quarta-feira, 10 de julho de 2013

Satsang - O aparecimento da ilusão do eu - I





Todos nós nos vemos atrapalhados com isso, com esse sentido do "eu". A questão é: como isso aparece? Como é que isso surge?

Há algo muito direto que pode ser observado de uma forma muito direta, e que claramente explica isso.

Desde a infância nós temos passado por algumas experiências, e algumas experiências, elas criam sensações, elas manifestam sensações, elas explodem sensações – sensações que acontecem no corpo – algumas são prazerosas e outras não. Nós chamamos de "prazerosas" aquelas que conferem prazer naturalmente, [e] as que não, são as sensações dolorosas, essas desconfortáveis.

Geralmente isso vem associado já a uma ideia – a ideia primeira, que já se estabilizou em nós – a ideia de um nome. Então, nós já sabemos o nosso "nome". O nosso "nome" é bem único – algo exclusivo. São quando essas sensações surgem a esse corpo que tem esse nome... E aí a gente aprende o pronome – o pronome "eu". A gente aprende a expressão "mim", "mim mesmo". Então, quando acontece [algo] a esse corpo, acontece a "mim".

Tudo é meramente uma questão de "sensação acontecendo". E o que são essas sensações? Uma resposta do corpo a uma experiência neural – esse mecanismo nesse organismo. Um beliscão, é dor. Uma massagem, um carinho, é prazer. Um prazer á "mim". Uma dor á "mim". É muito simples: está doendo, ou é prazeroso – "Quem sentiu o prazer? Eu"; "Quem sentiu a dor? Eu"; "Quem é que está triste agora? Eu"; "Quem está feliz agora? Eu" –, e aí o corpo se torna um refúgio para uma crença – a "crença do eu" – uma crença que se confirma com uma sensação. A sensação de dor confirma o que aconteceu a "mim", e não a "você", então, "eu sou uma entidade separada de você, porque eu senti, e você não sentiu". 
 
É tão simples como o sentido de separação – que é o sentido do "eu" – surge nesse mecanismo, nesse organismo. Então, eu olho a minha volta e fica claro que "nada está sentindo", "ninguém está sentindo o que eu estou sentindo", então, eu me torno uma "figura importante" – central. 
 
"Eu tenho que me proteger sempre da dor, e sinto quanto o prazer é gratificante, e aí começo a buscar o prazer, e começo a afastar a dor. Então, tudo o que me causa dor, eu procuro afastar. Tudo o que me causa prazer, eu procuro trazer para perto de mim. Então, com o passar dos anos, eu começo a ser afagado: recebo elogios". Isso causa uma impressão também, uma forma de sensação também neural – não tanto física, a princípio, ou parece não ser tão física, mas daqui a pouco, eu começo a descobrir que o sistema, esse sistema em "mim", consegue transformar uma simples palavra associada á esse sentido do "mim" a essa "crença", esse "mim" – numa sensação também – numa sensação de prazer, então, "eu amo ser elogiado, reconhecido, [mas] também de uma forma, eu começo a ser ferido, também. Então, eu me sinto ferido; eu também me sinto magoado; eu também me sinto ofendido quando 'falam mal de mim'". 
 
Esse "mim" agora é uma "imagem refugiada no corpo", tendo uma confirmação dia após dia, ano após ano – uma confirmação de crença e de sensação. Então, os "sentimentos", as "emoções" – qualquer uma dessas "respostas" nesse corpo-mente em "mim", são fortalecidas. Essa crença já está presente "abalizada", robustecida, fortalecida vez após vez... Após vez... Após vez.

O mundo a minha volta só faz uma coisa: é confirmar mais e mais, que estou cercado de "eus", cercado de "pessoas". A palavra "pessoa" é um outro nome para "histórias de eus"; uma "pessoa" significa "um 'eu' com uma história para contar". Então, nós temos "pessoas" [em nós]: são grupos de "eus" associados com ideias comuns, desejos comuns, crenças comuns. E assim prossegue essa assim chamada "minha vida" – a vida desse "mim". É simples.

Agora vamos ver como fazer um reverso disso, como, pela investigação, a gente pode ver que não é real. Toda "sensação" está presente, mas ela não necessita desse amparo – do amparo de uma identidade por trás da sensação. Então, o que fazemos juntos, investigando isso, olhando para isso, o que nós fazemos? Ficamos cientes do que acontece. Então vamos lá: 
 
O que de fato acontece? Quando alguém elogia você: a quem está elogiando? Quando, como alguém critica você: a quem está criticando? Pois eu digo: [é] uma crença. Essa crença é o "mim mesmo". Essa crença é o "eu". Esse "eu" tem um nome e uma forma, e esse nome e essa forma é só uma "imagem". Se muda o nome (já não estou falando de "mim", estou falando de outro "mim", de um outro "eu") então isso não me ofende, não a "mim", então, eu passo a bola para outro "mim", que fica ofendido. Se alguém elogia com um outro nome, [isso] se refere a outra pessoa, não há mim, então eu fico triste, porque "o elogio não veio para mim", ou seja, não veio para essa "imagem [sobre mim]". Então, na verdade o quê que nós temos? Um jogo de imagens. Quem é você? Uma crença, uma imagem.

Então, um aspecto do "eu", é o aspecto psicológico – esse aspecto da imagem. E o outro aspecto do "eu", é o aspecto físico. Esse aspecto psicológico se reflete nesse aspecto físico do "eu", então, o prazer sentido, ele é físico aqui; a dor sentida, ela é física aqui. Quando ela [a sensação] aparece aqui em forma de tristeza, de depressão, de angústia, de ressentimento, de mágoa – é uma sensação desconfortável, de "não prazer", mas o que vale para uma sensação assim, vale para uma sensação de prazer. O que é essa "sensação"? O que é esse aspecto físico desse "eu"? [É] apenas uma vibração no mecanismo, no organismo, que a gente chama de "sentimento", que a gente chama também de "emoção" – é uma sensação.

Se a gente entrar mais fundo nisso, nós vamos descobrir o que? É só uma sensação de prazer ou de dor. É só uma sensação sem uma "entidade" nessa sensação. Essa "entidade" nessa "sensação" é só a crença de alguém especial no corpo – alguém que tem um "nome", que tem uma "imagem". Uma "imagem" e um "nome" é alguém chamado "fulano", que é esse "mim", que é esse "eu". O que nós temos de verdade? [Temos] uma vibração do sistema, uma vibração nervosa, uma vibração também neural – prazer ou dor – a crença de uma "entidade separada dentro do corpo". E o que é o corpo? A história [da "imagem do mim"] fortalece isso.

Pergunta para você: "sem um nome, sem a imagem [de ser esse corpo, essa pessoa], sem a história a ser defendida, o que fica?
Como alguém pode ser ferido? Como alguém pode ser magoado? Como alguém pode ser elogiado?É necessário uma "imagem". É necessário um "nome". É necessário uma "história". É necessário "alguém" refugiado dentro do mecanismo, dentro desse corpo se confundindo com esse processo de sensações. 
 
Eu não estou dizendo que a sensação deixa de vir, deixa de aparecer. Esse mecanismo [corpo-mente] está perfeitamente funcionando assim, com sensações.


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