segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Paltalk Satsang - A Desconstrução de um mundo pessoal e imaginário



Olá pessoal, muito boa noite! Que grande oportunidade, mais uma vez de estarmos juntos, está aí, estamos diante de uma grande oportunidade. Esse encontro, ele se apresenta como algo de fato maravilhoso para cada um de nós. É esse momento único, momento da auto-investigação, o momento de nós refletirmos, não analisarmos, tiramos conclusões, ou aceitarmos intelectualmente aquilo que é dito neste encontro e sim um momento de refletirmos juntos acerca desses assuntos aqui tratados, descobrindo que eles apontam para essa mesma e única direção que é a direção da verdade acerca de nós próprios, daí a importância de estarmos nesse encontro, daí a importância de estarmos juntos.

Sempre damos uma dica e a dica é acompanharmos essa fala, com essa inteireza do nosso coração, inteiramente, completamente voltados para isso que está acontecendo aqui nesse instante. Esse ouvir com apreciação, esse ouvir com a disposição e essa disponibilidade que torna possível a compreensão, compreensão é algo diferente do entendimento. O entendimento é algo parcial, o entendimento pode ser apenas intelectual. Sem um efeito direto sobre cada um de nós, enquanto que a compreensão é algo muito mais elástico, muito mais amplo, algo muito mais profundo, algo que tem um efeito muito mais significativo para cada um de nós. Então nós queremos, nos aproximar nesse encontro, dentro desse encontro, para estarmos receptivos a esta voz, receptivos a essa fala, nesta sensibilidade de ouvir, com o coração, para que aconteça essa coisa real, essa coisa bonita, essa coisa da compreensão.

 A importância disso está no descobrimento desse posicionamento ilusório de vida que temos tido até hoje e que nessa imediata compreensão, pode ser completamente desfeita. uma ilusão desfeita pela compreensão, pela compreensão daquilo que somos. Assim nós estamos juntos, exatamente com esse propósito, o propósito de compreendermos, e não de intelectualmente entendermos aquilo que estamos tratando aqui, termos um mero entendimento intelectual e depois sairmos daqui dizendo: "realmente eu entendi bem!"... Aqui não se trata de entendimento e sim de compreensão. Me permitam mais uma vez tratar daquilo que nós consideramos aqui fundamental, fundamental é a compreensão dessa estrutura psicológica de cada um de nós; fundamental é a compreensão da estrutura do pensamento na esfera da Consciência, no espaço da Consciência.

A maioria dos seres humanos, não tem atentado para isso, para essa compreensão acerca deles próprios. Essa falta de visão sobre si mesmo faz com que o ser humano assuma uma vida "pessoal" e essa vida "pessoal", na maioria das vezes é uma vida completamente perdida nessa prisão que é a ilusão desse mundo subjetivo, o mundo dos pensamentos. Nós queremos dizer aqui neste encontro, nesta noite, que o mundo que temos vivido, esse mundo em que nós estamos vivendo, ao menos a maioria assim está vivendo, esse mundo "pessoal" é um mundo puramente subjetivo e essa grande maioria, que é a maioria das pessoas, por viverem completamente presas a esse mundo subjetivo, a esse mundo dos pensamentos, é o que nós geralmente chamamos de identificação com os pensamentos — estão vivendo fora da realidade, fora da vida real, fora do mundo real.

O mundo como nós o conhecemos é puramente subjetivo, por estarmos profundamente presos e identificados com esse movimento interno da Consciência, que é o movimento do pensamento que acontece sem uma exata compreensão, sem uma exata percepção desse mesmo movimento.  E o nosso interesse nesse encontro é investigarmos isso; é descobrirmos que a grande maioria das pessoas estão profundamente perdidas dentro desse mundo subjetivo e esse mundo subjetivo para a grande maioria é um mundo de pensamentos negativos, de imagens negativas, de conceitos mentais negativos e, assim sendo, a grande maioria vive em uma condição profundamente deplorável de grande infelicidade.

O que predomina na vida da maioria das pessoas, nessa vida subjetiva delas é exatamente essa infelicidade, a infelicidade da ansiedade, a infelicidade do desespero, a infelicidade da depressão, a infelicidade da angústia, a infelicidade de toda forma de sentimentos negativos. Assim tem sido a vida da maioria das pessoas. Isso acontece em razão, dessas imagens internas, desses quadros internos, dessas falas internas, desses diálogos internos, que temos dentro de nós mesmos, criando assim esse mundo subjetivo, um mundo onde estamos perdidos, confinados, dentro dessa subjetividade, completamente contraídos, retraídos, não há expansão, não há liberdade, não há relaxamento, não há serenidade, não há tranquilidade. Em lugar disso, nós temos muitos sentimentos desesperadores e assim nos sentimos,  sem espaço, sem alternativas, sem qualquer saída, e isso é muito, muito desesperador.

E nós queremos nesse encontro, descobrir um pouco sobre isso. Se aquilo que conhecemos por mundo que assim se apresenta a cada um de nós, se de fato esse mundo tem realidade, e nós aqui estamos nesse encontro para discutirmos sobre isso, para questionarmos tudo isso; nós aqui estamos dizendo nesse encontro que esse mundo subjetivo, estamos perdidos dentro dele, por falta de uma investigação, de que esses diálogos internos, essas falas internas, essas imagens internas, esses quadros internos, essa modalidade de visão interna, acontecendo de forma subjetiva, isso é algo que pode ser visto, percebido, separado daquilo que sou. Por não conseguir isso, estou identificado com isso e tudo que sinto é exatamente isso, mas isso não é a realidade, isso é apenas um padrão condicionado, isso é apenas um padrão aprendido, isso é apenas um padrão adquirido ao longo de todos esses anos, algo que imita um padrão geral, algo que imita um padrão comum a minha volta, porque, o que falta, é a compreensão dessa realidade que sou, que está completamente destacada desse padrão, destacada desta ilusão desse mundo subjetivo com o qual eu tenho me identificado.

Assim sendo, o "auto-conhecimento", é disto que nós tratamos aqui neste encontro, aponta exatamente para esse descobrimento, o descobrimento de minha real natureza, que não está perdida nessa identificação, que não está absorvida nessa subjetividade, na subjetividade desse mundo mental. O que estamos dizendo nesse encontro é que há uma realidade é a falta dessa compreensão da realidade de minha real essência, de minha real natureza, faz com que no lugar dessa realidade eu esteja vivendo dentro de um mundo imaginário, de um mundo de conflitos,  de um mundo de medos, de um mundo de ansiedades, de um mundo de desespero, de um mundo de depressão, de um mundo de aflição, de um mundo onde sinto um sofrimento enorme, um enorme peso de tristeza cortante. E esse mundo é o mundo imaginário, embora, ele pareça muito real, porque envolvido nisso nós temos sentimentos e nós temos emoções, — algo muito forte acontecendo em razão dessa identificação, dessa incompreensão de minha real natureza.

