nesse olhar por se acreditar ser capaz de olhar. A vida se apresenta exatamente assim, aparentemente caótica, anárquica, louca e subversiva. Mas se podemos deixar essa própria ideia de aparição de lado, ficamos simplesmente com o que é, e esse não é o olhar de uma “pessoa”, é o olhar dessa Consciência, dessa Presença, que é Liberdade, que é Paz, que é Amor, que é Felicidade.


Paltalk transmitido no dia 13 de Janeiro de 2014

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