terça-feira, 26 de novembro de 2013

SATSANG – O EU É A ILUSÃO DE TODO ESSE CONTEÚDO.





Um professor universitário foi visitar um mestre em Kioto, foi visitar um Mestre zen. Ele na intenção de ser aceito pelo Mestre, era um homem muito culto, que já havia praticado durante muitos anos, em razão disso, para impressionar o Mestre, ele começou a contar suas façanhas; durante quanto tempo ele havia praticado, as escrituras que ele já havia lido, o conhecimento que ele já tinha e as “profundas perguntas” que ele tinha para o Mestre. E começou a relatar isso tudo. Sua intenção era impressionar o Mestre e assim ser aceito rapidamente. 

Enquanto o Mestre ouvia, preparava o chá, o chá já estava pronto e o Mestre começou a despejar o chá na xícara, enquanto o visitante contava seus feitos, sua experiência, seu conhecimento. E o Mestre começou a despejar o chá, foi despejando, despejando, despejando... A xícara agora estava meia, estava cheia e agora estava transbordando. Naquele momento, aquele professor levantou a mão e disse: - Mestre, olhe aí!  Interrompeu a sua fala e disse: - O que está acontecendo? Já está cheio demais, já está muito cheio, já não cabe mais nada.

Enquanto que a xícara transbordava, o Mestre parou, olhou pra ele e disse: - É assim mesmo que você vem a mim, é assim mesmo que você está, não cabe mais nada, não precisa de mais nada. Essa é a essência daquilo que tratamos.

Você está muito cheio, não precisa de mais nada.

A meditação não é uma prática é a constatação do vazio.

O silêncio não é a ausência do som, é esse ilimitado espaço aonde o som acontece.

Ser não é uma prática, uma realização. Ser não é um fazer, é essa entrada sem movimento, nesse espaço no qual tudo acontece.

Nada é acrescentado, nada precisa ser tirado. A xícara sempre está vazia. A impressão de estar cheia demais, transbordando sem caber mais nada é a ideia presente que prevalece como se houvesse dentro dela um volume que, impedisse de algo mais chegar ou que precisasse ser retirado. O que nós temos de paradoxal aqui, é o sentido, o conteúdo, o significado de ser alguém, é como esse ilusório conteúdo da xícara transbordando, não cabe mais nada, mas isso é uma ilusão, a xícara sempre está vazia.

Fazendo curta, uma história longa, você não precisa de todo esse peso, da ilusão desse conteúdo que lhe causa, lhe traz a sensação de ser alguém.

Eu chamo isso o sentido de autoimportância, o sentido de uma existência separada, de alguém pondo e dispondo, colocando e retirando, fazendo e não fazendo, que pode e que não pode. Você se aproxima dessa visão com esse tipo de atitude, a atitude daquele que, além de todo esse ilusório conteúdo presente, ainda está disposto a acumular mais e mais e mais.

E aqui se trata exatamente de ver a ilusão disso, a ilusão de todo conteúdo, a ilusão desse sentido de alguém presente, sendo uma entidade dentro do corpo, vivendo a vida. É impossível viver a vida, não há esse alguém.

Você é essa xícara vazia de pura Consciência, chamamos de Presença, chamamos de Vida, sem conteúdo. É a Vida como Vida, sendo Vida na Vida, sem alguém nisso.

Não é de mais experiência, não é de mais conhecimento, não é de mais vivência que você precisa. Você não precisa, você não existe como acredita existir, você não vive como acredita viver, você é Vida.

Você é Consciência! Você é a Presença! Você é a xícara vazia, sem começo nem fim, sem nascimento ou morte. Tudo mais só parece ser assim, naquilo que nunca aparece. Aquilo que nunca aparece comporta aquilo que aparece. E aquilo que aparece só parece ser assim, mesmo assim, ainda não é.

O corpo parece está aí, a mente parece está aí, você como uma entidade separada, parece está aí, o mundo como algo separado do corpo também parece está aí. Estamos nessa sala, nesse espaço, isso parece ser assim, na verdade esse espaço está em nós, esse corpo está em nós.

Tudo que é percebido pelos sentidos, não é percebido do lado de fora, é percebido naquilo que Eu Sou agora, aqui. Não há lado de fora, não existe nada sendo percebido do lado de fora.

Agora isso que percebe, que é Consciência, que é Presença, que é Ser, que é Vida, que é Você, está sempre vazio, é sempre este espaço silencioso.

Nosso convite sempre é esse para você: “Permaneça em seu estado natural”.

Não se preocupe com esse espaço, ele jamais pode ser preenchido, solte a ilusão de buscar preenchê-lo com alguma coisa, alguma coisa do lado de fora, conhecimentos, experiências, práticas espiritualistas, espirituais, todo tipo de coisa explicável, conhecida. Permaneça neste centro, nesse lugar, como pura Consciência, como puro Ser.

Seu olhar é esse, seu falar é esse, seu sentir é esse, você se desocupa, percebe esse desocupado espaço de Presença, quando não há nenhum sentido de eu, de pessoa. Isso é meditação.

É quando você está livre de qualquer identificação, e aqui eu chamo identificação, essa coisa de se embolar com a ilusão desse conteúdo. O conteúdo ilusório da mente. Esse ilusório conteúdo chamado conhecimento, experiência, vivência. Largue tudo isso, se volte para o natural, para aquilo que permanece simples, jamais tocado, jamais violado, jamais modificado.

Isso não pode ser diminuído ou aumentado, isso não pode nem mesmo ser lembrado, isso já É.

Você está nesse encontro, para essa “imersão”. A palavra imersão aqui, no sentido desse relaxar em seu ser, em seu coração, desse vazio, desse silêncio, nessa Presença, nesse não conteúdo, nesse desconhecido.

O conteúdo é o conhecido, é a experiência, são as vivências que pode ser relatado, explicado. Você em seu ser é esse espaço, é esse silêncio, é esse vazio.

O amor não tem conteúdo. A verdade não tem conteúdo.

A liberdade não é a liberdade de algo ou de alguém, é a liberdade dela mesma.

Todas as palavras são dualistas, nos colocam a possibilidade de algo contrário. E aqui estamos falando de algo fora, fora da dualidade, de algo fora do conhecido, de algo fora da experiência, fora do que possa ser relatado.

Sua xícara está muito cheia, não cabe mais nada, mais nada.

É isso!

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