Percebam o que estamos dizendo aqui senhores, nos acompanhem com muita calma... Nós estamos questionando a realidade desse mundo subjetivo, estamos dizendo que esse mundo assim como nós temos vivido, e estamos vivendo e estamos vendo ele  acontecer é algo imaginário. É exatamente esse o mundo "pessoal", é exatamente esse o mundo da "pessoa", o mundo dessa "entidade separada", o mundo desse sentido de um "eu", de "alguém".

A realização é aquilo que há de mais extraordinário para cada um de nós, porque é o descobrimento desta realidade, da realidade da vida, da vida de fato como ela é e não como o pensamento tem produzido dentro dessa subjetividade, dentro de cada um de nós. O fato é que nós temos dentro de cada um de nós, um movimento interno acontecendo, um movimento de pensamentos, sentimentos e emoções e se isso não é compreendido, em seu lugar real, nos perdemos dentro dessa ilusão de identificação com esse mundo subjetivo e, quando isso acontece, esse sentido separatista de um eu aflora e retira dessa identificação uma vida própria, uma vida particular, uma vida subjetiva, essa vida assim chamada "vida pessoal", essa assim chamada "vida individual", no sentido de estar separado de outros indivíduos, de outras pessoas e também do mundo em volta dele, ou em volta dela, em volta dessa pessoa. E nós estamos dentro desta beleza que é o descobrimento, o descobrimento da ilusão disso tudo, da ilusão desse mundo imaginário, para a constatação desta vida real, desta vida onde estamos diante de um mundo novo, de um mundo que não está mais baseado no pensamento, de um mundo de simples observação direta, nada mais subjetivo, mas de perfeita e plena objetividade, onde a vida é o que é, onde há uma quebra completa com essa identificação interna, psicológica, condicionada.

Isso significa a liberdade desse processo, isso significa a vida na Consciência e não mais na mente, nessa prisão de subjetividade onde através desses filtros, o filtro do julgamento, da comparação, do gostar e do não gostar, do temer, do desejar, do julgar, criticar, avaliar, onde tudo isso termina, onde tudo isso acaba completamente e esse sentido particular, próprio, isolacionista, auto-defensivo, auto-protetor, exclusivista, desse sentido de uma identidade separada, desaparece completamente. É evidente que quando isso desaparece esse sentido de ilusão que é essa criação desse mundo subjetivo, também desaparece.

Nós sabemos que isso soa muito estranho para aquele está ouvindo, de repente, isso pela primeira vez. Mas, se você observar bem, você vai perceber isso comigo... O fato de estarmos presos ao modo, a uma maneira inconsciente de pensamento dentro de cada um de nós, somos vitimados por esses próprios pensamentos, eles estão sempre criando ansiedade, medos, preocupações, desejos, mágoas, rancores, ressentimentos... Eles estão sempre formulando uma grande quantidade de negatividade com esses respectivos sentimentos juntos com esse pensamentos negativos, produzindo toda sorte de sofrimento dentro de cada um de nós, toda sorte de conflito dentro de cada um de nós... A mágoa, a tristeza, o sentido do abandono, essa contração, essa falta de liberdade, tudo isso nós sabemos, tudo isso nós conhecemos. E nós estamos aqui, mais uma vez neste encontro investigando isso tudo, tentando juntos compreender diretamente isso.

Não nos basta intelectualmente entendermos isso, precisamos compreender isso. Essa compreensão de que tudo isso acontece no campo da mente, na esfera do pensamento, do sentimento e da emoção e isso está dentro do campo da Consciência: a Consciência em si destacada de todo esse processo, a Consciência em si como nossa real natureza, a Consciência em si como real testemunha, no qual tudo isso acontece, no qual tudo isso aparece e também desaparece, esta compreensão nos traz uma direta libertação. Isto é o que nós chamamos de auto-conhecimento, conhecimento de nossa real natureza. O problema é que por muitos anos não nos falaram sobre isso, ninguém nunca nos apontou isso. Ninguém nunca nos mostrou que o pensamento acontece como algo separado daquilo que sou.

 Durante todos estes anos tenho me identificado com esses pensamentos e isso criou esse mundo subjetivo, e estou perdido dentro dessa subjetividade e vem agora alguém e nos aponta e diz: "Olha assim como você pode contemplar a sua mão, os seus braços, o seu corpo, isso é sinal de que suas mãos, seu corpo, não é você porque pode ser visto por você; então, você é esse que contempla suas mãos, seus braços e seu corpo. Da mesma forma, diante do espelho você contempla seus olhos e você sabe que não é os seus olhos, você é aquele que está por trás dos olhos e que contempla seus olhos, suas mãos, seus braços, seu corpo. Da mesma forma você contempla os seus pensamentos, você pode contemplar os seus sentimentos; ao mesmo que sente você percebe eles. Assim como as emoções e aquilo que você percebe não pode ser você, você é aquele que percebe, você é aquele que contempla.  Se há tristeza, a tristeza está presente, mas a percepção da tristeza também. Se há pensamentos, os pensamentos estão presentes mas a percepção dos pensamentos também. Assim, você não pode ser aquilo que você percebe. Você é essa percepção, você é a percepção dos pensamentos negativos, você é essa percepção dos sentimentos, você é essa percepção das emoções, você é a percepção desse mundo subjetivo. Então você é algo separado disso. Você é essa Consciência que percebe, essa mesma Consciência que sabe ser a substância e também a testemunha.

Nós estamos juntos olhando isso, descobrindo isso juntos. Nós estamos lhe convidando a se desidentificar desse mundo subjetivo porque você é essa Consciência que testemunha esse mundo subjetivo. Você não é o pensamento, você não é esse movimento do pensamento, você é aquilo, você é isto no qual o movimento do pensamento acontece, no qual os sentimentos acontecem, as emoções acontecem. Repare que os pensamentos, os sentimentos, as emoções aparecem e desaparecem naquilo que é você, que testemunha tudo isso. Pelo fato de você não ter sido informado, de nós não sermos informados a respeito disso, estamos confundindo o processo com aquilo que somos, esse movimento que aparece na Consciência, com aquilo que somos e por isso estamos sofrendo. Para a grande maioria, esse movimento interno da Consciência em forma de pensamentos, sentimentos e emoções é algo muito doloroso, porque a grande maioria vive no estado de profunda negatividade interna. Seu mundo imaginário é muito negativo. Isso explica muitos sentimentos desesperadores. Isso explica o sentimento de suicídio. O sentimento de estar morrendo, o sentimento de estar se auto-destruindo e o próprio desejo da auto-destruição. Porque esse mundo imaginário, esse mundo produzido pelo pensamento, com seus quadros negativos, gera tudo isso.

