sábado, 14 de setembro de 2013

Satsang - A ilusão do desaparecimento do "eu" (2)


Vamos dar um exemplo para você: a dor de perder o pai, ela tem que ter uma história. E para cada mecanismo corpo-mente é uma história. Uma família, por exemplo, quando alguém morre, aquele "alguém" que morreu, para os outros "alguéns", os outros “eus”, para as outras "pessoas" daquela família, aquele "alguém" que morreu tem uma certa importância.

Então, cada um que fica sofre a dor de uma forma peculiar, diferente, singular. Não é assim? Ou a dor é a mesma para todos? Todos sabemos que não. E por que não é? Porque o investimento na imagem que cada um tem do outro é um investimento diferente. É simples!

Muito investimento numa imagem, muita dor quando ela é arrancada de você. Pouco investimento numa imagem, pouca dor. Nenhum investimento, nenhuma dor. A família do vizinho ninguém chorou. Numa família de cinco, um faleceu, ficaram quatro e, dos quatro, cada um sentiu de uma forma. Mas a do vizinho ninguém sentiu nada.

O que tiramos daí como lição? A lição é: o “eu” é uma fraude, uma ilusão. São só imagens, investimento em imagens. Imagens são apenas histórias, histórias que cada um conta para si mesmo. Cada um quem? Quem conta pra si mesmo? Imagens!

O “eu” vive de histórias, ama histórias, o “eu” sem histórias não é “eu”. O que importa é ser alguém e ter uma história, e carregar esse sentido de existência. E nada melhor para trazer sentido à existência desse alguém que o sofrimento. O sofrimento é a jóia mais desejada de todos. A jóia mais desejada de todos é a jóia do sofrimento. Porque o sofrimento confere o sentido de uma identidade muito forte, energiza você, provoca sensações muito fortes, lhe dá um sentido de importância muito grande.

Nós confundimos esse sofrimento, embolamos esse sentido, esse sofrimento, embolamos esse sofrimento com uma outra sensação, a sensação de prazer. Então, há um grande prazer na dor, há um grande prazer no sofrimento. O prazer do sofrimento é o sentido de existir como alguém importante, como alguém sensível, como alguém capaz de sofrer "pelo outro".

Que outro? Quem sofre? Por quem? Como nesse exemplo, quando alguém morre, vocês acreditam que estamos chorando pela partida do outro? Não é verdade, estamos chorando por nós mesmos. Essa falta do outro é uma imagem arrancada de nós. O outro não é importante para o “eu”, para o “mim”. O outro não tem qualquer importância. O outro é um instrumento de prazer. O outro é a imagem do prazer, a imagem do preenchimento, é a imagem da satisfação, é a imagem que confirma esse “mim”, esse “eu”.

Acompanha isso? Está claro isso? Essa dependência do prazer da imagem é o que chamamos de apego. Tudo isso está nessa estrutura da mente egóica, nessa falsa identidade que acredito ser. Posso deixar solto, posso deixar livre o "outro?" Em outras palavras, posso viver sem imagens? Não temos imagens só de pessoas, de outros “eus”, temos imagens também de objetos, não é assim? Ou nunca observaram?

Aquela bandeja de prata, aquele quadro, aquele tapete, aquela casa, aquele lugar, são imagens. Imagens que confirmam o sentido de uma identidade presente aqui, fortalecem esse sentido de uma identidade aqui. Esse apego... É apego a expressão, o nome que damos quando estamos agarrados a alguém, agarrados a um lugar, agarrados a um objeto, agarrado a alguma coisa.

Aquilo agora é parte da estrutura dessa falsa identidade. Ficou claro isso? Hein? É bem assim? Não é? Aonde está tudo isso acontecendo? Ou parece estar acontecendo - porque não está acontecendo. É uma história, como um filme de ficção científica, algo imaginado. A mente é isso, viu? A mente é um movimento, uma ilusão de extrema gravidade, sim, de extrema gravidade, para essa pseudo identidade, e só para essa pseudo identidade.

O Universo, a Existência, o Cosmos, não sabem de nada disso. É por isso que os acordados chamam isso de sono. Nós chamamos eles de acordados. Chega um momento, fica muito claro que algo está errado, não pode estar errado com eles, está errado conosco. Então, nós estamos dormindo e eles acordados. Então, esses acordados dizem: Vocês acreditam que estão dormindo e nesse dormir vocês estão sonhando. E o sonho é esse. O sonho requer um sonhador. Primeiro dormir, depois sonhar. E, nesse sonhar, o sonhador.

Sono, sonho, sonhador. Sono, sonhador e sono. O sono do "eu". Por isso não falamos em desapego. Quem desapega? Só outro sonho. O sonho do desapego. O sonho do apego e o sonho do desapego. O sonho de estar dormindo e o sonho de acordar. Falamos em realização divina, realização de Deus, despertar, iluminação. Mas aqui se trata basicamente de ficar livre simplesmente dessa crença, que é a crença de uma entidade, de uma identidade separada, ou seja, significa ficar livre dessa ilusão, dessa hipnose, dessa mágica, dessa crença-sentimento, desse sentimento-crença, “eu”, “mim".

Então essa Liberação é a liberação da ilusão de não estar liberado. É a liberação da ilusão de ser alguém, alguém no corpo se relacionando com o mundo fora do corpo, e um Deus acima desse mundo. É aqui que está a coisa toda.

Vocês acumulam dentro desse sonho, da ilusão desse sonho, todo tipo de coisa que fortalece ainda mais o sentido de alguém. Todo tipo de crença, filosofia, religião, ensinos, todo tipo de estudo, todo tipo de... Vocês não querem aprender culinária para aprender a fazer uma comida apreciada, saborosa. Vocês querem aprender a ciência dos maias, dos magos, dos místicos.

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