Nós queremos convidá-lo nesse encontro a descobrir aquilo que nós chamamos aqui de meditação. A meditação é isso que acontece dentro dessa auto-investigação, de que aquilo que está acontecendo está acontecendo dentro da Consciência, e você é essa Consciência que testemunha aquilo que acontece. Nós queremos convidar você a não rejeitar, a não lutar, a não se fragmentar, criando uma divisão entre aquilo que acontece dentro da própria Consciência e aquilo que contempla, o que acontece dentro da própria Consciência. Porque, se você faz isso, isso é mais um truque do pensamento. Não é preciso criarmos essa cisão, essa fragmentação, essa divisão, porque isso é algo artificial, criado pelo próprio pensamento. Então, nós queremos convidá-lo apenas, a ser a testemunha. Ao mesmo tempo, a própria substância, ficando diretamente com o que é, mas trazendo Consciência a isso.  Diante de um sentimento, de uma emoção e de um pensamento não importa se ele é profundamente negativo e que lança você nesse estado de profunda dor, de profunda tristeza... Seja uma testemunha, entre fundo nesse instante, em plena Consciência... Fique com isso, não tecendo ou formulando novos filmes na tela de sua mente, criando a justificação para esse sentimento, criando a justificação para essa emoção, mas apenas testemunhe o que surgir, a nível de pensamento, sentimento e emoção. Seja a testemunha dessa substância, isso é meditação. Meditação é trazer Consciência a esse instante, a esse momento presente. Quando isso que está aí, surge, se manifesta, você constata, você observa. Se isso é feito de uma forma real, acontece uma quebra de identificação com o próprio movimento, essa identificação é quebrada, porque a sua natureza real, como testemunha, como Pura Consciência, é aquela na qual isso aparece, se mantém por um tempo e logo desaparece. Isso é o fim desse mundo subjetivo, isso é o fim desse mundo imaginário, isso é o fim dessa identificação com esse sentido de um "eu" sofredor.

Nós estamos colocando aqui algo muito prático, algo experimental. Estamos falando aqui do fim desse mundo imaginário, do mundo mental, deste mundo de sofrimento, mantido e sustentado por essa identificação, dessa testemunha que se esqueceu ali, que se perdeu ali, desta Consciência que perdida nesse movimento mental, o que temos agora é pura inconsciência, é essa ilusão desse mundo subjetivo, é essa ilusão desse mundo imaginário. Nós queremos dizer agora aqui, para você que nos escuta, que nos acompanha: quando isso é feito exatamente assim, quando há essa observação, esse testemunhar direto do que quer que surja no campo da Consciência, não importa o que surja ali, ou o que surja aqui, se isso é observado, esse mundo imaginário termina, esse mundo subjetivo termina e esse mundo novo, essa realidade se manifesta como liberdade. Isto é o fim desta "pessoa", é o fim desta identidade separada, isso é o fim do sofrimento e da infelicidade inerente a mente, inerente a essa subjetividade. Estamos agora diante dessa manifestação que é a manifestação impessoal de nossa natureza essencial, de nossa natureza real que é liberdade, que é paz, que é alegria sem causa, que é felicidade, que é realização, que é serenidade... Estamos diante da libertação.

O encontro nesta noite, nele nós estamos apontando para essa única direção, assim estamos diante desta real compreensão. Espero que tudo aquilo que foi colocado aqui, nesse encontro, tenha encontrado em cada um de nós essa abertura para esse real trabalho ter mais uma vez essa liberdade acontecer em cada um de nós.


Satsang transmitido pelo Paltalk na noite de 14/09/2011

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Nada do que Pensamos Ser é o que Somos



No que diz respeito a auto-realização, você não tem que aprender nada, a não ser, recordar-se de como ser totalmente natural, deixando para trás esses velhos conceitos referentes ao que seja a realização. Só é preciso deixar fluir e isso não se apresenta em nenhum livro.

Mantenhe-se como uma criança, uma criança que não dá atenção para adultos letrados, cheios de letra na cabeça e vazios de coração. Esses adultos letrados são como enormes tambores que fazem muito barulho mas que são totalmente vazios por dentro.

A realização ou o final da coisa é o fim da dualidade. Inicialmente, ocorrem "entradas e saídas" nessa Consciência da própria Consciência. Há um período de maturação, de instalação, de estabilização dessa Consciência na própria Consciência. Isso ocorre quando acordamos, quando estamos despertos mas não saímos totalmente do sono. Quando a realização ocorre, toda busca, toda pergunta, cessa.

Há só Consciência, é só o que há, a mente é uma sobreposição, um véu, uma aparição, que vem e vai. Aqui não há mais nada como sofrimento ou ilusão. Apegos, desapegos, pecado, santidade, certo, errado, alto, baixo, isso só é possível na mente. Toda dualidade que gera a escolha e também a ilusão de livre-arbítrio, desaparece.

Escolha, livre-arbítrio, controle, são tudo criações do próprio pensamento, tudo imaginações, alma, céu, inferno, reencarnação, purgatório, tudo o mais existe só no campo da imaginação da própria mente. O conflito e a perturbação só ocorrem quando, pela falta de observação, instala-se a identificação com os conteúdos da mente, isso é crer em algo que o pensamento diz, é aceitar sua "realidade".

Não há tal coisa como "mente", tudo é só movimento do pensamento, inconsciente e habitual, condicionado. Isso é o que chamamos de ego, mas que ego? A observação do movimento do pensamento é a chave para a desconstrução do que o próprio pensamento nomeou de ego. Assim como observador e coisa observada, tudo isso é só pensamento. Isso é incrível, mas isso também ainda é parte do que é. Se isso está aí, sem escolha, isso não é mais nenhum problema, o pensamento não é o problema. A identificação da Consciência com seu conteúdo, em uma fundição com ele, sim, pois ela se "esquece" de si mesma e a ilusão aparece, aparentemente, pois como pode a consciência esquecer realmente de si mesma?

Nada do que pensamos ser é o que somos. É preciso um simples e direto despir-se de tudo o que temos percebido como o que somos; nada mais é preciso, nada a fazer ou conseguir, ou realizar, ou praticar, ou buscar... É só render-se, entregar-se, a rendição e a entrega, a rendição ao fato da impotência do esforço, do controle... Só entrega ao silêncio, a não-ação que dá espaço a constatação do real, da nossa real natureza. Nisso um trabalho em Satsang é fundamental, para que possamos ter esse apoio, essa ação da Graça, presente nesses encontros de meditação, auto-investigação é entrega ao que é. É assim mesmo.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Paltalk Satsang - A Relação entre Mestre e Discípulo


É importante esse encontro com a Verdade. Esse encontro com a Verdade, aquilo que é conhecido por Satsang, representa algo que só pode ser realmente visto quando não há qualquer intervenção da mente, quando não há qualquer senso de um autor, de um fazedor, de um pensador, quando não há qualquer duração nessa crença de uma experiência pessoal. Basicamente, a mente vive nessa crença. A mente não conhece outra coisa a não ser o conceito dos opostos – a prisão ao conceito da separação entre aquele que observa e aquilo que é observado, entre o pensamento acontecendo e uma suposta identidade por trás do pensamento.
A mente vive nessa base, presa à impressões de memória, presa a imagens. Para a mente, as imagens do passado, essa coleção de lembranças, de imagens presentes nessa assim chamada memória, isso representa a vida dessa pseudo-identidade. Outro aspecto da mente é a questão do futuro – uma presunção, uma conjectura, uma crença. Para a mente, o presente não é essa Presença. Para a mente, o presente, este instante, para ela não tem qualquer interesse, ela não tem interesse nisso, seu movimento é sempre um movimento de uma entidade, que faz, que sente, que pensa, que se lembra, que realizou ontem e vai realizar amanhã.
Então, esse “presente” não é o real presente, que é a Presença. Isso é algo que pode ser percebido e reconhecido como ainda parte da mente. O passado é meramente impressões, e o futuro presunções. Isso significa que não há uma constatação da realidade presente neste instante, a realidade desta Presença. A constatação livre da ideia de uma entidade nisso é a Consciência, é o Ser, é a Verdade sem o senso de um pessoal fazedor, pensador. Assim, a mente está sempre presa a essa condição de dualidade – ao positivo, ao negativo, ao amor, ao ódio, ao prazer, à dor, sempre com um sentido de uma identidade por trás disso, qualificando isso, preso ao conceito de espaço e ao conceito de tempo, espaço e tempo para uma identidade presente.
Vou falar um pouco sobre essa relação entre Mestre e discípulo. Vamos ver onde isso entra dentro dessa fala. A pureza do “ensino” aqui compartilhado em Satsang reside exatamente nessa ausência, na ausência do sentido de alguém nessa coisa. O Mestre é a ausência de uma entidade separada, assim como o aluno é a ausência de uma entidade separada. Então, essa relação entre Mestre e discípulo, que é o que acontecem em Satsang, não é uma relação. Você está sempre diante de Si mesmo, de Si mesma. Uma “pessoa iluminada” não é alguém. O próprio sentido de separação, de individualidade, de um fazedor, de um pensador, isso fica perdido.
Assim, não há uma relação entre Mestre e discípulo. Isso é perdido agora mesmo aqui em Satsang. O discípulo é o Mestre, o Mestre é o discípulo, e não há alguém nisso, não há uma pessoa nisso. É a Consciência se reconhecendo nela própria, sem o sentido de separatividade, além da mente, além dessa condição de dualidade, de separação entre sujeito e objeto, entre pensador e pensamento, entre Mestre e aluno. Então, estamos diante da real Presença neste presente instante. Isso é Satsang.
Abandone por completo toda ideia – porque é só uma ideia, só uma crença – de que existem pessoas nessa sala, e uma figura principal, o assim chamado Mestre. Essa mesmo é que não existe! Quando há essa abertura, essa sensibilidade, essa admissão de que não há qualquer sentido de separatividade, apenas uma só Presença, um só Ser, um só coração nesse encontro. O que temos é a Consciência se reconhecendo Nela própria. Então, o Trabalho Real se faz possível aí, para esse mecanismo corpo-mente.
Então eu quero repetir isso para vocês: a Verdade só pode ser vista sem a intervenção da mente, sem a intervenção desse sentido de separatividade, quando a ideia de Mestre e discípulo desaparece. É quando o “discípulo” faz o seu trabalho e o “Mestre” pode fazer o trabalho Dele. Nós aprendemos em Satsang que não há nada para aprender. Nosso próprio pessoal esforço nos expõe, nos coloca numa posição de grande vaidade e orgulho. A real entrega é a real humildade, e ela reside na ausência do sentido de alguém fazendo qualquer coisa.
Assim, a ausência de separação, de separatividade, é essa ausência da ilusão de alguém dando e alguém recebendo. É a ausência dessa ilusão da relação entre sujeito e objeto. Essa fala nos conduz a essa abertura, a essa sensibilidade, a essa percepção, a essa constatação de pura Consciência, de pura Presença, de puro Ser, a beleza dessa não separação. Essa Presença, esse Ser, essa Consciência, isso que é sua Real Natureza transcende a qualquer manifestação. Eu digo a qualquer expressão de manifestação. Assim, você em seu Ser está além do pensamento, além do sentimento, além da emoção, além de qualquer sensação sensorial, ou seja, além do corpo, além de tempo e espaço, além da multiplicidade de aparições, de manifestações.
Você é Consciência. Essa Consciência que percebe aonde tudo isso aparece e que está além mesmo dessa percepção. Nesse sentido, poderíamos dizer que você é essa Consciência e também está além dela. Não coloquem isso como mais um conceito entre outros conceitos. Abandonem todos os conceitos. Fiquem sem nenhum conceito. Permaneçam nessa não objetividade, nessa não subjetividade, nesse não saber, nesta não certeza. Isso traz essa quebra de padrão mental de condicionamento, de repetição da mente. É quando todas as imagens ficam soltas, todas as lembranças, toda essa coleção de recordações, toda essa memória não tem mais qualquer importância para essa “pessoa”. Então essa “pessoa” não pode se manter, a “pessoa” do buscador, a “pessoa” do fazedor, a “pessoa” realizadora, essa “pessoa” presente com suas escolhas, soluções, decisões, afirmativas, certezas.
Quando Isso está presente, fica esse espaço além do tempo e do espaço. Esse espaço é a liberdade da vida, da Vida sem essa ilusão, somente a Vida, não há um “eu”, um “ego”. Então, fica apenas essa leveza, essa Graça, esse sorriso, essa Liberdade, essa Paz, esse Silêncio. Uma sombra é algo real, mas na verdade uma sombra não é algo real. A única realidade da sombra é a presença do sol. Essa nossa vida centrada nessa identidade, nesse “mim”, nesse “eu”, nessa “pessoa”, nesse “ego”, é algo que nos parece muito real. Mas é real como a sombra. A única realidade presente é essa Consciência, essa Presença, esse Ser. Assim como a sombra não é real, esse “ego” não é real.
O trabalho em Satsang é essa investigação nessa entrega, nesta real meditação. É quando o sentido de separatividade é solto. Você não se apoio mais nisso. Então essa sombra é só uma sombra, algo que aparece porque o sol está presente. É sempre a Consciência tornando possível qualquer aparição e desaparição. Se você deixa de olhar para o sol e olha para a sombra, ela está lá. Mas se você deixa de olhar para a sombra, você só tem o sol. Não há qualquer sombra. Então, na verdade, essa sombra é irreal. É irreal no sentido de que é dependente do sol para manter sua existência. No entanto, temos esse paradoxo de que a sombra é suficientemente real e ao mesmo tempo ela é irreal.
Quando você chega ao Satsang, eu lhe convido a deixar esse seu olhar para a sombra, abandonar esse olhar seu para a sombra.  Isso significa se desidentificar da memória, essa coleção de imagens, de lembranças, significa o fim desse passado, disso que é só lembranças de uma pseudo, de uma ilusória identidade. Então, não há mais sombra.
Estamos falando a você do seu Estado Natural, livre do “ego”, livre da “pessoa”, livre do sentido de separatividade, livre da realidade da sombra. De fato, parece que esse ego é sempre uma sombra que nos assombra. Uma sombra que nos assombra aqui nada mais é do que uma assombração, uma ilusão, um fantasma, uma assombração é algo alimentado pelas nossas crenças. Entre fundo nessa investigação, nessa imersão, nesse mergulho em Si mesmo. Vá até a origem, a fonte, a base aonde se sustenta essa ilusória identidade e você não vai descobrir outra coisa ali, a não ser essa Beatitude, essa Paz, essa Verdade, essa Liberdade, essa Graça, esse Amor de sua Real Natureza.
Na Iluminação fica claro que não existe “alguém” aí. No Despertar fica claro que não havia “alguém” dormindo.
P – Esse Estado Natural é só silêncio?

M – Esse Estado Natural é Aquilo que comporta tudo. Comporta tudo e está além de tudo. Esse Estado Natural é esse no qual tudo aparece por algum tempo e logo desaparece. O silêncio, o não silêncio, o som, o não som. O que quer que seja dito acerca deste estado não é ele. Aquele que for capaz de lhe descrever esse estado, não sabe. Você pode realizar Isso, descrever nunca. Imaginar, nunca. Aprender algo sobre isso, nunca. A boa notícia é que você é Isso. A boa notícia é que você é só Isso. Tudo o mais está aparecendo e desaparecendo Nisso, que é esse Real Estado Natural. Na Índia eles chamam de Sat-Chit-Ananda, Ser, Consciência e Beatitude. É o estado sem ego, sem o fazedor, sem o pensador, sem o autor. Algo simples e real.

Fala transcrita do encontro ocorrido via Paltalk Senses no dia 23 de dezembro de 2013

domingo, 22 de dezembro de 2013

Paltalk Satsang - Sem um Trabalho é Impossível




Participante - Você pode falar sobre ficar no Ser? Por que às vezes e como a ilusão do "eu" volta? É um processo?

M.G – Eu diria que isso é o resultado de um trabalho. A natureza da mente é ser persistente, é não se entregar fácil. A mente só vai até o fim mesmo. Ela jamais entrega. Permanecer em seu Estado Natural, em seu Estado Real, aquilo que eu chamo de “assentar” em seu Estado Natural, isso é resultado de um trabalho acontecendo aí nesse mecanismo, o trabalho desta mesma Presença, desta mesma Graça, desta mesma Consciência. Sem um trabalho é impossível.

Essa Consciência é uma chama de Presença. Na mente, nós estamos inscientes, inconscientes, não há presença, há só memória, há só identificação com essa memória. Há somente o sentido de separação, o sentido de dualidade, que nós chamamos também de dualismo. Esse é o estado comum, é o estado natural da mente. Satsang é essa proposta do trabalho.

Participante – É sutil a diferença entre procurar controlar a mente - o bandido se fazendo de policial - e a investigação da existência da mente. Você poderia comentar, Marcos?

M.G – É aí que está o trabalho: na autoinvestigação, na meditação e na entrega. Entrega aqui significa rendição, uma profunda desistência desse agente, desse “eu” no controle. Quando eu falo de autoinvestigação, estou falando de uma investigação que não pode ser feita pela mente. Essa investigação é um trabalho da Consciência. A mente não investiga a mente, a mente se embola com a mente. É o que Ramana chamava de bandido se disfarçando de policial para prender o bandido. Não vai prender nunca.

A mente é inconsciência, ela não pode chegar à Consciência. O trabalho do despertar é um trabalho de descarte do sentido de separatividade, e isso é a mente. A mente não se autosuicída. É necessário um trabalho de autoinvestigação, que é um trabalho da Consciência nesse mecanismo. Esse trabalho é um trabalho de pura investigação, que é um trabalho de meditação. Meditação não está separada dessa investigação, que não está separada dessa entrega. A mente jamais vai deixar de se disfarçar de policial, ela sendo o ladrão. Ela sempre vai dizer: “eu resolvo tudo”, “eu conheço isso”.

Sem uma intervenção desta Presença, que é Consciência, que é Graça, não há trabalho. Sem trabalho, não há o Despertar. Isso porque essa estrutura corpo-mente não entra nessa sintonia, nessa harmonia. Não há um trabalho acontecendo nessa estrutura corpo-mente. Repare que o nosso interesse é muito curto, muito pequeno, muito pouco. Nós não temos o foco suficiente. Isso explica porque levamos muito tempo. Estamos completamente dispersivos. Temos diversos outros interesses antes desse. Nossa energia está completamente dispersa, está em várias direções, menos nessa direção principal. Ficamos entusiasmados por alguns momentos e logo a nossa mente está em busca daquilo que mais interessa, que é a sua continuidade.

Participante - Como se convida essa Consciência, sem se deixar enganar pela mente?

M.G – Tudo isso é uma ação dessa Presença, dessa Graça. Não se deixar enganar pela mente é resultado desse foco, dessa entrega, desse trabalho. A Graça é algo sempre presente, mas não há foco. A mente tem muitos outros interesses antes desse. Esse ela não tem. E ela se passa por você. Ela nada sabe a respeito do seu Estado Natural, ela não tem qualquer interesse na paz, na liberdade, na Consciência. Na mente não há nada, a não ser esse engano – o engano da autoidentidade. O que temos repetido é que sem estarmos determinados – eu chamei isso aqui de focados – somos facilmente desviados por essa falsa identidade. Essas são as nossas tendências internas latentes. Na Índia eles chamam de vasanas, são os nossos interesses, motivos, razões, desejos, intenções. Essas nossas prioridades.

A Verdade é a última coisa. A Liberação é a última coisa. O fim dessa historinha, dessa suposta identidade, é a última coisa. A mente ama ser o que ela é. Ela ama carregar essa identidade de mãe, de marido, filho, de pessoa, de alguém indo para algum lugar, alguém com um passado, alguém com um futuro. A mente é isso – você é isso nessa ilusão de ser alguém. Um nome, uma forma, uma história. Um passado, um presente, um futuro. Quando você se aproxima desse trabalho, ele não se ajusta a esses interesses dessa suposta identidade.

Participante - Essa sensação de ser alguém é uma imaginação, um sonho?

M.G – Exatamente. Na verdade, um pesadelo. Um pesadelo disfarçado com alguns momentos de prazer, que chamamos de alegria. Mas a dor e o pesar e o sofrimento é o pesadelo dessa ilusória identidade, desse “alguém” que é o pesadelo – desse pesadelo que é ser “alguém”. Dessa imaginação, desse sonho. Estou apontando pra você algo além disso, além desse você que você acredita ser. Isso é a real Liberação, a real Paz, o real Amor, a real Felicidade. Isto é Realização. Tudo o mais que você conhece está dentro desse pesadelo. Todas as fantasias que a mente tem engendrado, criado. Faça uma lista e me mostre, e eu vou lhe dizer: “isso, isso também, isso aí também e isso também”. O que quer que você esteja pensando ainda faz parte desse pesadelo. Você é essa Consciência pura.

Participante – O agora seria o melhor foco?

M.G – Não. O agora é só uma crença ainda da mente. O melhor foco é o trabalho em Satsang. Isso que está acontecendo agora aqui, esse trabalho de investigação, esse é o melhor foco. A mente pode teorizar sobre o agora, e esse agora nada mais é do que a mente na sua intenção de segurar alguma coisa, de apanhar alguma coisa, de ter alguma coisa ainda, naturalmente dentro do campo dela. É preciso compreendermos quem somos. Se compreendermos nossa real Natureza, essa Presença é a Presença do que É. Isso é o fim da crença do agora. O agora é só uma palavra, enquanto que Consciência é Presença, é Liberação, é Amor, é Paz.

Vocês precisam ter senso de prioridade. Agora é o momento de prioridade. Quantos estão nessa sala? Alguns já foram dormir. Mas já estão dormindo a muito tempo. Agora não é a hora de dormir, é a hora de acordar. Autoinvestigação, meditação e entrega, esse é o foco. Falar do agora é como falar de meditação sem isso. Meditação é o seu Estado Natural. Quando se acorda fica claro que não há qualquer pesadelo. O pesadelo era só a identificação com a mente e esse movimento dela em seus interesses. É o sonho. No acordar, não há pesadelo, porque não há mente, não há “eu”, ego, pessoa, “mim”. Você não está nisso, não tem você nisso.

Participante – Não tem fulano de tal, indivíduo, é só o todo, é só a Graça, sempre foi.

M.G – É uma bela teoria. Teorizar sobre isso é muito fácil no intelecto, mas isso não resolve. Você está vendo isso, está vivendo isso, isso é você? Você sabe o que está falando?

A beleza do Satsang é a possibilidade de abandonar as crenças, inclusive as crenças das falas de Satsang. Falas de Satsang se tornam crenças, ou seja, lixo. Essas falas são abobrinhas, não servem para nada.

*Fala transcrita do Satsang via Paltalk Senses do dia 06 de Dezembro de 2013 às 22:30 horário de Brasília.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Paltalk Satsang - A Graça do Guru





Eu quero falar um pouquinho com vocês sobre a importância da Presença, da figura do Guru; essa Presença tem toda importância. Todos os que assumiram o papel de Mestre, aqueles que assumiram esse papel, vivendo a figura do Guru,  todos indicaram essa necessidade. Podemos falar um pouquinho sobre isso. Primeiramente, porque o contato com o Mestre nos mostra o valor de uma real rendição, a verdade sobre nós mesmos, e isso nos dá essa constante lembrança de que essa Verdade é possível, e de que não há alternativa. Não há outra forma de um real viver, senão o viver como essa Presença - esse viver em seu Estado Natural; viver como Ser; viver em Paz , Amor, Liberdade e Felicidade. Então, acontece essa entrega ao trabalho, a esta Presença, ao Ser, ao Guru, a Deus, a si mesmo. Não há qualquer separação entre Ser, Guru, Deus e você mesmo em sua real "identidade", em sua verdadeira Natureza.

Então, esse contato, primeiro, nos traz essa lembrança. Nós vivemos identificados com a mente, e, em sociedade, estamos em contato com o mundo da mente, um "mundo" todo ele criado pela mente... adormecido neste "mundo",  nesta ego-identidade.  A presença de um Mestre  é fundamental, pois Ele é Aquele que não apenas está Desperto, Acordado, vivendo essa Verdade, a Realidade de sua Natureza Real, como é Aquele que tem, nesta Graça, a habilidade e a capacidade de compartilhar Isso. Então, diante de um Mestre, temos, inicialmente, primeiro isso. Depois, vem essa oportunidade de estarmos aqui, como agora; nesse momento, formamos uma comunidade voltada inteiramente para esse olhar, o olhar para Isso. Estamos  colocando o foco inteiramente Nisso, e é o que acontece quando você está na Presença Daquele que está Acordado, em uma sangha.  O Seu foco é o Ser. Ele é Aquele que vive permanentemente em seu Ser, em sua Natureza Real... É Aquele que pode constantemente nos lembrar Isso.

Então, é algo de grande valor estar em contato com a Presença na forma do Mestre... a Graça na forma do Mestre. Em segundo lugar, nós temos um belíssimo espelho, com o qual nós podemos naturalmente nos ver ali; ver nossas tendências, nossas manias, nossos hábitos, nossas ligações com esses padrões da mente egóica - esta força da ilusão da mente nesta ego-identidade. Sem um espelho nós não podemos ver isso, não há como ver isso. No "mundo" da mente, tudo o que temos é a mente. Para onde quer que você olhe, você não tem um espelho, não há referência.

E, em terceiro lugar, nós temos nessa Presença aquilo que na Índia eles chamam de a Graça do Guru. Há algo presente que está além da fala: é esse incondicional Amor da Presença... esse enorme, indescritível, incondicional Amor Divino. O amor do Mestre é fundamental. O Mestre é Aquele que tem algumas tarefas. Não é possível você investigar isso na mente, porque os truques da mente só podem ser vistos diante dessa Presença. A mente não pode ver a mente; apenas a Consciência pode ver a mente... apontar a mente, e essa é uma das tarefas no Satsang. Essa é uma das tarefas da Presença, na forma do Guru: nos mostrar a mente. E assim nós temos um espelho, pois podemos ver Nele aquilo que somos. O Guru nos mostrará tanto nossos padrões - os padrões dessa mente egóica -, como também, de maneira clara, esses momentos de ver a nós mesmos limpos dessa ilusão do ego. Ele irá provocar tudo o que precisamos ver, e um Mestre é tudo o que precisamos. Raramente o Guru  não vem em forma de uma "pessoa", e esses casos são exceções; como Ele geralmente vem nessa figura, assim temos um apontar direto. E outra coisa presente é a habilidade de ver o fruto amadurecer, e quando ele amadurece - temos, na tradição do Zen, muitas histórias estranhas sobre isso –, quando o Mestre vê o fruto maduro, Ele derruba o fruto, dá um tapa no estudante e ele acorda.

Essa imagem do Mestre Zen é a imagem do que acontece. Apenas a Presença pode reconhecer a Presença, facilitar esse Despertar. Na verdade, o Mestre é apenas um amigo. Não há qualquer diferença entre o Mestre e o discípulo. A diferença está nessa habilidade, nessa capacidade desse Trabalho possível. A palavra Guru, na Índia, significa “Aquele que traz luz à escuridão”, aquele que pode apontar essa Realidade presente, a realidade do Ser, da Consciência. A Graça, a Presença, o Ser, o Guru e o discípulo – aqui estamos falando dessa Única Realidade, a Realidade que é Deus, que é a Verdade. Apenas a mente vê a separação, enquanto não há nenhuma separação. Portanto, essa é a visão da Consciência, da Presença, do Ser... É a visão Daquele que está livre.

Aquele que está Desperto, Realizado, iluminado ou como quisermos chamar Isso, não pode mais se perder  na ilusão da separatividade... Nosso convite dentro de Satsang é um convite que representa estar disponível a essa Graça, a essa facilitação, a essa Entrega, para essa constatação direta. Você está aqui para realizar Isso - seu Estado Natural, seu Estado Real. Assim, um Trabalho se faz necessário, e essa é a nossa ênfase, porque sem esse Trabalho aí não há um relaxar. A mente é sempre tensão, ocupação, estresse, agitação. Seu Estado Natural é pura Bem Aventurança, o que significa que só há essa Presença fazendo tudo. Uma vez que esse Estado está aí assentado, não há mais tensão ou agitação; não há mais ocupação ou preocupação; não há mais trabalho; não há mais medo.


P – Como não se sentir vítima do próprio pensamento?

MG – Aqui, mais uma vez, temos o próprio pensamento ocupado com isso. A mente, que é esse sentido de uma identidade presente, nos dá, através do pensamento, algum significado para a “nossa vida”. Abandone todos os significados, se desidentifique por completo de qualquer coisa que a mente diga sobre você. Quando nós nos desidentificamos da mente, de qualquer significado que ela esteja dando a esse sentir que aparece agora, aqui, quando ficamos apenas com o sentir, sem procurar um significado para isso, logo percebemos que esse sentir desaparece da mesma forma como apareceu. Não há uma identidade, então há uma quebra de condicionamento, há uma quebra para esse padrão. A mente é muito hábil nisso, daí a importância de encontros como esse que estamos fazendo aqui. Isso aqui é um momento de investigação. Esse encontro tem o poder de pôr fim a isso; é um trabalho que acontece, nesta Presença, nesta Graça, além da própria fala.

Agora mesmo, neste instante, temos essa oportunidade do silêncio, que é meditação. Meditação é esse Estado Natural em você, livre de todos os estados mentais, que vêm e vão. Nosso Trabalho de autoinvestigação, meditação e entrega nos dá essa oportunidade de assentarmos nesse Estado, que é o nosso Estado Verdadeiro, que é o nosso Estado Real, que é o nosso Estado Natural.


P – Podemos dizer então que há “evolução espiritual”?

MG – Não, não existe isso. Sua Natureza Real é Consciência, é essa Ilimitada, indescritível Consciência. É esta Presença. Sua Natureza Real é Deus. Não há qualquer evolução em Deus. Sua Natureza Real é imutável.


P – Mas há movimento?

MG – Sua Natureza Real é essa Presença na qual todo movimento aparece e desaparece. A existência, em sua manifestação, conhece evolução, mas a existência, em sua essência, em sua Natureza Real, é imutável. Não há qualquer evolução na Consciência, nessa Essência, nesta Presença. Apenas o fenomênico muda, cresce, diminui, evolui; apenas o que "parece ser" parece evoluir ou involuir, parece se mover ou não se mover - é apenas uma aparição.



* Fala transcrita de um Satsang via Paltalk no dia 18 de dezembro de 2013, às 22:30, horário de Brasília.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Paltalk Satsang - Toda sua frustração é a frustração desta ilusória identidade


Satsang é esse encontro com Aquilo que somos. Com a indescritível, inexplicável Verdade que trazemos. Essa é a nossa Natureza Real, a nossa Natureza Verdadeira. Quando você se encontra em Satsang, você se encontra apenas com você mesmo. Todos vocês presentes neste encontro estão se lembrando – não se lembrando do passado, porque não há passado, vocês estão se lembrando Daquilo que são, Daquilo que vocês são na Natureza Interna, nessa Natureza Verdadeira de cada um de vocês. Não esse movimento superficial. Esse movimento superficial do passado, que é só memória não é a Real Recordação. A recordação que temos em Satsang é de nossa Natureza Inata, nossa Natureza Verdadeira, desse Estado que não é um estado, esse Estado que é livre de todos os estados conhecidos, lembrados, que fazem parte dessa memória, dessa assim chamada “memória do passado”.
Quando você chega ao Satsang, você é convidado a entrar, a adentrar profundamente em cada imagem, em cada lembrança, em cada sensação, em cada sentimento, em cada percepção e encontrar essa única substância comum a tudo isso. Essa única substância comum a tudo isso é essa substância que aparece como uma substância nessas experiências, ao mesmo tempo ela é a testemunha dessa substância. Isso não é outra coisa senão essa Consciência. Estamos dizendo que se você entra fundo, profundamente, em qualquer uma dessas experiências – pensamentos, imagens, percepções, sensações, emoções – você encontra Aquilo no qual tudo está acontecendo, que é essa Consciência.
Essa Consciência é o que nós chamamos de Presença, sempre presente. As experiências são mutáveis, e essa substância, que também é a testemunha dessas experiências, que é a Consciência, permanece imutável como sua Real Identidade, como sua Verdadeira Natureza. Essa Consciência é impessoal, é imparcial, é intocável. Como sua Natureza Verdadeira, ela é Paz, Liberdade, Amor, Felicidade. Assim ela é a substância e ao mesmo tempo a testemunha do pensamento, da sensação, da percepção, da emoção. Toda a sua frustração existencial é a identificação com a experiência, é a identidade que você dá à experiência. Acompanhem isso com calma – a identidade que você dá à experiência do pensamento, da imagem, da sensação, da percepção, do sentimento, da emoção.
Toda a sua frustração é a frustração dessa ilusória identidade. A ausência dessa ilusória identidade é a ausência da frustração. Quando o pensamento se levantar, apenas seja uma testemunha. Não dê identidade a isso. Quando a imagem se levantar, seja uma testemunha, não dê uma identidade a isso. Quando um sentimento se levantar, seja uma testemunha, não dê identidade a isso.  Quando a emoção aparecer, não dê identidade a isso. Isso é algo que está passando. Nós estamos dando a qualquer experiência uma identidade. Uma identidade jamais deixa de se frustrar, deixa de se decepcionar. A natureza da pessoa é a miséria, porque é a natureza da mente viver em limitação. Você não é limitado em seu Ser, na mente você jamais deixa de ser limitado, sendo alguém. Sendo alguém, você está diante da limitação ilusória que a mente tem criado.
Mente sempre é sinônimo de insatisfação, de miséria, de sofrimento. Deixe solto aquilo que não é você e permaneça em Si Mesmo como esta Consciência, como esta Presença, como esta impessoal, não limitada, não condicionada Presença. Permaneça aí. Permaneça nesse testemunhar. Nós temos falhado nisso. Estamos no reino da insatisfação. O reino da insatisfação é o mesmo reino da frustração. Na mente, tudo é assim. A mente é esse espaço dessa ilusória identidade. Essa memória é uma simples construção da mente. Essas imagens carregadas de sentimentos, de emoções, crenças, é essa nossa ilusória vida, a vida do “eu”.
Em nossas mentes não somos reais. Em nossas mentes, acreditamos estar no controle, porque acreditamos ser alguém, acreditamos ter mente, e assim temos a nossa vida e também a nossa mente. A mente não é sua, a vida não é sua, em “sua vida”, você é uma frustração, em “sua mente” você é a própria miséria. No entanto, você não é nada disso. Nessa assim chamada “minha vida”, “minha mente”, você não é real. Cada memória que passa aí é simplesmente uma corrente de pensamentos, de imagens, de quadros, de coisas, pessoas, lugares, situações, eventos. Memória sempre se refere a pensamentos. A referência da memória são pensamentos, pensamentos acontecendo neste instante apenas como uma experiência. Você está além da experiência como esta Consciência, como esta Presença.
É como documentários que aparecem na tv. Você olha para a tela e vê o documentário ser exibido, mas a tela da TV continua lá, sempre disponível para qualquer tipo de documentário, para qualquer tipo de apresentação. O que quer que apareça ali na tela da TV não vai fazer a menor diferença para a tela. Se é um documentário educacional, um documentário alegre ou triste, que retrata a verdade ou a não verdade, é só um documentário passando. Para a tela não faz a menor diferença. Se tem coisas alegres ou tristes nesse documentário, a tela jamais é afetada por isso. Ela é imutável, imovível, inatingível. Ela se mantém como esta Presença, como esta Consciência.
P – Como Consciência, posso interferir no documentário, no sonho, na brincadeira?
M – Não. Qualquer intenção, desejo ou motivação de interferir naquilo que aparece e desaparece, naquilo que está mudando como esse documentário, como esse sonho, como essa brincadeira, isso não parte dessa tela, não parte dessa Consciência. Isso é uma fantasia da própria mente. Não há nada que precise ser mudado, e não há alguém para mudar qualquer coisa. O sonho já é tudo o que precisa estar ali, é uma expressão dessa brincadeira, a brincadeira dessa Consciência, que dessa forma quer brincar. Você não está nisso. Você é a testemunha e também a substância, mas não como uma identidade separada, não como “alguém”. Como “alguém” nós temos aí só a ilusão de uma imagem dentro do sonho, acreditando poder fazer qualquer coisa com o sonho.
Você em seu Ser, em sua Natureza Real como Presença, como Consciência, já está por demais satisfeito para querer mudar qualquer coisa, interferir em qualquer coisa. É sempre a mente. A ilusão da mente em sua insatisfação, no desejo de ver algo diferente. Você em seu Ser já é pura Felicidade, Completude. Em seu Ser, a brincadeira é linda, completa. Assim sendo, tudo o que você precisa é assumir Aquilo que você é: Pura Presença, Pura Consciência, Puro Ser. E aí fica claro que o que quer que apareça aí como brincadeira nessa tela, nessa Consciência, está perfeito, está tudo no lugar.
P – Muitas vezes meditando, eu consigo tocar o silêncio, permanecendo nele. No entanto, sinto que a mente ainda está lá, está presente, apenas aquietada, mas presente. Como transcender este ponto?
M – Aqui, a questão é se podemos olhar para isso como se apresenta. Isso que temos agora, aqui, neste instante. Não temos que nos preocupar com o silêncio. Aquele silêncio que você pode tocar e depois escapar de você não interessa. Tudo o que deve ser o seu interesse é aquilo que se mostra aqui, neste instante. Assim, a questão é: você pode ficar com aquilo que se apresenta agora, neste instante? Sem qualquer interesse de se livrar, apenas o interesse de ficar com isso?
Nós tratamos essa realização como a realização do silêncio, enquanto que na verdade essa realização é a realização daquilo que se mostra neste instante. É a constatação disso que se mostra neste instante. Isso é a real realização. Seja o silêncio ou o não silêncio. Você está além de ambos agora nesta constatação. Jamais tente alcançar o silêncio ou reter o silêncio. Apenas fique com o que está aqui neste instante, deixe solto, seja o silêncio ou o não silêncio, porque você está além de ambos. Realização não é apanhar o silêncio, realização é ficar com o que se mostra, livre de dar a isso qualquer coisa especial. O silêncio não é importante, o não silêncio não é importante. Ou: o silêncio é o que é, e o não silêncio é o que é. E você está além de ambos. Daquilo que é não importante e daquilo que é o que é, aparecendo e desaparecendo neste momento.
Permaneça nesta Consciência que não se prende a nada, que não rejeita nada, que não agarra e que não rechaça o que quer que apareça quando aparece. A real meditação é isso: é ficar com o que é de forma desidentificada, agradável ou não, real ou não, silêncio ou não silêncio, não importa. Você como essa Presença está sempre presente quando tudo está passando, inclusive o silêncio. Quando você me diz que consegue tocar o silêncio e diz que sente que a mente ainda está lá, você precisa ficar com isso, com o que está presente. O que está presente é o silêncio, o que está presente é a realidade da mente lá. Mas na realidade está tudo agora presente. Permaneça nessa constatação, nesse olhar.
P – Isso é tudo muito claro à luz do intelecto, mas eu penso aqui como eu vou interiorizar isso, viver isso, enfim, conseguir minha liberdade...
M – A questão aí para você é: você pode fazer isso? Quando você diz “como vou interiorizar isso, conseguir minha liberdade”, a pergunta é: você pode fazer isso? Aqui, nós estamos diante daquilo que somente esta Graça, esta Presença, esta Consciência pode realizar. Por isso falamos muito em Satsang sobre autoinvestigação, meditação e entrega. Isto é um trabalho que não é seu, com um resultado que não é você que obtém. Não tem “você” no início nem tem “você” no fim. Recomendação para todos: Satsang é igual a Trabalho, igual a Graça. Isso significa autoinvestigação, meditação e entrega. Tudo o que você pode fazer, tudo o que cada um de vocês pode fazer, é descobrir o que é ficar quieto nessa disponibilidade de entrega, nesta profunda confiança e amor à Verdade, nesse Trabalho-Graça-Satsang. Então sim, ficar quieto e depois ficar quieto. E em terceiro lugar ficar quieto, de novo e de novo e de novo.


Paltalk do dia 16 de Dezembro de 2013

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